terça-feira, 10 de março de 2020

Transfiguração



Em artigo aqui publicado em 4 de outubro último, sob o título Qual o Tamanho do Espírito?, vimos expor considerações acerca de aspectos poucos conhecidos e debatidos do perispírito, no tocante as suas propriedades, relativo a estatura do ser. Ao final, não repercute senão a verdade havermos concluído que muitos dos seres míticos, mitológicos e folclóricos, dentre as minúsculas fadas pouco maiores que alguns insetos, até os gigantes que se elevam acima das copas das árvores, resultam da visão de Espíritos que por tais formas se apresentam. Podem mesmo ser a reminiscência de médiuns que os viram quando em estados excitatórios da consciência, quais os sonâmbulos e os extáticos - sabe-se que em erraticidade, uma multidão infindável de indivíduos toma formas as mais diversas. Para se conceber o que há por aí, será preciso imaginar as figuras mais ostensivamente chamativas dentre o enorme espectro dos tipos humanos encarnados, dos enormemente altos acometidos de gigantismo aos mais diminutos representantes dos portadores de nanismo primordial, daqueles vitimados pela morbidez da obesidade aos mais esquálidos sujeitos, dos casos mais graves e jamais registrados pela medicina teratológica de gemelaridades parasitárias até os indivíduos mais bizarros que a modificação corporal da matéria dá um pálido esboço - sem que sejam esquecidos os mais insólitos quadros do hibridismos, em que a figura humana mescla-se a dos animais, e mesmo o surgimento dos seres mitológicos dignos dos bestiários mais ricos do medievo. Obviamente, autores  sem nenhum conhecimento da Doutrina dos Espíritos, em nome desta atestaram a existência de tais criaturas como expressões reais dos mesmos, e não pelo que de fato são, ou seja, Espíritos humanos que tomaram tais aparências sob os mais íntimos e singulares pretextos.

Contudo, a questão que se apresenta pode, para certas sensibilidades, ser igualmente perturbadora. Um dos raros fenômenos decorridos do perispírito é a transfiguração. Como operada no Evangelho de Marcos, pareceu um dos muitos milagres catalogados em tais textos sem um fim útil - claro que, por se tratar de Jesus e, considerando-se como havendo de fato ocorrido, sua transfiguração teve senão o patente objetivo de, uma vez mais, comprovar a doutrina da existência e sobrevivência do Espirito aos seus discípulos. Não tendo tal fenômeno ocorrido apenas com Jesus, mas observado ao longo de toda a história humana, o Espiritismo dele tratou como manifestação mediúnica incomum, porém absolutamente natural. Seu registro mais significativo se encontra em O Livro dos Médiuns, no capítulo VII da Segundo Parte, sob o título Da Bicorporeidade e da Transfiguração, onde Allan Kardec o define como a mudança do aspecto de um corpo vivo. A partir de então narra o ocorrido a uma mocinha natural de Saint-Étienne, cidade situada há 60km. de Lyon e capital do distrito do Loire - esta jovem de cerca de 15 anos possuía uma invulgar capacidade para operar o fenômeno da transfiguração, e com tal habilidade que reproduzia magistralmente a aparência quanto os trejeitos e expressões dos Espíritos, além de seu peso corporal. O Codificador explica:

Está, em princípio, admitido que o Espírito pode dar ao seu perispírito todas as aparências; que, mediante uma modificação na disposição molecular, pode dar-lhe a visibilidade, a tangibilidade e, conseguintemente, a opacidade; que o perispírito de uma pessoa viva, isolado do corpo, é passível das mesmas transformações; que essa mudança de estado se opera pela combinação dos fluidos. Figuremos agora o perispírito de uma pessoa viva, não isolado, mas irradiando-se em volta do corpo, de maneira a envolvê-lo numa espécie de vapor. Nesse estado, passível se torna das mesmas modificações de que o seria, se do corpo estivesse separado. Perdendo ele a sua transparência, o corpo pode desaparecer, tornar-se invisível, ficar velado, como se mergulhado numa bruma. Poderá então o perispírito mudar de aspecto, fazer-se brilhante, se tal for a vontade do Espírito e se este dispuser de poder para tanto. Um outro Espírito, combinando seus fluidos com os do primeiro, poderá, a essa combinação de fluidos, imprimir a aparência que lhe é própria, de tal sorte, que o corpo real desapareça sob o envoltório fluídico exterior, cuja aparência pode variar à vontade do Espírito. Esta parece ser a verdadeira causa do estranho fenômeno e raro, cumpra se diga, da transfiguração.

