sexta-feira, 6 de setembro de 2019

Emmanuel à luz dos fatos

1. Introdução
A título de dar prosseguimento aos questionamentos levantados no artigo anteriormente publicado sem que, todavia, lhe seja uma continuação direta, o presente se propõe a focar nas ocasiões em que o suposto guia espiritual de Francisco Cândido Xavier, o Espírito que atendeu pelo consagrado cognome de Emmanuel, veio dar cumprimento a sua tarefa de orientar a este. Desde antes se esclareceu que o proceder de Emmanuel esteve muito ao largo da atuação oculta esperada de um guia espiritual segundo o prescrito pelo Espiritismo, de fato adequando-se mais ao posto de mentor, como era apontado por Chico e seus aderentes. Havendo construído uma carreira literária póstuma, o Espírito não demonstrou nenhum pudor em revelar-se por meio de romances autobiográficos, dando registro das identidades possuídas em vidas anteriores – na de maior destaque e pelo qual é lembrado, teria sido o bisneto de Públio Lêntulo Cornélio Sura, conspirador romano que, ao lado de Lúcio Sérgio Catilina tentou dissolver a República Romana cerca de 60 anos antes do nascimento de Jesus. Deste suposto bisneto não há prova que sustente sua existência, posto que uma vez executado o conspirador Sura em 63 a.C., seu corpo não foi reclamado por nenhum familiar ou parente consanguíneo, proceder de praxe, resultando concluir que não tivera filhos – menos ainda um bisneto.

Estes e outros pontos obscuros e duvidosos de seus livros já foram com minudência abordados – resta, no entanto, com o objetivo de chegar-se a uma conclusão acerca da natureza de Emmanuel, observar os extratos da vida de Chico Xavier, seu protegido, em sua atuação direta como guia. Algumas biografias foram detidamente examinadas para este intento; deixamos uma lista destas ao final do presente artigo para que o leitor possa, por seus próprios esforços consultá-las. Parte destas histórias e causos foram catalogadas pelo próprio Chico Xavier, seja por havê-las transcrito em artigos publicados amiúde na imprensa especializada, seja por tê-las relatado a amigos, companheiros e familiares, ou diante do público, como fez na histórica entrevista concedida ao programa Pinga-fogo da extinta TV Tupi, onde narrou o hoje famoso caso em que se viu sob forte turbulência em um avião que o levava de Uberaba para Belo Horizonte. A estes, portanto.

2. Passagens da vida de Chico Xavier
José Álvaro Santos, poeta, levou Chico Xavier para a capital mineira em 1933 à promessa de um trabalho que lhe pagasse melhor que o armazém de José Felizardo Sobrinho – conseguiu este uma licença de três meses e partiu com o versejador para Belo Horizonte, a contragosto de Emmanuel. Passado esse período e nada de emprego preparou-se para partir quando dois amigos de José Álvaro Santos o interpelaram, oferecendo emprego e estudo gratuito a custa de renegar O Parnaso de Além-Túmulo, seu primeiro livro, como obra dos Espíritos. Rapaz ainda, negou-se Chico a cumprir a condição, ademais os argumentos dos sujeitos que compararam-no a um sofrê, um pássaro hábil em imitar o estilo de canto de outras aves – Chico seria o sofrê dos poetas mortos, ou seja, nada de Espíritos. Emmanuel que não concordara com a viajem desde o princípio aconselhou o matuto: “_Sim, volte a Pedro Leopoldo e procuremos trabalhar. Você não é um sofrê, mas precisa sofrer para aprender.
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Quando retornou a Pedro Leopoldo, Chico voltou feliz as atividades do centro espírita – mas o público que já era pouco, minguou. Viu-se então sozinho a realizar as atividades da casa para os desencarnados. As histórias corriam e não poucos quiseram colocá-lo num sanatório. O padre Júlio Maria de Manhumirim era um renhido detrator do Espiritismo e, em particular, da figura de Chico Xavier – por treze anos o atacou por meio de artigos no periódico 'O Lutador', que fazia fossem entregues na casa do médium. Parou quando morreu e Emmanuel assim falou a Chico por ocasião do passamento: “_Não te aflijas com os que te atacam. O martelo que atormenta o prego com pancada o faz mais seguro e mais firme.
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Em maio de 1935 o correspondente de 'O Globo', Clementino de Alencar, desembarca em Pedro Leopoldo a fim de decifrar o fenômeno Chico Xavier. Acompanha uma das sessões no centro espírita e recebe uma mensagem em inglês de Emmanuel, e outra ainda, quase hermética: “_A vida, em suas causalidades profundas, escapa aos vossos escalpelos, e apenas o embriogenista observa, na penumbra e no silêncio, a infinitésima fração do fenômeno assimilatório das criações orgânicas.” Não seria a primeira e nem a última das mensagens do guia de Chico a desafiar qualquer tradução, embora estivesse claro que usava da língua portuguesa para se expressar.

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Chico Xavier era elogiado e exaltado por seus aderentes; mas, amargurado por ressalvas feitas por Emmanuel e, em especial, por sua mãe que o alertara acerca de ter sua mediunidade suspensa se cedesse aos prazeres da matéria, evitava as armadilhas do ego rebaixando-se, recusando qualquer enaltecimento, humilhando-se se preciso fosse. Certa feita, repreendeu uma mulher pedindo que não o elogiasse a maneira que procedia, pois não passava de um verme no mundo. Emmanuel interveio: “_Não insulte o verme. Ele funciona, ativo, na transmutação dos detritos da terra, com extrema fidelidade ao papel de humilde e valioso servidor da natureza. Ainda nos falta muito para sermos fiéis a Deus em nossa missão.” Chico passou, então, a definir-se como subverme.
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Certa feita, Chico recebeu convite para apresentar-se a um centro espírita de Belo Horizonte; sua presença era considerada indispensável pelos anfitriões. Num laivo de rara vaidade, o médium pediu dois dias de folga e, procedimento mais raro ainda, não pediu consentimento a Emmanuel, embarcando de trem para a capital. Este, todavia, não demoraria a manifestar-se – durante a viajem surgiu a Chico dizendo: “_Então, você se julga indispensável e, por isso, rompeu todos os obstáculos para viajar como quem realiza uma tarefa fundamental? Já refletiu que o serviço do ganha-pão é indispensável a você?” Bastou para Chico sair do trem e apanhar outro de retorno a Pedro Leopoldo. Nunca mais faltou ao trabalho por que motivo fosse, até se aposentar.
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Os necessitados que acorriam para Chico eram muitos, e até no trabalho eles o perturbavam – deu-se ocasião em que uma mulher o procurara por toda parte, sendo frequentemente despistada para que deixasse o médium trabalhar em paz: as cousas do Espiritismo apenas à noite, no centro. Esta mulher foi a primeira a chegar, e desde pronto repreendeu Chico aos tapas pela trabalheira de persegui-lo ao longo do dia. Ele se irritara, mas fora acalmado por Emmanuel que o fez lembrar-se de uma fala sua: “_Sua missão é formar livros e leitores. Formar leitores é suportar suas exigências, sem censuras. Formar livros é se esquecer de você.” Nenhum leitor em potencial poderia ser deixado de lado; nenhum divulgador, por menor que fosse, deveria ser ignorado ou atendido com descuido.
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A vista de Chico Xavier nunca foi boa – tinha uma doença crônica que causava-lhe muita dor. Certa noite, a agonia se apoderou dele e, cansado, pediu o auxílio de Emmanuel, que duramente lhe respondeu: “_Sua condição não exonera você da necessidade de lutar e sofrer, em seu próprio benefício, como acontece às outras criaturas. Se nem Cristo teve privilégios, por que você os teria?” O sofrimento vinha acompanhado de lições aviltantes e depreciativas. Numa ocasião, o olho sangrara, e Chico passara o fim de semana deitado recuperando-se. Emmanuel não podia deixar por menos, e interpelou o médium, que respondeu-lhe o óbvio: “_O senhor não vê que meu olho está doente?” O Espírito não se satisfez: “_E o que o outro está fazendo? Ter dois olhos é um luxo.
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Iniciava-se a década de 1940 e Chico parou de urinar – o ataque de uremia, alertou-lhe o médico, poderia ser fatal se o médium não urinasse dentro de 24 horas. A perspectiva da morte avizinhava-se dele e, como de costume, evocou a presença de Emmanuel. Desta feita, sem pedido de ajuda, apenas desejava ser recebido no além por seu guia. O Espírito, todavia, era muito atarefado para dar atenção ao seu protegido: “_Estarei ocupado. Mas se você sentir que a hora chegou recorra aos amigos do (centro espírita) Luiz Gonzaga e, depois, não se descuide das sessões de quarta-feira (destinadas aos Espíritos sofredores). Espere pacientemente a sua vez de ser atendido. Você não é melhor do que os outros.