Em edição de março de 1859 da Revista Espírita, Allan Kardec volta a questão, obtendo uma série de respostas de São Luís, as quais se destacam os dados seguimentos:

3.Como se produz esse efeito?
Resp. - A transfiguração, como o entendeis, nada mais é que uma modificação da aparência, uma mudança ou uma alteração das feições que pode ser produzida pela ação do próprio Espírito sobre o seu envoltório ou por uma influência exterior. O corpo não muda jamais; todavia, em consequência de uma contração nervosa, adquire aparências diversas.

7. Parece resultar do que acabais de dizer que no fenômeno da transfiguração podem ocorrer dois efeitos: 1º_Alteração dos traços do corpo real em consequência de uma contração nervosa; 2º_Aparência variável do perispírito, tornado visível. É assim que devemos entender?
Resp. - Certamente.

Com efeito, desde que o perispírito pode isolar-se do corpo e tornar-se visível; que, por sua extrema sutileza, pode adquirir diversas aparências, conforme a vontade do Espírito, concebe-se sem dificuldade que assim ocorra com uma pessoa transfigurada: o corpo continua o mesmo; somente o perispírito mudou de aspecto. Mas, perguntarão, em que se transforma o corpo? Por que razão o observador não vê uma imagem dupla, a saber, de um lado o corpo real e do outro o perispírito transfigurado?

Eximindo-se de estender o assunto aqui, apesar de tais questionamentos, na edição de maio de 1861 da Revista Espírita, retoma ele a abordagem, de tal feita referindo-se ao seguimento acima anotado de O Livro dos Médiuns; observemos:

4. Se, no aumento de volume e peso da mocinha das cercanias de Saint-Étienne, o fenômeno se produzia pelo adensamento de seu perispírito, combinado com o de seu irmão, como é que os olhos dela, que deviam ter ficado no mesmo lugar, podiam ver através da espessa camada de um novo corpo que se formava diante deles?
Resp. - Como veem os sonâmbulos com as pálpebras fechadas: pelos olhos da alma.

5. No fenômeno citado o corpo aumentou. No fim do capítulo VII está dito ser provável que se a transfiguração tivesse ocorrido sob o aspecto de uma criancinha, o peso teria diminuído proporcionalmente. Não posso me dar conta, conforme a teoria da irradiação e da transfiguração do perispírito, de que este possa tornar-se menor que um corpo sólido. Parece-me que o último deveria ultrapassar os dois perispíritos combinados.
Resp. - Como o corpo pode tornar-se invisível pela vontade de um Espírito superior, o da mocinha também se torna invisível, pela força de um poder independente de sua vontade. Ao mesmo tempo, combinando-se com o do menino, seu perispírito pode formar e realmente forma a imagem dessa criança. A teoria da mudança do peso específico te é conhecida.

Infere-se, portanto que algumas questões mantiveram o pensamento de Allan Kardec ocupado no tocante a transfiguração, e no particular deste caso facultado pela jovem médium stéphanoise. Tais mesmas questões de apelo inegável para qualquer estudante do Espiritismo - afinal se concebe que a garota tinha seu perispírito combinado ao perispírito do Espirito comunicante, ao qual se tornava visível, podendo mesmo tornar-se tangível ao ponto de seu peso ser mensurado. Enxergaria a médium, envolta pela opacidade de tal 'casca' perispiritual? Claro, pelos olhos da alma, foi a resposta que o Codificador obteve. Manifestando um Espírito superior a sua estatura, nenhuma dificuldade em se compreender que a médium ficara contida em seu imo, mas e se o caso fosse oposto? Acaso um médium de boa altura, um adulto, viesse manifestar o Espírito de uma criança? - do mesmo modo compreende-se que parte do corpo do médium, a excedente na diferença de sua altura frente a do Espírito, tornar-se-ia invisível. Não é, portanto, absurdo concluir que o médium e o Espírito neste fenômeno vem ocupar um mesmo espaço, imprescindível para operar-se a transfiguração - diversamente das aparições tangíveis, onde o médium, frequentemente em repouso em uma cadeira, cede parte de seu fluido para combiná-lo ao do Espírito, que ganha os ambientes de modo independente e com certa autonomia.

Na mesma edição de maio de 1861 da Revista Espírita, em Conversas Familiares de Além Túmulo. Dr. Glass, acha-se transcrito diálogo de Allan Kardec com o Espírito deste médico desencarnado precocemente aos 35 anos, em fevereiro de 1861, registrado como fervoroso espírita. Algumas das questões aí notadas são bastante interessantes e vão aprofundar os estudos aqui apresentados:

Fazeis distinção entre o vosso Espírito e o vosso perispírito? Qual a diferença que estabeleceis entre as duas coisas?
Resp. - Penso, logo sinto e tenho uma alma, como disse um filósofo. Não sei mais que ele a respeito. Quanto ao perispírito, é uma forma, como sabeis fluídica e natural; mas buscar a alma é querer buscar o absoluto espiritual.

Credes que a faculdade de pensar resida no perispírito? Numa palavra, que a alma e o perispírito sejam uma só e a mesma coisa?
Resp. - É absolutamente como se perguntásseis se o pensamento reside no vosso corpo. Um se vê; o outro se sente e se conhece.

Assim, não sois um ser vago e indefinido, mas um ser limitado e circunscrito?
Resp. - Limitado, sim; mas rápido como o pensamento.

Quereis indicar o lugar que estais aqui?
Resp. - À vossa esquerda e à direita do médium.

Fostes obrigado a deixar o vosso lugar para mo ceder?
Resp. - Absolutamente: nós passamos através de tudo, como tudo passa através de nós; é o corpo espiritual.

Assim, estou mergulhado em vós?
Resp. - Sim.

Por que não vos sinto?
Resp. - Porque os fluidos que compõem o perispírito são muito etéreos, não suficientemente materiais para vós; mas pela prece, pela vontade, numa palavra, pela fé, os fluidos podem tornar-se mais ponderáveis, mais materiais, e mesmo afetar o tato, o que acontece nas manifestações físicas e é a conclusão deste mistério.

Resposta a que Allan Kardec observa: “Suponhamos um raio luminoso penetrando num local escuro; pode-se atravessá-lo, nele mergulhar, sem lhe alterar a forma nem a natureza. Embora esse raio seja uma espécie de matéria, é tão sutil que não oferece nenhum obstáculo à passagem da matéria mais compacta. Dá-se o mesmo com a coluna de fumaça ou de vapor que, igualmente, pode ser atravessada sem dificuldade. Somente o vapor, por ter mais densidade, produzirá no corpo uma impressão que não produz a luz.” - prossegue ele com as indagações ao falecido doutor.

Suponhamos que neste momento pudésseis tornar-vos visíveis aos olhos da assembleia. Que efeitos produziriam nossos dois corpos, um dentro do outro?
Resp. - O efeito que vós mesmo imaginais, naturalmente; todo o vosso lado esquerdo seria menos visível que o direito; estaria num nevoeiro, no vapor do perispírito; o mesmo ocorreria do lado direito do médium.

Suponhamos agora que vos pudésseis tornar não apenas visível, mas tangível, como já aconteceu algumas vezes. Isto poderia acontecer, conservando a situação em que estamos?
Resp. - Forçosamente eu me mudaria pouco a pouco de lugar; eu me construiria ao vosso lado.

Há pouco, quando falei somente da visibilidade, disseste que estaríeis entre mim e o médium, o que indica que teríeis mudado de lugar. Agora, para a tangibilidade, parece que vos afastais ainda mais. Não seria possível tomardes as duas aparências conservando nossa posição inicial, eu ficando mergulhado em vós?
Resp. - Não, absolutamente, já que respondo a pergunta. Eu me reconstruiria ao lado. Não me posso solidificar naquela posição; só posso aí ficar se permanecer fluídico.