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Nosso Lar fora a décima nona obra psicografada por Chico Xavier – para escrevê-la, ou antes, traduzir o mais perfeitamente possível as descrições fantásticas de André Luiz, ele fora levado para conhecer a Colônia fluídica, ciceroneado por este e por Emmanuel. De retorno, as dúvidas ainda persistiam, mas o trabalho foi feito e o ponto final fora pingado. Como de hábito, consultou seu guia diante do desejo de estudar a medianimidade da psicografia, ao que este lhe respondeu: “_Se a laranjeira quisesse estudar o que se passa com ela na produção de laranjas, com certeza não produziria fruto algum. Vamos trabalhar como se amanhã já não fosse possível fazer nada. Para nós, o que interessa agora é trabalhar.
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Chico Xavier trabalhava muito – ocorreu uma noite de voltar para casa era mais de 1 hora da manhã, exaurido. Ao chegar ao lar, deu com seus gatos doentes, tendo vomitado por toda a sala. Apesar do mau cheiro terrível, preferiu a cama; pela manhã pediria a uma irmã que arrumasse tudo. No caminho para o quarto, Emmanuel intervém: “_Você, que vem de uma reunião espírita, está fugindo da sua obrigação? Está exigindo que uma pobre menina cansada de trabalhar nas panelas e no tanque para que não lhe falte comida nem roupa lavada, limpe esta sujeira? Você vai pegar um pano, vai trazer água, sabão e vamos lavar.” Por lavar, claro, apenas Chico o fez. O Espírito emendaria ainda: “_No Espiritismo, a pessoa tem que começar estudando nos grandes livros e também lavando as privadas, trabalhando, ajudando os que estão com fome, lavando a ferida de nossos irmãos. Se não tivermos coragem de ajudar na limpeza de um banheiro, de uma privada, nós estaremos estudando os grandes livros de nossa doutrina em vão.” Cabia a Emmanuel interpretar de modo bastante pessoal ao Espiritismo, e como devia um espírita se comportar. A Chico, nem o estudo das obras da Doutrina, pois entre deveres e direitos apenas os primeiros lhe couberam.
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O médium de Pedro Leopoldo não era afeito a momentos de descanso e diversão – numa ocasião, contudo, deu-se a demandar algum tempo entre conversas frívolas com amigos. Emmanuel não podia consentir com aquilo e interveio: ou Chico se trancava imediatamente para escrever ou ele iria embora: “_Você fará tudo aproveitando os minutos.” Conversa encerrada.
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A rotina de Chico Xavier era massacrante, e o peso só fazia aumentar; ansiava por um alívio, por um caminho mais tranquilo e calmo. Emmanuel veio em resposta: “_A estrada larga, pavimentada é mais suscetível de desastres, porque nela a velocidade é ameaçadora. A estrada estreita, entulhada, nos faz caminhar com mais cuidado.” Chico esboroaria os pés e perderia a saúde na estrada acidentada da vida.
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Em 1944 estoura o escândalo Humberto de Campos – a viúva do jornalista e escritor acionara o médium mineiro na justiça. O matuto do interior de Minas Gerais via-se diante da possibilidade de ser preso, e seus queixumes para Emmanuel tiveram a seguinte resposta: “_Meu filho, você é planta muito fraca para suportar a força das ventanias. Tem ainda muito que lutar para um dia merecer ser preso e morrer pelo Cristo.” Chico estava aquém da pior das celas.
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Refeito do processo movido contra si pela viúva de Humberto de Campos, Chico estava feliz e, para sua surpresa, recebeu de presente de empresários paranaenses um piano. Espalhara-se o boato que, próximo ao fim de sua existência, o médium mineiro passaria a psicografar partituras dos grandes gênios da música. Verdade ou não, os representantes da marca do piano fizeram sua parte, atrelando esta ao médium por meio do mimo. Amante de música clássica, Chico empolgou-se e contratou aulas de piano – diversamente do que sempre fazia, resolveu ficar com o presente e usá-lo. No dia de sua primeira aula, em meio a doentes e necessitados que aguardavam sua assistência, ele apenas esperava a chegada da professora. Emmanuel surgiu e ralhou: “_Quer dizer que essa gente toda que está aí sofrendo, angustiada, ficará aguardando o dia em que você resolva atendê-la?” Chico dispensou a professora e livrou-se do piano.
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Quando o escândalo envolvendo a obra psicográfica atribuída a Humberto de Campos era apenas uma lembrança infeliz do passado, novo golpe sobreveio a Chico – seu sobrinho residente em Sabará, Amauri Pena Xavier, denunciou o tio como farsante; mensagens e livros eram produção própria, decorrente de espantosa memória e capacidade de imitação do médium. A imprensa deitou o sensacionalismo em reportagens mais interessadas em vender jornais e revistas que em apurar a verdade. Desanimado, Chico recorre a Emmanuel, pedindo desta feita uma orientação a própria mãe de Jesus; dias se passam até que o 'mentor' retorna com a mensagem mariana: “_Isso também passa.” Chico a escrevera na cabeceira da cama e a lera toda manhã como ânimo para suportar o dia. Mas, Emmanuel dera sua emenda, afinal a frase se aplicava a momentos tristes, e também aos alegres.
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Em 1958 Chico Xavier ia de avião de Uberaba para Belo Horizonte – a nave enfrentava turbulência devido a um vento de cauda. Por mais de dez minutos tudo sacudiu e tremeu; ainda que os Espíritos lhe fossem íntimos, Chico não era afeito a ideia de morrer e, como todos no avião, demonstrava isto com veemência. Emmanuel interveio – como era possível a um espírita fazer tamanho alarde diante da morte? Cansado e oprimido, e ante da possibilidade de uma morte terrível, Chico desafiou seu 'mentor' afirmando estar apavorado. Emmanuel recomendou: “_Está bem. Então, cale a boca para não afligir a cabeça dos outros com seus gritos. Morra com fé em Deus, morra com educação.
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Em 1967 Chico Xavier comemorou a efeméride de completar 40 anos de mediunato; de Emmanuel ganhou a responsabilidade de receber as mensagens de Espíritos aos seus parentes encarnados. Eram mensagens particulares, e a assistência ficava em expectativa irreal, atingindo os limites do descontrole emocional. Certa noite um sujeito devolveu a mensagem que Chico lhe entregara, atribuída a um familiar morto, com cusparadas – alegava serem falsas aquelas palavras. O médium aguentou passivamente, caindo em prantos quando de volta ao lar. Emmanuel endureceu: “_Quando alguém cuspir em seu rosto, diga simplesmente que a chuva molhou sua face, se alguém pedir explicações. Não reclame.
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A década de 1970 passara de sua metade quando o coração de Chico começou a mostrar sinais de cansaço – a angina passou a afligir-lhe. Fora a doença que vitimara sua mãe. Acometido pelas dores angustiantes, recorreu uma vez mais a Emmanuel, e dele ouviu laconicamente: “_Afinal, o que querias? Não maltrataste as energias do corpo? As lutas e as caminhadas pelo bem, embora contem com o amparo do Mundo Maior, não excluem as limitações e os desgastes do vaso físico terrestre.” Apenas esqueceu-se de afirmar o Espírito que muito desta luta e parte da caminhada se deveu não a sua orientação, mas ao constrangimento e a mão pesada que impôs sobre o médium, não lhe dando paz ou espaço para seu livre-arbítrio.
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Quando Emmanuel iniciou contatos ostensivos frequentes com Chico Xavier, estabelecera com ele o compromisso da recepção psicográfica de trinta livros. Dezesseis anos depois, em 1947, ele põe o ponto final em Volta, Bocage, a trigésima obra. Emmanuel aparece e sentencia – mais trinta livros. Chico anui, desanimado. Em 1958 Evolução em Dois Mundos é lançado, seu sexagésimo livro, psicografado em parceria com Waldo Vieira – findo mais um acordo com Emmanuel, Chico estava feliz novamente, diante da perspectiva de diminuir o ritmo. Seu 'mentor', contudo, veio com um novo comunicado: “_Os mentores da Vida Maior, perante os quais devo também estar disciplinado, me advertiram que nos cabe chegar ao limite de cem livros.” Onze anos se passariam até completar os quarenta volumes restantes, e Chico uma vez mais rejubilava-se; Poetas Redivivos era a obra de número cem acordado com Emmanuel. O Espírito, uma vez mais, portava más notícias para o médium: “_Estou na obrigação de dizer a você que os mentores da Vida Superior, que nos orientam, expediram uma instrução: ela determina que sua atual reencarnação seja desapropriada, em benefício da divulgação dos princípios espírita-cristãos. Sua existência, do ponto de vista físico, fica à disposição das entidades espirituais que possam colaborar na execução das mensagens e livros, enquanto seu corpo se mostre apto para nossas atividades.” Chico não engoliu a indignação e ralhou, defendendo que o Espiritismo prescreve o livre-arbítrio: e se ele não desejasse prosseguir? Emmanuel encerrou o assunto afirmando: “_A instrução a que me refiro é semelhante a um decreto de desapropriação, quando lançado por autoridade na Terra. Se você recusar o serviço a que me reporto, os orientadores dessa obra de nos dedicarmos ao cristianismo redivivo terão autoridade bastante para retirar você de seu atual corpo físico.” Diante desta velada ameaça de morte, Chico psicografou mais três centenas de livros até o ponto em que a saúde não mais o permitiu, às portas da morte.

3. Apuração
Quem tem o privilégio de uma relação tão próxima, íntima, particular e ostensiva com seu benfeitor espiritual, assim como Chico Xavier? Excetuando-se as biografias que, a feição das hagiografias dos santos católicos, exaltam qualquer fato ligado a existência do médium mineiro, quem como Marcel Souto Maior buscou a isenção jornalística para abordar os fatos, reconheceu a anormal atuação de Emmanuel – não é, senão pela explicação ululante que se pode inferir pela identidade deste: um obsessor manifesto, patente. Que benfeitor espiritual desapropria a vida de seu protegido? Que benfeitor espiritual espezinha seus sofrimentos? Que benfeitor constrange, humilha, interfere no livre-arbítrio deste? Atentarão as vozes dos fanáticos que os fins justificam os meios, que a mediunidade é maior que o homem, que a mensagem deve sobrepujar o indivíduo – mas estes não são espíritas; são já qualquer outra cousa, um amontoado de idólatras sincréticos. As evidências são obnubiladas pela ignorância quanto ao prescrito pelo Espiritismo – então o Espírito missionário deve ir adiante, como a cumprir um fadário sem o qual cai derrotado, não resistindo espaço para a manifestação do livre-arbítrio? Allan Kardec, um Espírito missionário evidente, tivera notícias de sua missão e com o Espírito da Verdade colheu as seguintes impressões, dirimindo suas dúvidas:

Não esqueças que pode triunfar, como podes falir. Neste último caso, outro te substituiria, porquanto os desígnios de Deus não assentam na cabeça de um homem. Nunca, pois, fales de tua missão; seria a maneira de a fazeres malograr-se. Ela somente pode justificar-se pela obra e tu ainda nada fizeste. Se a cumprires, os homens saberão reconhecê-lo, cedo ou tarde, visto que pelos frutos é que se verifica a qualidade da árvore. (…) A nossa assistência não te faltará, mas será inútil se, de teu lado, não fizeres o que for necessário. Tens o teu livre-arbítrio, do qual podes usar como o entenderes. Nenhum homem é constrangido a fazer coisa alguma.