O perispírito é maleável aos caprichos do Espírito; pode expandir ou retrair, ou penetrar matéria sólida, permitindo ainda que dois seres ocupem um mesmo espaço - se no primeiro caso o Espírito se manifesta visível e tangivelmente a ponto de encobrir a médium, é porque a junção do fluido de ambos faculta tal possibilidade; diversamente do aventado por Allan Kardec ao Espírito do Dr. Glass, em que a tangibilidade nada tem que ver com a transfiguração, e certamente os fluidos aí usados o seriam de modos diversos. Mas, preciso é atentar para o fato de que o Codificador não fora médium ostensivo, a tal que nenhuma impressão lhe causou estar mergulhado no Espírito do Dr. Glass. Contrariando o consagrado pela cultura popular, em que a penetrabilidade dos fluidos sempre permitiu a fantasmas a habilidade de atravessar matéria sólida, aqui se verifica que podem muito bem permanecer imersos nela, como que integrando momentaneamente um obstáculo ao qual lhes é insensível e que, imagina-se, para muitos chega a ser invisível. O diálogo com o Dr. Glass é um seguimento transcrito de bom tamanho, levando o leitor a concluir que haja se tratado de uma interação algo longa, o que não causou nenhuma perturbação ao Codificador. Não nos surpreende, portanto, as visões de médiuns que hajam reportado Espíritos ocupando o mesmo assento que um encarnado durante palestras e cursos - parece impactante? não menos é imaginar uma multidão invisível de Espíritos desempenhando os afazeres dos encarnados, mesclando-se a estes, operando máquinas, conduzindo veículos, ministrando aulas, usando sanitários, participando de atividades desportivas, orando em templos e igrejas, permitindo-se o hedonismo de festas e espetáculos, enfim, tudo quanto constitui ocupação humana.

Pode-se pensar equivocadamente, principalmente os defensores da ideia segundo a qual existem locais circunscritos destinados a conter Espíritos, que estes 'desgarrados' são necessariamente maus ou como preferem reputá-los, trevosos - que as trevas residem nos corações e mentes dos homens, filha esta da ignorância das Leis Naturais, é o saber esperado de todo espírita. Como propugna a Doutrina dos Espíritos, os Espíritos compõem toda uma população invisível, a mover-se em torno de nós; estão por toda parte no espaço e ao nosso lado, vendo-nos e acotovelando-nos de contínuo.
Há toda sorte de indivíduos aí, mas por certo nenhum que escape ao esperado para o gênero humano encarnado na Terra.

Algumas pessoas a quem foi exposto o conteúdo do presente artigo questionaram se não haveria, pela contínua atividade dos Espíritos em meio e através dos encarnados a chamada incorporação - faltou-lhes, claro, apresentar a questão 141 de O Livro dos Espíritos. O termo é, infelizmente, ainda de uso corrente nos círculos que se acreditam espíritas, e acaba por traduzir erroneamente as mais variadas medianimidades, como a psicofonia e a psicografia. O Espírito não fica encerrado no corpo físico, visto que sua natureza, como explanado no artigo a que reportamos no início deste, difere do que se compreende por matéria - aliás, está penetrabilidade, sua particularidade reproduzida pelo perispírito, leva o estudioso a especulações sem fim acerca da íntima natureza do ser espiritual, sem um termo satisfatório, contudo. Outras indagações mais facultadas por este tema tão interessante guardam na mediunidade suas dúvidas mais nevrálgicas - informes contaminantes da literatura mediúnica vem exortar a confusão. Para aclarar a questão em definitivo, ou antes para compreender corretamente o mecanismo da mediunidade, um pequeno trecho de Estudos sobre os Possessos de Morzine, ensaio publicado na Revista Espírita em seu número de dezembro de 1862, encerra este presente opúsculo com as sapienciais palavras de Allan Kardec:

Quando um Espírito quer agir sobre uma pessoa, dela se aproxima e a envolve, por assim dizer, com o seu perispírito, como num manto; os fluidos se interpenetram, os dois pensamentos e as duas vontades se confundem e, então, o Espírito pode servir-se daquele corpo como se fora o seu próprio, fazê-lo agir à sua vontade, falar, escrever, desenhar, etc. Tais são os médiuns.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