Segue-se a esta um sumário de dificuldades que o Espírito alerta se abaterão sobre Allan Kardec, caso prossiga na missão – este complementa a nota, escrita dez anos após tal comunicação, confirmando a estas e os dissabores previstos, bem como o comprometimento da própria saúde física diante do tamanho da tarefa. Porém, relata o júbilo com que recebera as consequências benfazejas de tanto labor, afirmando sem laivos de vaidade que, em nenhum momento sobreveio o desânimo diante das vicissitudes, mantendo-se apartado de toda reação negativa que lhe lançaram detratores e opositores. Cotejando-se os casos, verifica-se a oposição no tocante ao respeito a um dos princípios fundamentais da Doutrina dos Espíritos – o livre-arbítrio. Caso se leve em conta que o Espírito de Verdade tenha de fato sido Jesus de Nazaré, uma hipótese sempre aventada, mais grave se verifica a atuação de Emmanuel frente a Chico Xavier – ou alguém há de cometer o descalabro de meter no mesmo nível um Espírito de escol como Jesus e este insipiente Emmanuel?

4. Cotejamento e conclusão
No artigo anteriormente postado aqui, transcreveram-se os itens 246 e 247 do capítulo intitulado Da Obsessão de O Livro dos Médiuns, onde o Codificador traça um perfil bastante apropriado de uma espécie de obsessor que, parece-nos, adequa-se quase à perfeição a figura de Emmanuel. Ponto a ponto, vamos cotejá-los ao que se conhece de Emmanuel, lançando questões para se encontrar respostas que permitam a devida reflexão e inferência acerca da identidade do Espírito; também aqui tomaremos de tudo quanto foi exposto na postagem anteriormente publicada.

A_Há Espíritos obsessores sem maldade (…) dominados pelo orgulho e falso saber. (…) Têm suas ideias (…) e querem fazer que suas opiniões prevaleçam. Para esse efeito, procuram médiuns bastante crédulos para os aceitar de olhos fechados e que eles fascinam, a fim de os impedir de discernir o verdadeiro do falso. São os mais perigosos, (…) podem tornar cridas as mais ridículas utopias.”_Chico Xavier em algum momento de sua trajetória lançou dúvidas quanto a ser Emmanuel o seu guia espiritual? Em que ponto, mesmo dentre aqueles raros em que se opôs aos caprichos deste, deixou de acatá-lo e obedecê-lo? Mesmo quando, durante o processo de psicografia de Nosso Lar guardou dúvidas ao que punha no papel, não permitiu que o trabalho fosse finalizado e publicado, sem o que, contudo, lhe fosse podido estudar a psicografia, impedido por Emmanuel? E não seria este um Espírito de cujas ideias próprias, ainda que contrárias ao Espiritismo, as apresentou por meio de livros (O Consolador, A Caminha da Luz, Emmanuel, etc.)? Não é uma ridícula utopia todo este sistema que corrompeu a erraticidade por meio do ideário das Colônias Espirituais, a qual sancionou ao auxiliar André Luiz, seu autor?

B_Como conhecem o prestígio dos grandes nomes, não escrupulizam em se adornarem com um daqueles diante dos quais todos se inclinam, e não recuam sequer ante o sacrilégio de se dizerem Jesus, a Virgem Maria, ou um santo venerado.”_O uso do nome Emmanuel, um nome bíblico e profético, segundo a qual seria conhecido o próprio Jesus tem algum significado? Não imporia ele respeito por tacitamente levar a concluir, ainda que erroneamente, que Emmanuel fora um Espírito de elite? Essa ideia subjacente não foi reforçada pela história narrada em Há 2000 Anos, onde supostamente Emmanuel estivera na presença de Jesus? Ou quando Chico, ingenuamente pede por um consolo a Virgem Maria, sem levantar objeções a que Emmanuel poderia obtê-las para ele, diante dos problemas causados por seu sobrinho? Ainda: não exorta respeito revelar haver sido, outrossim, o padre jesuíta Manoel da Nóbrega, um dos fundadores da cidade de São Paulo? Não teria sido a credulidade de Chico Xavier explorada por este Espírito?

C_Procuram deslumbrar por meio de uma linguagem empolada, mais pretensiosa do que profunda, eriçada de termos técnicos e recheada das retumbantes palavras – caridade e moral. Cuidadosamente evitarão dar um mau conselho, porque bem sabem que seriam repelidos. (…) A moral, porém, para esses Espíritos é simples passaporte, (…) O que querem, acima de tudo, é impor suas ideias por mais disparatadas que sejam.”_O estilo de escrita pomposa e pernóstica de Emmanuel não de adequa ao perfil elaborado? Não foi grande parte dos atos de benemerência levados a efeito por Chico Xavier movidos pela intervenção direta de Emmanuel? Não foi ele a dobrar a vontade do médium para fazer além das próprias forças e da saúde? O que desejara Emmanuel impedindo Chico Xavier de divertir-se, de dar vazão ao desejo inofensivo de aprender piano? Ou reprovando suas conversas frívolas com amigos e familiares? Não eram os ditados de suas obras o que deveria importar mais que ao bem-estar do médium?

D_“Os Espíritos dados a sistemas são geralmente escrevinhadores, pelo que buscam os médiuns que escrevem com facilidade e dos quais tratam de fazer instrumentos dóceis e, sobretudo, entusiastas, fascinando-os. São quase sempre verbosos, muito prolixos, procurando compensar a qualidade pela quantidade. Comprazem-se em ditar, aos seus intérpretes, volumosos escritos indigestos e frequentemente pouco inteligíveis que, felizmente têm por antidoto a impossibilidade material de serem lidos pelas massas. Os Espíritos verdadeiramente superiores são sóbrios de palavras; dizem muita coisa em poucas frases. Segue-se que aquela fecundidade prodigiosa deve sempre ser suspeita. Nunca será demais toda a circunspecção, quando se trate de publicar semelhantes escritos.”_Chico Xavier, algum dia, lançou dúvidas quanto a suposta superioridade de Emmanuel? Não era a ele que sempre evocava para orientar-se, sujeitando seu livre-arbítrio aos desvarios deste? Não é Emmanuel que, dentre as mais de quatro centenas de livros psicografados por Chico Xavier, responde por um quarto dentre estes? E quanto aos prefácios de obras alheias, ou as mensagens de cunho moral, e toda sorte de escritos que indicam um loquaz em pleno exercício? Não são estes mesmos livros de orientação ética um pastiche das mais altas e edificantes lições morais de todos os povos e de todos os tempos? Não é o proceder comum de um padre a compor sermões ao longo de décadas? E, embora popular, não seria Emmanuel como que a roupa nova do imperador, alegadamente compreendido por quem teme o estigma da estupidez por não haver sido capaz de romper-lhe os desafios idiomáticos? Fascinado Chico Xavier, e enredado os leitores, outrossim, que barreiras sê-lhe foram impostas para alardear o que bem entendesse? Não foi a custa de algo inexistente como 'mentores da vida maior' que ele prendeu seu médium até o fim?

E_“As utopias e as excentricidades, que neles por vezes abundam e chocam o bom-senso, produzem lamentável impressão nas pessoas ainda noviças na Doutrina, dando-lhes uma ideia falsa do Espiritismo, sem mesmo se levar em conta que são armas de que se servem seus inimigos, para ridicularizá-los. Entre tais publicações, algumas há que, sem serem más e sem provirem de uma obsessão, podem considerar-se imprudentes, intempestivas, ou desazada.”_Que pensaria o sujeito que, estudando a O Livro dos Médiuns lesse os apontamentos de Emmanuel em sua obra homônima acerca do caráter desgraçado dos médiuns? Que pensaria este, ainda, acerca da questão das almas gêmeas em resposta contida em O Consolador? Ou ainda seu aval a doutrina das Colônias Espirituais, estando este hipotético estudante diante de O Céu e o Inferno? Ainda e uma vez mais, que pensar do infame 'Culto do Evangelho no Lar', cuja mensagem deste instila a prática? E quantos não tiveram o espírito de questionar a postura frontalmente contrária ao Espiritismo deste escrevinhador de além-túmulo, abraçando seus sistemas, adotando suas ideias?