A Importância dos Romances Mediúnicos



Deve-se publicar tudo quanto dizem os Espíritos? perguntaram a Allan Kardec certa feita, ao que ele respondeu em artigo da Revista Espírita em seu número de novembro de 1859 com uma bem argumentada negativa. O panorama da literatura mediúnica dos últimos cem anos é o testemunho límpido da absoluta ignorância ou desobediência as instruções do Codificador – fosse diferente, não haveriam tantos Espíritos pseudo-sábios sendo adorados como luminares do oculto e da sabedoria universal de todos os tempos. Claramente não se pode imputar ao desconhecimento de tal passagem este montante de obras existentes, mas ao arbítrio puro e simples de instituições interessadas em fazer da literatura mediúnica um negócio, um meio de vida e acumulo de fortunas; não fosse tão rentável não haveriam tantas editoras alimentando o seguimento. Não se pode, outrossim, deixar de afirmar que a oferta atende a demanda, ou seja, leitores ignorantes ou descompromissados com a própria instrução, são os consumidores de tal literatura, absorvendo tais narrativas como expressão cabal da verdade espírita.

Vimos pessoalmente alguns esboços de histórias narradas por Espíritos que, por vontade dos médiuns envolvidos, não foram desenvolvidas, não tiveram seguimento, e, até onde pudemos saber, não foram continuadas por outros. Todavia, uma amostra que, ao que tudo indica está completa, nos foi ofertada por um conhecido de nome Joaquim, um desses indivíduos de grande potencial que, infelizmente, insiste em não dar a devida atenção as obras kardecianas. Segundo ele, o manuscrito fora obtido por um senhor à beira de um rio, onde este habitualmente pescava – não se sabe se por meio da psicografia ou fruto de inspiração; menos ainda se fora trabalho de um só folego ou haurida ao longo de um dado tempo. Fato é que o sujeito imputa a autoria a inteligência oculta de um Espírito. A obra intitulada Pergaminhos do Arcanjo se compõem de sete seguimentos ou capítulos distintos em que o escritor, tomando para si a identidade de Lúcifer, o anjo caído da tradição judaico-cristã, verseja em rimas acerca da sua influência sobre a existência humana. O texto deixa claro se tratar de uma produção sincrética, que cala mais profundamente a mentalidade do que é chamado pejorativamente de catopírita, ou aqueles que se consideram espíritas, sem que hajam aberto mão da doutrina católica, ainda que de modo inconsciente.

A suposição da existência de um Espírito superior que, por qualquer razão, haja involuido é contrário aos postulados da Doutrina dos Espíritos – mas a mítica figura de Lúcifer é poderosa, e sob quaisquer argumentos ela será explicada, justificada, tomada como real, ainda que para tanto seja preciso adequar-se este ao Espiritismo. Assim também é feito com a virgindade de Maria, mãe de Jesus, entre outras passagens. Busca-se sempre adaptar as passagens mais obscuras, hipotéticas ou fantásticas a fim de encontrar-lhes argumentos justificáveis – por meio de brincadeiras sexuais que não envolviam a penetração propriamente dita, argumentaram certos palestrantes supostamente espíritas que Maria teria tido contato com o sêmen de José, gerando assim a concepção miraculosa. Qualquer exegeta sabe que a imaculada concepção parte da interpolação de histórias e tradições de avatares e luminares muito comuns e populares no oriente àquele tempo – para citar um exemplo, Krishna fora parido de uma virgem. Faz-se necessário preservar o hímen sagrado de Maria a qualquer custo, e o Docetismo herético do medievo ressurgido no advento de Roustaing é apenas uma tentativa mais neste sentido. A teima em tal tema se deve a mitificação da virgindade, como sinônimo de pureza de alma – o espírita deve saber que o Espírito é tudo e o corpo é nada, certo?

A figura de Lúcifer traz a memória a obra O Abismo de Rafael Ranieri, amicíssimo de Francisco Cândido Xavier, livro este inspirado, e sob orientação do Espírito André Luiz é verdadeiro desafio a qualquer dos sectários deste, dado o nível dantesco de suas ‘revelações’. No capítulo 14 da referida, sob o conveniente e sugestivo título A Legião, o próprio arcanjo caído dá as caras, e é descrito da seguinte maneira:

Sob pesadas correntes, um ser como jamais foi dado ver a criaturas da superfície da Terra ali se encontrava prisioneiro. Conquanto a fisionomia lembrasse a fisionomia de um homem ou de um espírito de forma humana, estava tão distanciado de nossa espécie quanto um dinossauro de um homem. Descomunal, pernas que lembravam colunas de um edifício, pés que mediam muitos metros de altura, braços cabeludos, embora de pele amarelada e ao mesmo tempo esfogueada, rosto enorme e mais de quinze metros onde dois olhos maus avançavam chamas.

No cadinho de bom senso restante nos aderentes de André Luiz, alguns critérios se interpõem para recusar tais passagens, e as obras de onde foram extraídas. Não obstante, se Lúcifer parece carcomido ante o caminhar natural do progresso das ideias, mesmo nos círculos mais crédulos da suposta prática do Espiritismo, Maria e sua hipotética figura excelsa mantém salutares raízes nas mais vulneráveis mentalidades. No capítulo XIV de O Evangelho Segundo o Espiritismo, Allan Kardec apenas constata o que está expresso nos Evangelhos canônicos ao tratar da família de Jesus, e a inescapável persona de sua mãe.

Pelo que concerne a seus irmãos, sabe-se que não o estimavam. Espíritos pouco adiantados, não lhe compreendiam a missão: tinham por excêntrico o seu proceder e seus ensinamentos não os tocavam, tanto que nenhum deles o seguiu como discípulo. Dir-se-ia mesmo que partilhavam, até certo ponto, das prevenções de seus inimigos. O que é fato, em suma, é que o acolhiam mais como um estranho do que como um irmão, quando aparecia à família. João diz positivamente (7:5), ‘que eles não lhe davam crédito.’ Quanto a sua mãe, ninguém ousaria contestar a ternura que lhe dedicava. Deve-se, entretanto, convir igualmente em que também ela não fazia ideia muito exata da missão do filho, pois não se vê que lhe tenha seguido os ensinos, nem dado testemunho dele, como fez João Batista. O que nela predominava era a solicitude maternal.

Uma solicitude maternal reconhecida como traço do povo hebreu de todos os tempos.

Desditosamente a figura de Maria é adotada, reverenciada e evocada como Espírito superior, suposta madrinha ou espécie de comandante de legiões de Espíritos benfazejos que partem ao socorro dos necessitados, ou cousa que o valha. Francisco Cândido Xavier, numa demonstração clara de culto e do caráter católico pelo qual se pautou a vida toda, em certa ocasião, como fizemos notar em postagem do presente blog datada de 6 de setembro do ano passado, apelou a Emmanuel, supondo-lhe igualmente superior, a que pedisse orientação a mãe de Jesus acerca das denúncias que lhe fazia o sobrinho Amauri Pena Xavier. Claro, o obsessor daria uma resposta qualquer para manter dócil o médium mineiro, seu proceder comum.

O culto mariano tem suas raízes na pré-história, na adoração a entidades femininas, deusas da fertilidade que garantiriam a boa colheita do ano vindouro. Mas, sua antecessora direta, a que o cristianismo nascente adotou por oportuna interpolação é Ísis, que legou-lhe alguns epítetos honoríficos tais como rainha do céu, mãe de deus ou nossa senhora. A influência pagã nas práticas cristãs é, por si só, uma questão que daria mote a muitos artigos – diversos autores no passado, estudiosos do primitivo cristianismo dedicaram obras inteiras a questão, cabendo ao leitor buscar tais tomos, que são de interesse candente ao estudioso espírita, por certo.

Tal manuscrito cuja cópia temos em posse, os Pergaminhos do Arcanjo, são o exemplo flagrante do que se pode obter ao sustentar a crendice e a fé cega, um ilustrativo paradigma que, trabalhado pela maquinaria mercadológica pode resultar em somas consideráveis, sem nenhum acréscimo que não seja exclusivamente material. Não se deve nem se pode publicar tudo quanto digam ou escrevam os Espíritos; não apenas para se evitar explorar a ignorância alheia, mas para se pautar, para variar um cadinho, nas instruções do Codificador. Quantos médiuns e quantos editores preferem o confortável desconhecimento das bases doutrinárias, golpeando de morte a fé raciocinada? A verdade espreita os incautos e os levianos na mesma medida, e ela cobrará seu preço em suas consciências.


quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Velhos livros, novas leituras - "Transição Planetária - Um Grito de Alerta"