Tais ordens de questionamentos visam apenas colaborar para a reflexão; e a que levam estes, afinal? Que conclusões se podem tirar por meio deste cotejamento e de tudo quanto foi apresentado até aqui, neste e no artigo anterior? Os fatos falam por si e, se acaso ainda persistem dúvidas quanto a se este Espírito fora um obsessor, basta verificar que distante esteve da postura esperada de um guia espiritual, e mais ainda de possuir as luzes de sabedoria que lhe outorgaram a insensata crença do populacho inculto. Não condizendo a este nível, o que lhe resta tendo em vista seu proceder e suas obras eivadas de equívocos? Não é sua postura indefensável, a despeito dos aderentes sempre tão pródigos em argumentar para salvaguardar suas crenças, seu fanatismo, sua idolatria? Não outro senão Emmanuel constrangeu Chico Xavier, explorou o matuto ingênuo de Pedro Leopoldo para dele fazer seu servidor, seu escravo de letras, o arauto de moral ilibada contra a qual todas as vozes antagônicas pareceriam a expressão cabal da loucura e da obsessão? Não compulsou ao médium de caráter servil a tornar-se uma máquina de escrever despojada de livre-arbítrio, um autômato sem vontade cuja razão de existir era única e simplesmente psicografar-lhe a obra, espargindo suas ideias extravagantes, seja acerca da natureza dos médiuns e da mediunidade, seja acerca da formação da Terra ou da evolução de Jesus, ou da existência afirmativa das almas gêmeas, ou ainda dos procedimentos burocráticos da Roma antiga? Não foi ele a ameaçar de morte Chico Xavier?

A conclusão parece agora mais inequívoca - Francisco Cândido Xavier, médium prático de Pedro Leopoldo, interior de Minas Gerais, jamais fora espírita; padecera toda a vida de um processo doloroso de obsessão e fascinação, empreendido por um Espírito que se identificara pelo nome de Emmanuel; e este, apesar de suas palavras insuflando a caridade e exortado elevados valores morais, estivera apenas e tão somente comprometido em espalhar a confusão com suas ideias anômalas e equivocadas, frontalmente contrárias a Doutrina dos Espíritos. Este, enfim, é o Espírito Emmanuel, desnudo ao exame de todos. Que contributos Chico Xavier e Emmanuel deram ao Espiritismo? Nenhum!


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Chico Xavier de Encarnação a Encarnação _Therezinha Radetic; Ed. EME. Capivari-SP. 2019
Nosso Amigo Chico Xavier_Luciano N. da Costa e Silva; Ed. ALF. Itapira-SP. 1998
Novíssimas Revelações do Nosso Amigo Chico Xavier_Luciano N. da Costa e Silva; Ed. ALF. Joanópolis-SP. s/d
A Vida Triunfa-Pesquisa Sobre Mensagens que Chico Xavier Recebeu_Paulo Rossi Severino; Ed. FE. S/ localidade ou data
As Vidas de Chico Xavier_Marcel Souto Maior; Ed. Planeta. São Paulo-SP. 2003
Por Trás do Véu de Ísis_Marcel Souto Maior; Ed. Planeta. São Paulo-SP. 2004
Nosso Chico_Saulo Gomes; Ed. Intervidas. Catanduva-SP. 2018
Até Sempre Chico Xavier_Nena Galves; Ed. CEU. São Paulo-SP. 2017
Chico Xavier do Calvário à Redenção_Carlos Alberto Braga Costa; Ed. EME. Capivari-SP. 2019
Testemunhos de Chico Xavier_Sueli Caldas Schubert; FEB. Brasília-DF. 2010

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Das Luzes de Emmanuel

1. Introito
Via-lhe os traços fisionômicos de homem idoso, sentindo minha alma envolvida na suavidade de sua presença, mas o que mais me impressionava era que a generosa entidade se fazia visível para mim, dentro de reflexos luminosos que tinham a forma de uma cruz.

Essas palavras escritas de próprio punho por Francisco Cândido Xavier constam de um sem número de obras, reportagens, artigos e toda sorte de documento que busca reproduzir a ocasião em que se deu o primeiro encontro do maior médium brasileiro de todos os tempos com seu 'mentor' espiritual. Originalmente ela integra a introdução do livro que leva o nome deste, Emmanuel. Este não é um nome qualquer – aparece em duas ocasiões na Bíblia, ambas referindo-se a Jesus. A primeira consta do Velho Testamento, em Isaías, capítulo 7, versículo 14, pode-se ler: “Portanto, o mesmo Senhor vos dará um sinal: eis que a virgem conceberá, e dará à luz um filho, e chamará o seu nome Emanuel”. A seguinte está no Evangelho de Mateus, capítulo 1, versículo 23: “Eis que a virgem conceberá, e dará à luz um filho, e chamá-lo-ão pelo nome de Emanuel, que traduzido é: Deus conosco”. É um nome bíblico e profético, justamente porque integra as previsões acerca da vinda de Jesus no seio do povo hebreu – que Espírito tem envergadura para sustentar um nome com tal importância? O 'mentor' espiritual de Chico Xavier, é apontado, frequentemente, como um luminar digno de alcunhar-se com este nome. Contudo, o presente artigo apontará fatos objetivando ir a favor das recomendações da Doutrina dos Espíritos, buscando identificar Emmanuel para além da crença e da imprudente idolatria; é o Espírito desnudo que interessa passar pelo crivo da razão e do Controle Universal dos Ensinamentos dos Espíritos – como o afirmado por Allan Kardec em O Livro dos Médiuns:

Julgam-se os Espíritos, como os homens, pela sua linguagem.

As ações de Emmanuel, ou antes, aquelas que se podem arrolar na categoria de orientações diretas a Chico Xavier, estas serão alvo de artigo futuro. Todavia, uma apenas dentre estas deve figurar aqui no interesse de explicitar em parte, seu progresso; e pois, por que justamente o fato se encontra na base, ou antes, no princípio da relação ostensiva de ambos – o ato de haver surgido para este sob os reflexos cruciformes de luz. O estudioso do Espiritismo, afeito e familiarizado com O Livro dos Médiuns sabe que esta pantomima não é consequência do progresso íntimo do Espírito, como pode ser levado a pensar um leitor menos apto diante desta narrativa de ares fantásticos. Ao contrário, a manipulação fluídica que permite esta espécie de efeito sinaliza para um Espírito inferior – o tomo à pouco citado, em seu capítulo V, intitulado Das Manifestações Físicas Espontâneas revela o seguinte:

85. Dissemos atrás que as manifestações físicas têm por fim chamar-nos a atenção para alguma coisa e convencer-nos da presença de uma força superior ao homem. Também dissemos que os Espíritos elevados não se ocupam com esta ordem de manifestações; que se servem dos Espíritos inferiores para produzi-las, como nos utilizamos dos nossos serviçais para os trabalhos pesados, (...). Alcançado esse fim, cessa a manifestação material, por desnecessária.

Assim sendo, pode-se apontar que Emmanuel não é mais que um Espírito inferior a manipular as mais intimas crenças, senão as fortes impressões religiosas que guardava Chico Xavier. Porém, O Livro dos Médiuns ainda tem alguns acréscimos a serem feitos para chegar-se a uma conclusão a contento quanto ao caso:

19ª A visão dos Espíritos se produz no estado normal, ou só estando o vidente num estado extático?
Pode produzir-se achando-se este em condições perfeitamente normais. Entretanto, as pessoas que os vêem se encontram muito amiúde num estado próximo do de êxtase, estado que lhes faculta uma espécie de dupla vista."

Quando teve a visão de Emmanuel por si descrita, Chico Xavier estava à beira de um açude, sob uma árvore para onde sempre acorria com o fito de afastar-se de dissabores da vida, fazendo suas rezas para angariar forças e serenidade. O fenômeno que descreveu pode tanto haver decorrido da ação direta do Espírito, quanto de sua disposição de alma, mais ou menos liberta por conta do estado mental originado das orações e do ambiente bucólico e aprazível, sendo resultado de um estado quase extático - ou que ambas hajam ocorrido em simultâneo, não é impossível, imagina-se. Qualquer que seja sua origem, todavia, impressionou o jovem Chico Xavier aquela figura sacerdotal imponente que, segundo afirmou, impôs-lhe rigorosa disciplina diante da tarefa, a princípio, de compor trinta obras, todas de autores desencarnados - tarefa cumprida sem ressalvas.

2. Uma atuação anômala
Quem pode afirmar, assim como Chico Xavier, conhecer seu benfeitor espiritual? Para ele, seu 'mentor'. O uso desta terminologia não corresponde ao Espiritismo, uma vez que um mentor é o guia do pensamento do sujeito, alguém a quem se consulta quando diante de uma decisão, alguém de grande experiência em determinado campo, e cujos conselhos costuma-se considerar e acatar. Essa relação prescreve uma ostensiva interação, o que não ocorre com o benfeitor ou guia espiritual, cuja ação oculta inspira mais que manda, oferta possibilidades mais do que indica a direção, insufla bom ânimo mais do que força a ação. Allan Kardec interessou-se vivamente pela atuação destes Espíritos, popularmente conhecidos como anjos guardiões, mas que são, espiriticamente falando, chamados por guias espirituais ou, para corresponder mais exatamente as suas funções, benfeitores espirituais. Em O Livro dos Espíritos, o Codificador assim questiona:

501. Por que é oculta a ação dos Espíritos sobre a nossa existência e por que, quando nos protegem, não o fazem de modo ostensivo?
Se vos fosse dado contar sempre com a ação deles, não obraríeis por vós mesmos e o vosso Espírito não progrediria. Para que este possa adiantar-se, precisa de experiência, adquirindo-a frequentemente à sua custa. É necessário que exercite suas forças, sem o que, seria como a criança a quem não consentem que ande sozinha. A ação dos Espíritos que vos querem bem é sempre regulada de maneira que não vos tolha o livre-arbítrio, porquanto, se não tivésseis responsabilidade, não avançaríeis na senda que vos há de conduzir a Deus. Não vendo quem o ampara, o homem se confia às suas próprias forças. Sobre ele, entretanto, vela o seu guia e, de tempos a tempos, lhe brada, advertindo-o do perigo."