Ariston Teles é hoje reconhecido como o 'incorporador' de Francisco Cândido Xavier - e o termo, usado equivocadamente, é este mesmo. Produto do meio, e não da Doutrina dos Espíritos, Ariston Teles fora amigo do médium mineiro, um dos inumeráveis que, após a morte deste em 2002, deu-se a tarefa de enfeixar em livro as reminiscências de tal relação. Chico Xavier é, e permanecerá sendo por muitos anos ainda, um ídolo cultuado, independentemente do que prescreve o Espiritismo acerca da questão. Aos que aderiram a esta crença carente de provas segundo a qual o médium residente em Brasília seria capaz de permitir manifestar-se ostensivamente a Chico Xavier, a que se reconhecer a emulação competente dos maneirismos e tom de voz do falecido - é real? Descrer do fenômeno em particular é recomendável, ainda que a psicofônia seja medianimidade factual; porém, provar que se trata do matuto de Pedro Leopoldo, eis aí o desafio, e o é para os aderentes de sempre, antigos e novos, em devoção.

Nos idos de 1996, Ariston Teles arriscou-se literariamente com esta obra em nossa posse, de título chamativo e apelativo. Nos anos que antecederam a mudança do calendário gregoriano adotado no ocidente, o milenarismo era o furor, conjurando toda sorte de conjecturas acerca do final dos tempos - filmes-catástrofe não deixavam as salas de cinema, enquanto séries de TV prescreviam invasões alienígenas e o colapso civilizatório antevisto pelo bug do milênio. O dito bug não veio, e os alienígenas também não, e a folhinha de 1999 foi trocada pela de 2000; lá se vão vinte anos em que novas formas de pensar e prever o fim do mundo pululam pelas mídias. A geopolítica global incute no homem comum o medo ante a mudança climática, prometendo extinção enquanto terraplanistas ressurgem num movimento pretensamente sério, maculando o conhecimento científico das eras. Naqueles idos o ensejo pedia uma obra milenarista, e terrorista, que insuflasse temor nos corações dos hipotéticos espíritas brasileiros - Ariston Teles não deixou passar, e ainda que reconheça no prefácio deste que o livro não pode ser reconhecido como tal por falta de conteúdo, ei-lo em sua existência como objeto que evoca o intelecto, embora este, singularmente não possa se afirmar que o faça.

Ramatis, um Espírito flagrantemente pseudo-sábio previra, a seu turno, agônicas convulsões de fin de sieclè que, como esperado, não ocorreram. Nesta obra, Ariston Teles alinha-se aos visionários do apocalipse, tendo nos caracteres próprios de uma sociedade em transição os sinais precedentes do Armagedom - ele assim os identifica. Todavia, antes que os fundamentar com argumentos de bom volume, nota-se, e ele o aponta, que cada página registra os tópicos de uma palestra - onde estaria o texto desta palestra? Não atinou ele para tomar nota disto, transcrevendo seus dizeres em seguida? A gramatura do papel que compõe as páginas, bastante denso, contribui para a sensação de um livro confeccionado com o fito oportunista de prover o milenarismo, somando às sensibilidades mais fragilizadas o terrorismo próprio que acompanha os fins de ciclo dos calendários. Fatores naturais pouco ou nenhuma influência sofrem pelo modo como o homem conta o tempo, como o divide e subdivide, como classifica e cria datas com significados próprios e especiais. O autor, o brasiliense que alega falar por Chico Xavier, aqui se deixa levar pelo zeitgeist, sonegando-se a uma abordagem mais crítica para a questão, ainda de interesse tão nevrálgico para certos indivíduos.

O fim do mundo não deveria preocupar, mas que tantas pessoas o temam é assunto oportuno para um estudo - não para o momento, contudo. Importa notar, para tal o presente, que a obra de Ariston Teles foi aqui escolhida para dar inicio a esta sessão justamente por sua condição sui generis: como livro não se sustenta; como obra alvitrada espírita, é um atentado a própria Doutrina. E o é por seu extremo oportunismo, na ambição de amealhar algumas somas em vista da iminência do novo século, e do novo milênio. Não é um livro amparado pelas bases da Doutrina dos Espíritos que Allan Kardec codificou; não aborda a questão a que se propõe de um ângulo seguramente crítico, historiográfico e espírita, o que garantiria, por certo, uma obra imensamente mais interessante, mesmo que seu autor insistisse na defesa de uma visão catastrofista da realidade. Aqui, contudo, não passa de um caça-níqueis em formato de livro; observa-se a capa e seus dizeres sensacionalistas, bem como o título falacioso, visto que a transição planetária prescrita pelo Espiritismo não é neste abordada; pior, fica-se com a certeza que o termo, para Ariston Teles é como que um sinônimo para o fim do mundo. Recomenda-se cuidado com obras de tal qualidade, pois são comuns; aninham-se sobre a corruptela de obra espírita, sem que sequer Allan Kardec haja sido evocado, numa prática ordinária que visa lesar o leitor pelo embuste barato, que pode sair caro.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