Em O Céu e o Inferno há uma passagem interessante acerca destes:

Quaisquer que sejam a inferioridade e perversidade dos Espíritos, Deus jamais os abandona. Todos têm seu anjo da guarda (guia) que por eles vela, espreita-lhes os movimentos da alma, e se esforçam por suscitar-lhes bons pensamentos, desejos de progredir, de reparar em uma nova existência o mal que praticaram. Contudo, essa interferência do guia faz-se quase sempre ocultamente e de modo a não haver pressão, pois que o Espírito deve progredir por impulso da própria vontade, nunca por qualquer sujeição.

Emmanuel corresponde ao perfil do guia espiritual? Para quem deveria, por princípio, ocultar-se, o 'mentor' de Chico Xavier é bastante conhecido – em vidas passadas teria sido sacerdote egípcio, senador romano, escravo hebreu, santo da Igreja Católica, padre jesuíta em missão no novo mundo; o sacerdócio parece ter-lhe tocado mais vivamente a alma, pois abraçara esta vida para si em outras experiências reencarnatórias mais. Suas vidas passadas não foram reveladas a Chico Xavier no sigilo e recolhimento do ambiente doméstico, como informes muito particulares a serem mantidos ocultos à vista alheia – o Espírito compôs obras, narrativas romanceadas dessas vidas, revelando-se por um veículo de massa popular ao maior número possível dentre os aderentes de seu protegido, e do 'espiritismo'. Não fosse de tal conta anômala esta atuação de Emmanuel, registradas ainda foram suas pontuais intervenções junto ao médium mineiro, eventualmente reproduzidas por este em um tom anedótico, extravagante; são o retrato assinalado em artigos de uma relação disfuncional, que passou a posteridade como o testemunho e o paradigma do que deveria ser a atuação de um Espírito guia – esta é a visão geral do 'movimento espírita nacional'. Apontado pela Doutrina dos Espíritos como oculta a ação destes, onde dispor Emmanuel? Como considerá-lo? Abordada serão as possíveis respostas na conclusão do presente artigo – assinala-se, contudo, que a ação de Emmanuel fora heterodoxa, não correspondendo ao prescrito pelo Espiritismo, equivalendo ipsis litteris esta a experiência humana geral, em que são raros os indivíduos ostensivamente familiarizados a figura de seus benfeitores espirituais. De Emmanuel, tão pródigo em ditar livros, são estes tais o elemento em estudo e foco do interesse mais imediato.

3. Suas obras diante dos fatos
Em 1927 Emmanuel começou a ditar mensagens por meio de Chico Xavier, em fazenda de amigos espíritas de seu pai, que, enfim vieram trazer as explicações para as visões e vozes que o matuto de Pedro Leopoldo via e ouvia, e prosseguiria ouvindo e vendo até o último de seus dias, mais de setenta anos depois – mas, foi distante destes companheiros que, enfim, se veria diante do Espírito, que lhe surgiu como narrado no início deste opúsculo, fato que se deu em 1931. A partir de então, acostumado as pancadas e mandos da vida, para o qual seu temperamento servil fez joguete sempre,  passou o médium a arrolar, para além das prosas, narrativas inteiras. A psicografia dos livros vinha cumprir um acordo com Emmanuel, acordo que se renovaria mais tarde, até ser rompido por este de modo abrupto, assunto pertinente para futuro artigo. Ele mesmo, seu 'mentor', dera-se a narrar não apenas instruções ou mensagens de cunho moralizante, mas romances de época, histórias de suas pregressas experiências na senda da carne – todo o conjunto destas configura rico documento para a análise do estudioso, um caso ímpar que merece exame atento e minucioso. Teria sido, Chico Xavier, um protegido tão probo que não oferecera desafio a Emmanuel, a ponto deste ter muito tempo livre para a literatura?

Para o momento, no mais, basta considerar aspectos os mais ilustrativos de parte do que compusera o Espírito; na obra que leva seu nome, encontram-se os seguintes trechos, por exemplo:

QUEM SÃO OS MÉDIUNS NA SUA GENERALIDADE
Os médiuns, em sua generalidade, não são missionários na acepção comum do termo; são almas que fracassaram desastradamente, que contrariaram, sobremaneira, o curso das leis divinas, e que resgatam, sob o peso de severos compromissos e ilimitadas responsabilidades, o passado obscuro e delituoso. O seu pretérito, muitas vezes, se encontra enodoado de graves deslizes e de erros clamorosos. Quase sempre, são Espíritos que tombaram dos cumes sociais, pelos abusos do poder, da autoridade, da fortuna e da inteligência, e que regressam ao orbe terráqueo para se sacrificarem em favor do grande número de almas que desviaram das sendas luminosas da fé, da caridade e da virtude. São almas arrependidas que procuram arrebanhar todas as felicidades que perderam, reorganizando, com sacrifícios, tudo quanto esfacelaram nos seus instantes de criminosas arbitrariedades e de condenável insânia.

AS OPORTUNIDADES DO SOFRIMENTO
As existências dos médiuns, em geral, têm constituído romances dolorosos, vidas de amargurosas dificuldades, em razão da necessidade do sofrimento reparador; suas estradas, no mundo, estão repletas de provações, de continências e desventuras. Faz-se, porém, necessário que reconheçam o ascetismo e o padecer, como belas oportunidades que a magnanimidade da Providência lhes oferece, para que restabeleçam a saúde dos seus organismos espirituais, combalidos nos excessos de vidas mal orientadas, nas quais se embriagaram à saciedade com os vinhos sinistros do vicio e do despotismo. Humilhados e incompreendidos, faz-se mister que reconheçam todos os benefícios emanantes das dores que purificam e regeneram, trabalhando para que representem, de fato, o exemplo da abnegação e do desinteresse, reconquistando a felicidade perdida.

NECESSIDADE DA EXEMPLIFICAÇÃO
Todos os médiuns, para realizarem dignamente a tarefa a que foram chamados a desempenhar no planeta, necessitam identificar-se com o ideal de Jesus, buscando para alicerce de suas vidas o ensinamento evangélico, em sua divina pureza; a eficácia de sua ação depende do seu desprendimento e da sua caridade, necessitando compreender, em toda a amplitude, a verdade contida na afirmação do Mestre: “Dai de graça o que de graça receberdes.” Devendo evitar, na sociedade, os ambientes nocivos e viciosos, podem perfeitamente cumprir seus deveres em qualquer posição social a que forem conduzidos, sendo uma de suas precípuas obrigações melhorar o seu meio ambiente com o exemplo mais puro de verdadeira assimilação da doutrina de que são pregoeiros. Não deverão encarar a mediunidade como um dom ou como um privilégio, sim como bendita possibilidade de reparar seus erros de antanho, submetendo-se, dessa forma, com humildade, aos alvitres e conselhos da Verdade, cujo ensinamento está, freqûentemente, numa inteligência iluminada que se nos dirige, mas que se encontra igualmente numa provação que, humilhando, esclarece ao mesmo tempo o espírito, enchendo-lhe o íntimo com as claridades da experiência.

Esta tríade de pequenos textos guarda características de uma profissão de fé, uma declaração que se impôs como receita para a vida de muitos médiuns, em especial o que as psicografou. Seu autor afirma que os médiuns são, em sua generalidade, desastrosos fracassados – a generalização, porém, resulta em adotar absolutamente uma concepção acerca de algo, sem lhe considerar as partes ou os pormenores. Ela é a base de muitos preconceitos, ou ideias previas acerca de algo desconhecido ou conhecido apenas em parte – ninguém arriscaria apontar que todos os médiuns, sem exceção, são indivíduos cujas experiências de vidas passadas se mostraram fracassadas. O que diz o bom senso? Emmanuel precisaria conhecer a totalidade da experiência humana para afirmar algo de tal natureza sem o risco de parecer ridículo; sua mão pesada se impõe em um texto afeito a uma sentença de condenação. Contudo, mais adiante ele se contradiz ao adotar expressões menos absolutas, quando afirma que ‘muitas vezes’ têm eles passados plenos de erros, ou ‘quase sempre’ são indivíduos que abusaram da autoridade, ou poder. Ainda assim, afirmá-lo é denunciar um certo espírito precipitado, uma certa opressão que tende a ostentar uma superioridade de per si – não poucos, por certo, hão de crer que Emmanuel é sim possuidor de um conhecimento tal da alma humana, e das experiências pelas quais a coletividade terrestre passou, que positivamente tem autoridade para sustentar tais ordens de afirmações. Considerar, porém, a prescrição de Emmanuel é preconceber, é partir de uma falsa premissa com base numa amostragem limitada, ou antes desconhecida, de indivíduos.

Porém, o problema maior, ainda mais grave que a generalização, é o Espírito sustentar uma ideia equivocada do que seja a mediunidade – nota-se isto ao tomá-la, senão como dom ou missão, mas como seu oposto, ou seja, uma espécie de maldição, uma sina que se abate sobre o indivíduo como oportunidade de sanar as dívidas pregressas de que faz referência constante. Em O Livro dos Médiuns, capítulo XIV, Allan Kardec define assim ao médium:

Todo aquele que sente, num grau qualquer, a influência dos Espíritos é, por esse fato, médium. Essa faculdade é inerente ao homem; não constitui, portanto, um privilégio exclusivo. Por isso mesmo, raras são as pessoas que dela não possuam alguns rudimentos. Pode, pois, dizer-se que todos são, mais ou menos, médiuns.

Acaso não fossem todos médiuns, de modo mais ou menos ostensivo, por quais meios receber-se-iam as instruções, bons conselhos e bons ânimos dos benfeitores espirituais? Não saber distinguir a ação destes, porém, não anula que seus pensamentos se confundem ao de seus guiados, perfazendo assim o limite de sua ação, oculta e sigilosa, mas sempre presente. A mediunidade é uma faculdade, portanto, e sua ação, permitindo a comunicação ostensiva entre seres em instâncias distintas de existência, assemelha-se a fala humana - considerar o escrito por Emmanuel, seria o mesmo que afirmar que nascer com dois braços é sinal de falência moral de vidas passadas. Ou seja, a mediunidade é constitutiva do ser encarnado, característica essencial deste. Por considerá-la como fenômeno fantástico, sobrenatural, forçosamente a fantasia exige que seja tida como a definiu este – contrária, portanto, ao que prega e demonstra o Espiritismo. Que sabe este Espírito da mediunidade e dos médiuns? Emmanuel faz retroceder a mediunidade a um fadário, acrescendo a ela um ascetismo místico, evocando a condição do pecado original católico, envolvendo o leitor na atmosfera da tradição da mortificação na própria carne, na autoflagelação como forma de purificação espiritual. Parece que o 'mentor' de Chico Xavier dá eco a Roustaing e seu Docetismo, cuja origem remonta ao gnosticismo que prega que o mundo material é mau e corrompido – eis um fato, aliás, pouco conhecido acerca de Emmanuel. Seu roustainguismo está expresso, por exemplo, no prefácio que compôs para a obra Vida de Jesus, livro de Antônio Lima, onde defende os princípios contidos em Os Quatro Evangelhos. Chico Xavier fora orientado por um Espírito aderente de Roustaing? Deste autor e sua obra, o artigo datado de 3 de agosto de 2019 os toma como objeto de exame.

Outro livro de Emmanuel cujo conteúdo é do interesse do presente é O Consolador. Por si só, a obra constitui uma anomalia, visto que, composto no sistema de perguntas e respostas, é dividido em três partes, cada qual respectivamente correspondente ao assim chamado tríplice aspecto do qual se supõe que o Espiritismo seja constituído, qual seja a Ciência, a Filosofia e a Religião – este sofisma enganou a muitos, alguns bastante capacitados. As questões do livro são dirigidas senão ao próprio Emmanuel, que convertido em expoente do saber cósmico, inadvertidamente ombreia-se a Ramatis e outros tais, vertendo para a assistência fascinada um manancial de conceitos particulares, como se fossem a expressão da verdade absoluta. Obviamente tal exercício convertido em livro não está em adequação ao Controle Universal dos Ensinamentos dos Espíritos prescrito por Allan Kardec, bastando senão como curiosidade, jamais para efeito de Doutrina. A questão de nº 323 deste, por exemplo, brinda o leitor com o seguinte:

323 – Será uma verdade a teoria das almas gêmeas?
– No sagrado mistério da vida, cada coração possui no Infinito a alma gêmea da sua, companheira divina para a viagem à gloriosa imortalidade. Criadas umas para as outras, as almas gêmeas se buscam, sempre que separadas. A união perene é-lhes a aspiração suprema e indefinível. Milhares de seres, se transviados no crime ou na inconsciência, experimentaram a separação das almas que os sustentam, como a provação mais ríspida e dolorosa, e no drama das existências mais obscuras vemos sempre a atração eterna das almas que se amam mais intimamente, envolvendo umas para as outras num turbilhão de ansiedades angustiosas; atração que é superior a todas as expressões convencionais da vida terrestre. Quando se encontram no acervo real para os seus corações – o da ventura de sua união pela qual não trocariam todos os impérios do mundo, e a única amargura que lhes empana a alegria é a perspectiva de uma nova separação pela morte, perspectiva essa que a luz da Nova Revelação veio dissipar, descerrando para todos os Espíritos amantes do bem e da verdade os horizontes eternos da vida.

O estudioso tem em mente já as questões iniciadas em O Livro dos Espíritos, a partir da de número 298 e seguintes, acerca das metades eternas, ou almas gêmeas – a resposta dos Espíritos Superiores da Codificação é flagrantemente contrária ao que defende Emmanuel. Mas, prossegue este Espírito em sua obra:

243 – Todos os Espíritos que passaram pela Terra tiveram as mesmas características evolutivas, no que se refere ao problema da dor?
– Todas as entidades espirituais encarnadas no orbe terrestre são Espíritos que se resgatam ou aprendem nas experiências humanas, após as quedas do passado, com exceção de Jesus Cristo, fundamento de toda a verdade neste mundo, cuja evolução se verificou em linha reta para Deus, e em cujas mãos angélicas repousa o governo espiritual do planeta, desde os seus primórdios.

Como provar que Jesus progrediu em ‘linha reta para Deus’? O comentário de Allan Kardec a questão 127 de O Livro dos Espíritos é de imediato evocado, trazendo a compreensão segundo a qual, por mais benévolo haja sido um Espírito em particular, todos ‘precisam adquirir a experiência e os conhecimentos indispensáveis para alcançar a perfeição’. São afirmações desta natureza que transtornam a fé dos neófitos, desnudam o Espírito para os estudiosos, e sedimentam o engodo nos círculos afeitos ao Espiritismo, legítimos ou não. Emmanuel guardava, então, algum conhecimento acerca das Obras Básicas que compõem a Doutrina dos Espíritos? Observemos outra de suas obras, talvez a mais famosa dentre elas – Há 2000 Anos.

Esta narrativa de época apresenta uma de suas experiências passadas, tendo nesta sido um senador romano de nome Públio Lêntulo Cornélio Sura, que, contemporâneo de Jesus, teria visto a este em sua passagem pela Palestina. Públio fora senador romano, bisneto do primeiro Públio seu homônimo, conspirador ao lado de Lúcio Sérgio Catilina, que buscou derribar a República Romana, particularmente o poder oligárquico do senado. Não existem quaisquer provas de que este, executado em 63 a.C., tenha deixado descendentes; seus despojos foram reclamados por Marco Antônio, tarefa cuja burocracia exigia caber a seus filhos ou descendentes diretos. Este descendente de Sura conspirador, suposto bisneto, e suposta identidade passada de Emmanuel, diz-se no texto do livro, possuía uma filha, de nome Flávia Lentúlia, o que cria uma anomalia onomástica – seu nome deveria ser Cornélia, por ser filha de um Cornélio; poucas opções de nome caberiam a filha de Sura, mas nenhuma que fosse a adotada na obra.

Há que considerar, igualmente, outros equívocos presentes na obra – por exemplo, o imbróglio administrativo causado pela presença de um senador romano na Palestina àquele tempo – “(...) mas não conhecia Jerusalém, onde o esperavam como legado do Imperador, para a solução de vários problemas administrativos de que fora incumbido junto ao governo da Palestina.” A província da Judéia estava sob a supervisão da Síria e, acaso houvesse a necessidade de uma missão para a solução de problemas administrativos, há duas possibilidades de ação de parte das autoridades romanas. Primeiramente, o legado propretoriano da Síria mandaria alguém de seu séquito, por certo um cavaleiro para lidar com a questão junto ao prefeito / procurador da Judéia ou, num segundo momento, se mais grave fosse o caso, o legado da Síria convocaria o prefeito / procurador da Judéia a Antióquia para se explicar, e se não fosse satisfeito, iria suspender a este de suas funções, enviando-o a Roma para que se explicasse, pessoalmente, ao Imperador. Este jamais enviaria um legado de nível senatorial a Judéia, posto que isto criaria uma série de problemas. Segundo a psicografia, Lêntulo Sura fora um senador, enquanto Pôncio Pilatos era um cavaleiro, inferior ao primeiro, social e hierarquicamente. Pondo os pés na Judéia, Lêntulo daria ordens a Pilatos, nunca o tratando como semelhante, proceder adotado pelo primeiro frente ao segundo conforme alega o texto de Emmanuel, equivocadamente.


Tanto este parece desconhecer os meandros internos da administração romana que, a altura tanta do livro, há registrado que Lêtulo Sura servira um ano na administração da cidade de Esmirna (terceira maior cidade da Turquia, atualmente), com o fito de melhor integrar-se nos mecanismos dos trabalhos do Estado. Esmirna era cidade da província da Ásia (província senatorial de nível consular), e possuía um governo municipal autônomo, com um magistrado ornado com o título de ‘coroado’, além de sede de um conventus juridici, quer dizer, local onde o procônsul realizava audiências, uma vez ao ano. Não era, portanto, um local para onde se enviavam funcionários romanos, muito menos um que atuasse como administrador – jamais poderia ser como Emmanuel narra, simplesmente porque não condiz com a realidade histórica.

Um último exemplo do desconhecimento de Emmanuel acerca do que ele afirma ser sua existência passada - por ocasião da Páscoa do ano 33, o texto informa: “As autoridades romanas, por sua vez, concentravam-se, igualmente, em Jerusalém, na mesma ocasião, reunindo-se na cidade quase todos os centuriões e legionários, destacados a serviço do Império, nas paragens mais remotas da província.”. Bem, antes da revolta do ano 66 d.C., jamais puseram os pés na Judéia nenhuma legião romana, sendo a guarnição da província feita por corpos auxiliares de infantaria, tanto quanto de cavalaria. Ao que parece, o senador Cornélio Sura, de quem não se tem registro histórico algum, deveria ter ideias bastante arejadas e avançadas ao seu tempo para, entre dar um nome gentio a própria filha e permitir-se uma visitinha a Palestina de antão, voltar seu interesse para um agitador judeu condenado, dele compondo um documento, o enviando a seus colegas de assembleia. A este suposto bisneto de Lêtulo Sura conspirador, atribui-se esta carta, uma declaração que teria sido escrita com a descrição da aparência física de Jesus de Nazaré. Historiadores do Vaticano desde há muito identificaram este registro como uma fraude datada do século XIII. Cabe a Emmanuel dar explicações acerca destes problemas identificados em sua narrativa? Conviria evocá-lo?

Em A Caminho da Luz, Emmanuel mete-se a defender uma teoria relativamente antiga acerca da formação do planeta Terra:

A primeira, verificou-se quando o orbe terrestre se desprendia da nebulosa solar, a fim de que se lançassem, no Tempo e no Espaço, as balizas do nosso sistema cosmogônico e os pródromos da vida na matéria em ignição, do planeta, e a segunda, quando se decidia a vinda do Senhor à face da Terra, trazendo à família humana a lição imortal do seu Evangelho de amor e redenção.

Não é propriamente um ensaio acerca da questão, mas será preciso atentar para a afirmação segundo a qual o planeta originou-se a partir do Sol. Esta é uma teoria conhecida e reconhecida pela Ciência, chamada de Teoria da Projeção, primeiramente defendida por Georges-Louis Leclerc, ou apenas Conde de Buffon. Naturalista, matemático e escritor francês, foi um intelectual muito afamado em seu tempo, cujas teorias e ideias refletir-se-iam em figuras como Darwin e Lamarck. Allan Kardec, acerca da Teoria da Projeção do Conde de Buffon, discorre em A Gênese:

De todas as teorias concernentes à origem da Terra, a que alcançou maior voga, (...) é a de Buffon, quer pela posição que ele desfrutava no mundo sábio, quer pela razão de não se saber mais do que ele disse naquela época. (...) sendo o Sol uma massa incandescente em fusão, um cometa se haja chocado com ele e, raspando-lhe a superfície, tenha destacado desta uma porção que, projetada no espaço pela violência do choque, se dividiu em muitos fragmentos, formando esses fragmentos os planetas, que continuaram a mover-se circularmente, pela combinação das forças centrífuga e centrípeta, no sentido dado pela direção do choque primitivo, isto é, no plano da eclíptica.

Prossegue o Codificador, em seguida, elencando em cinco itens as razões pelas quais a teoria de Buffon, a Teoria da Projeção, tornara-se obsoleta. A sucessão de detalhes ali expostos é para o leitor um convite ao estudo – mas, vale recordar, ou revelar alguns pontos importantes. A Gênese foi lançada em 1868. O Conde de Buffon desencarnara em 1788. Ou seja, cerca de 80 anos separam as ideias de Buffon das descobertas que vieram após, e que são detidamente abordadas por Allan Kardec no trecho aludido da obra, e que vieram descartar a Teoria da Projeção. Após 71 anos desde A Gênese, Emmanuel entrega ao mundo A Caminho da Luz, redimindo Buffon e descartando Allan Kardec e a Ciência, demonstrando os limites de seu conhecimento das obras espíritas, tanto quanto do progresso do conhecimento humano. Mais uma década se passaria e Edgard Armond faz publicar Exilados de Capela, livro em que retoma a Teoria da Projeção, ombreando Emmanuel, e assumindo o papel de contraditor do Espiritismo.

Este conjunto particular de questões levantadas acerca de Emmanuel, em suas obras aliás, formam a síntese pela qual se pode alcançar algumas conclusões primordiais – a princípio, o 'mentor' de Chico Xavier longe está de ter as luzes a si atribuídas; e os ilustrativos exemplos aqui aglutinados são o resumo da questão, revelando-lhe a ignorância quanto a conceitos geológicos e historiográficos que são, ainda que segmentados a seu meio, conhecidos, reconhecidos e comprovados. Após, conclui-se que Emmanuel demonstrou um conhecimento bastante superficial da Doutrina dos Espíritos, sendo-lhe ignorado conceitos básicos presentes nas obras da codificação – que espécie de Espírito chama a si uma autoridade que não possui, um conhecimento que não tem?

4. Conclusão
Allan Kardec traça um perfil bastante interessante em dois itens constantes do capítulo denominado Da Obsessão, presente em O Livro dos Médiuns:


"246. Há, Espíritos obsessores sem maldade, que alguma coisa mesmo denotam de bom, mas dominados pelo orgulho do falso saber. Têm suas idéias, seus sistemas sobre as ciências, a economia social, a moral, a religião, a filosofia, e querem fazer que suas opiniões prevaleçam. Para esse efeito, procuram médiuns bastante crédulos para os aceitar de olhos fechados e que eles fascinam, a fim de os impedir de discernirem o verdadeiro do falso. São os mais perigosos, porque os sofismas nada lhes custam e podem tornar cridas as mais ridículas utopias. Como conhecem o prestígio dos grandes nomes, não escrupulizam em se adornarem com um daqueles diante dos quais todos se inclinam, e não recuam sequer ante o sacrilégio de se dizerem Jesus, a Virgem Maria, ou um santo venerado. Procuram deslumbrar por meio de uma linguagem empolada, mais pretensiosa do que profunda, eriçada de termos técnicos e recheada das retumbantes palavras –– caridade e moral. Cuidadosamente evitarão dar um mau conselho, porque bem sabem que seriam repelidos. Daí vem que os que são por eles enganados os defendem, dizendo: Bem vedes que nada dizem de mau. A moral, porém, para esses Espíritos é simples passaporte, é o que menos os preocupa. O que querem, acima de tudo, é impor suas idéias por mais disparatadas que sejam.

"247. Os Espíritos dados a sistemas são geralmente escrevinhadores, pelo que buscam os médiuns que escrevem com facilidade e dos quais tratam de fazer instrumentos dóceis e, sobretudo, entusiastas, fascinando-os. São quase sempre verbosos, muito prolixos, procurando compensar a qualidade pela quantidade. Comprazem-se em ditar, aos seus intérpretes, volumosos escritos indigestos e freqüentemente pouco inteligíveis, que, felizmente, têm por antídoto a impossibilidade material de serem lidos pelas massas. Os Espíritos verdadeiramente superiores são sóbrios de palavras; dizem muita coisa em poucas frases. Segue-se que aquela fecundidade prodigiosa deve sempre ser suspeita. Nunca será demais toda a circunspecção, quando se trate de publicar semelhantes escritos. As utopias e as excentricidades, que neles por vezes abundam e chocam o bom-senso, produzem lamentável impressão nas pessoas ainda noviças na Doutrina, dando-lhes uma idéia falsa do Espiritismo, sem mesmo se levar em conta que são armas de que se servem seus inimigos, para ridicularizá-lo. Entre tais publicações, algumas há que, sem serem más e sem provirem de um obsessão, podem considerar-se imprudentes, intempestivas, ou desazadas."

Curioso perfil este, não? Ele não se adéqua ao Espírito em estudo? Houve no passado, como os há no presente e persistirão no futuro existindo os aderentes de Emmanuel, de Chico Xavier, de toda a mítica que os envolve e embala num gracioso pacote de tênue religiosidade, idolatria e fanatismo. Mas, nenhum fanático o é debilmente – a recusa diante dos fatos compra consciências, afaga egos, sustenta carreiras e faz da fé profissão muito bem paga; além de alimentar a raiva, a ignorância, os melindres e as dissensões descabidas.

Atingiremos melhores conclusões quando a relação de Chico Xavier e Emmanuel for algo de artigo futuro. Até lá, um exame atento do presente auxiliará nos estudos e na reflexão acerca da questão.


Off-topic

O Espiritismo é didático; precisa sê-lo - é, portanto, inescapável a composição de textos longos e complexos, ainda que não complicados. Para torná-los, aqui, mais palatáveis, seguiremos a sugestão de certo conhecido, e ilustraremos as postagens com imagens condizentes ao assunto abordado nas matérias. Quanto as postagens até aqui publicadas, também elas contarão com imagens no tempo devido.

sábado, 24 de agosto de 2019

"Fogo amigo" - o obscurantismo do meio

Está provado que o Espiritismo é mais entravado pelos que o compreendem mal do que pelos que não o compreendem absolutamente, e, mesmo, pelos inimigos declarados.” - Revista Espírita, novembro de 1864, O Espiritismo é uma Ciência Positiva.

A edição de março de 1999 da Revista Cristã de Espiritismo, tem na chamada de capa a manchete 'A Sútil Questão das Colônias Espirituais' – no miolo, o artigo composto por um tal Dr. Victor Ronaldo Costa, médico e homeopata oriundo de Brasília, e adepto da Apometria (prática terapêutica baseada na falaciosa premissa segundo a qual pode o Espírito adoecer), onde os trechos seguintes se destacam:

(...) muito embora, o célebre educador lionês (referindo-se a Allan Kardec) não dispusesse de condições para traduzir durante a etapa reencarnatório que lhe fora confiada tudo o que seria de se esperar, já que o próprio Jesus, o mais qualificado Espírito que se tem conhecimento, não pode, na sua época, nos falar de determinados assuntos, prometendo-nos, em consequência, a oportuna vinda do Consolador. (…) O Consolador Prometido, representado na atualidade pela Doutrina dos Espíritos, responsabilizou-se por uma determinada quantidade de informações variadas, logicamente sem a pretensão de tê-las esgotado. (…) Não obstante as informações prestadas por André Luiz e demais orientadores que se manifestam através de outros médiuns não menos respeitados, ainda existe quem duvide da existência das cidades espirituais. São criaturas que, embora se digam espíritas, não se desvincularam ainda de certos dogmas religiosos, alimentando um verdadeiro pavor da morte, em decorrência da concepção clericalista que defende a existência de um 'céu' e um 'inferno' eternos... (…) Como frisamos inicialmente, Jesus abordou uma parte da Verdade e Kardec não poderia comportar-se de forma diferente. A letra kardequiana nos reservou o básico, porém o restante, as filigranas de determinadas questões e as demais revelações ficariam por conta do desenvolvimento da Doutrina através dos tempos. É inconcebível admitir-se a possibilidade de um Espiritismo estanque, desprezando as demais informações mediúnicas coligidas fora daquilo que Kardec anotou em sua obra. (…) Além do mais, perguntaríamos, qual seria a nossa destinação após o decesso carnal e onde permaneceríamos, às vezes por séculos, até a próxima reencarnação? Perambulando a esmo pela erraticidade? O bom-senso, mais do que nunca, nos aponta para a realidade das cidades espirituais.

Fogo amigo – esse é um termo utilizado nos meios militares, especificamente em situação de combate, quando um ataque é desferido, atingindo inadvertidamente as próprias tropas ou tropas aliadas. Seria este o presente caso? Temos utilizado nas postagens que preenchem ao presente blog  expressões tais como 'sujeito espírita brasileiro', 'espírita', 'espiritismo', 'supostamente espírita' e que tais para nos referirmos a indivíduos como este senhor, autor do artigo de onde foram retirados os trechos acima. São expressões demeritórias? Alguns afirmarão positivamente, mas jamais nos arvoraremos desejar o poder, ou que este nos seja outorgado por outrem, para ofender a ninguém – quem assim se manifestar estará a nos emprestar uma importância desmedida. É no campo das ideias que estas devem ser discutidas, e a Doutrina dos Espíritos carece, mais do que jamais precisou, de bons articuladores de ideias; mas, mais do que isto, de estudantes exemplares. As expressões usadas aqui podem parecer demeritórias ou ofensivas, mas elas não encerram uma verdade? Posto que o movimento espírita nacional não pratica de fato o Espiritismo, porque dever-se-ia tratá-lo como algo legítimo? Acaso não prossegue desconhecendo a Doutrina codificada por Allan Kardec, aderindo sem discernimento e ressalva a qualquer mensagem ou obra mediúnica, indo contra as advertências deste? Não é o cenário atual, e já não o é há muitas décadas? Este blog se dirige a estudantes de Espiritismo; aos que supostamente se consideram espíritas, por certo que há outros sites e portais cujos articulistas e escritores lhes estejam mais ao gosto e ao pendor íntimo por seguir uma religião, ainda que ela não exista factualmente.

O Dr. Victor Ronaldo Costa é exemplar ao seguir a cartilha dos defensores das Colônias Espirituais neste seu artigo – principia por sustentar o mito do Espiritismo como doutrina inacabada, ponto já abordado em postagem anterior do presente blog. Sua argumentação, todavia, se sustenta num sofisma – Jesus não havendo tudo revelado, por que Allan Kardec o faria, já que ambos não estão em paridade de progresso espiritual? E por que isto importa, afinal? Tal ideia somente se sustenta na medida em que o Espiritismo é tomado como uma religião revelada, considerando, ipsis litteris, a ideia da Terceira Revelação; pior, se sustenta apenas por quem não leu as Obras Básicas. Este articulista demonstra ignorância quanto ao capítulo 1º de A Gênese, intitulado Caráter da Revelação Espírita. Está lá o seguinte:

O Espiritismo, dando-nos a conhecer o mundo invisível que nos cerca e no meio do qual vivíamos sem o suspeitarmos, assim como as leis que o regem, suas relações com o mundo visível, a natureza e o estado dos seres que o habitam e, por conseguinte, o destino do homem depois da morte, é uma verdadeira revelação, na acepção científica da palavra. (…) Numa palavra, o que caracteriza a revelação espírita é o ser divina a sua origem e da iniciativa dos Espíritos, sendo a sua elaboração fruto do trabalho do homem.

Considerando-se a dificuldade com a interpretação textual, uma palavra mais se faz necessária para explicar esta passagem em particular – ao homem, Allan Kardec, coube elaborar o que foi recebido dos Espíritos. Alguém que possa apontar um só trabalhador tão incansável quanto, tão racional e dotado de capacidade de síntese, didatismo e bom senso semelhante ao do Professor, e que tenha voltado forças a fim de colaborar para o enriquecimento da Doutrina dos Espíritos como este o fez, por favor, com muito gosto nos dispomos a conhecê-lo e parabenizá-lo. Mas, até que o silêncio não cesse de prosseguir gritando aos ouvidos dos estudantes que nenhum homem há que possa tê-lo igualado, senão dado de si muito mais do que fé cega em Espíritos romancistas, os horizontes do Espiritismo cessarão nas fronteiras dos escritos de Allan Kardec. Todavia, acreditar que um sujeito em particular abraçará uma missão no sentido de emprestar da autoridade do Codificador para dar continuidade ao Espiritismo é cair numa cilada flagrante – primeiramente por que se acreditará que a tarefa recairá a um sujeito em particular; isto não pode ser, e por mais que Allan Kardec em pessoa haja tentado desvincular sua imagem ao trabalho que desenvolveu, ambos acabaram unidos, principalmente tendo em vista toda a deturpação perpetrada a posteriori. Segundo, por que esta crença não leva em conta que Allan Kardec já deixou os meios pelos quais se pode dar contribuição a Doutrina dos Espíritos, identificando as inverdades, doutrinas anômalas, conceitos estranhos e toda sorte de invencionices cuja vanguarda levada inconsequentemente há de buscar atar a Doutrina. Este crime de lesa-cultura ocorreu, ocorre e prosseguirá ocorrendo ademais de quaisquer esforços para impedi-los. Recai a quem de fato se propõe ao estudo pesquisar, examinar, apontar os erros, denunciar os farsantes e as tentativas de deturpação; como, outrossim, dar prosseguimento as experimentações, buscando linhas de investigação próprias, exercitando os processos de instrução na criação de parâmetros de julgamento, que permitam balizar o Espiritismo para o futuro. Sendo o produto da coletividade dos Espíritos, e havendo necessitado de um Espírito missionário para codificá-la, a Doutrina dos Espíritos está, como anteriormente fora demonstrado, completa em todos os seus postulados, e desde O Livro dos Espíritos, de tal conta que não cabe deitar mais argumentos quanto a questão.

Num segundo momento, o articulista usa de um experiente tacanho, afrontando os descrentes das Colônias Espirituais pela suposição de que sejam incapazes de saber diferenciar o eterno do relativo, ou o perene do transitório. Quando Allan Kardec pontua em um sem número de passagens de toda sua obra espírita que não há local de pouso algum para os Espíritos, ele não o faz abordando a questão cronológica por que estes não ficarão alocados num espaço que determine, assim como um hotel ou pousada, a duração da estadia. Não há estadia, simplesmente. O tempo demandado entre uma encarnação e outra, chamada erraticidade por que justamente o Espírito erra sem fixar-se necessariamente a um local, decorre no tempo próprio deste – e o que faz ele nesse meio tempo? Ora, a erraticidade está toda ela apresentada em O Livro dos Espíritos, bastando ao interessado por olhos e esforços ao estudo. Mais, que o faça com igual afinco para o livro O Céu e o Inferno, que derroga argumentos quais este sustentado pelo Dr. Victor. Porém, como recomendado anteriormente em outra postagem, um zeloso exame se faz ao artigo de abril de 1859 da Revista Espírita intitulado Quadro da Vida Espírita; para os que desejam uma resposta sucinta e mais ligeira, é o texto perfeito de Allan Kardec acerca da questão. É de se imaginar se nosso articulista em exame tinha, então, conhecimento deste opúsculo em particular de Allan Kardec.

Ele encerra suas argumentações perpetrando o suicídio do próprio intelecto, incorrendo no mesmo amador erro dos que aderem de bom grado ao conceito das Colônias Espirituais, ao perguntar a destinação do Espírito após a morte. Ele não entendeu, como muitos aliás. Sua crença reside no fato de que deve habitar algum lugar, tendo um endereço fixo a exemplo de sua vida encarnada, revisitando a velha e boa casinha pastoril de cerquinha branca, jardim florido e janelas acortinadas – não lhe ocorre ir em busca de seu próprio progresso, mas que este lhe venha dado de bom grado por seu merecimento, por meio de bons Espíritos amigos que hão de visitá-lo e, de certo, conduzi-lo por museus de revelações ignoradas pelos encarnados, repartições e ministérios onde possa aprender e preparar sua nova encarnação. Todo o pacote esperado para si, incluindo a salvaguarda de seu períspirito, repleto de órgãos fluídicos que podem ser danificados pelo ataque de miasmas deletérios desferidos por hordas de invasores umbralinos, que urdem planos de invasão a colônia enquanto se aquartelam do lado de fora das muralhas magnéticas desta. Parece um passeio bem tranquilo por uma das atrações medievais do Beto Carrero World, faltando apenas um dragão cuspidor de fogo.

Realmente, é de insultar os esforços dispendidos em décadas de estudo contínuo da Doutrina dos Espíritos. Ao contrário do que o Dr. Victor pudesse imaginar (hoje, talvez possua ele uma ideia diversa da que sustentou em vida, uma vez que desencarnou em novembro de 2015 aos 72 anos), ou imaginam aderentes desta ideia das Colônias Espirituais, as obras mediúnicas dos Espíritos que vieram revelar tais ordens de conceitos não foram desprezadas. Pelo contrário, foram cotejadas as Obras Básicas, e demais escritos espíritas de Allan Kardec, tendo seu conteúdo detidamente examinado e passado pelo crivo racional do Controle Universal dos Ensinamentos dos Espíritos. O que se inferiu as pôs na condição do que se fato são - romances mediúnicos, literatura recreativa, distração mental e nada além. Para efeito de Doutrina dos Espíritos são inanes. Os livros que reportam a existência de tais paisagens formam, em seu conjunto, uma tentativa de enriquecimento por exploração da boa-fé e ignorância do ilegítimo 'movimento espírita', confeccionando imitações mais ou menos competentes de Nosso Lar e Violetas na Janela. Demandados quase 160 anos desde que Allan Kardec desferiu as palavras que compõem o frontispício desta postagem, elas nunca se mostraram tão atuais, infelizmente.