Você Cuida dos Seus Pensamentos?


Há poucas horas o ano de 2019, pelo calendário Gregoriano, acaba de se encerrar, e a prática comum é comemorar o ciclo findo na mesma medida que se festeja a renovação das esperanças e expectativas para o novo ano – eis o que é o Reveillon, ou a festa de Ano Novo. No Brasil, desde 1935, o primeiro dia de cada ano é um feriado nacional dedicado a Confraternização Universal; mas imaginar algo assim, de tão somente um âmbito mundial, já seria uma feliz ficção. Todavia, pelos caminhos tortuosos da humanidade, sob certos pontos de vista, a conjuntura nacional reflete o mundo, numa curva descendente da humanidade rumo a um destino cada dia mais sombrio. Mas será isto verdade? Quem pode reivindicar uma posição tal de lucidez e uma tão isenta tomada de vista geral que lavre a sentença, que delibere e profetize o sofrimento, a dor e o fadário humano em suas piores e mais obscuras cores?

O título que principia este artigo, que principia a série pretendida de opúsculos a preencher este blog no decurso do presente ano pode, inequivocamente assemelhar-se ao que é produto do que se conhece por autoajuda – bem, atualmente nos centros espíritas é difícil ver em reuniões públicas palestrar-se acerca de Allan Kardec, dos postulados da Doutrina dos Espíritos, o abordar de questões candentes relativas ao objeto de estudo do Espiritismo, qual seja o Espírito, quando o comum é a prática do discurso da autoajuda. Em exposições mais ou menos eficientes, os palestrantes se outorgam a autoridade de psicoterapeutas, independentemente de suas formações, deitando toda sorte de teses na busca pela sublimação das afecções da mente. A que ponto todo este palanfrório surte o efeito desejado ou possui apenas um caráter paliativo efêmero, somente quem se propõe a condição de ouvinte pode o saber. Mas, se algo há que o Espiritismo deva contribuir neste sentido, certamente não será equiparando-se a autoajuda que obterá os mais bem-sucedidos desfechos – é preciso a profundidade de um estudo assíduo do Espiritismo para se alcançar a mudança desejada.

A despeito de tal similaridade ou parentesco temático quanto ao título, esta questão permanece – quem vigia o próprio pensamento? Os profetas do apocalipse se enfileiram diante dos púlpitos da nação prevendo o caos, a destruição, a dor e a morte. As convulsões políticas incentivam o discurso, nem um pouco isento, é preciso que se note – o observar do andamento natural dos dias trouxe questões interessantes, expôs pensamentos, engessou discursos, soergueu falácias, floresceu sofismas, preenchendo um ano que se expira com ódio irracional; pior ver tais procederes daqueles que se arvoram espíritas, que se propõem estudiosos da Doutrina, que esforçam-se para ombrear Allan Kardec. O real compromisso surge límpido e claro – não é com a Doutrina, é com a ideologia política, com agenda quiméricas, fantasiosas, utópicas. Para tanto, prática comum, agarram pelo colarinho bem cortado do professor Rivail e o trazem à luz de um Brasil abalado, enfermiço e fendido ao meio para fazê-lo representante do pensamento de esquerda, ora de direita.

Na edição de julho de 1868 da Revista Espírita, há um artigo intitulado O Partido Espírita, onde Allan Kardec registra haver tomado notícia pela imprensa de um relatório urdido pelo Estado francês declarando o Espiritismo um partido político. Seus comentários a tal fato são de uma contundência e poder que o espírita não lhe por olhos é um prejuízo a própria instrução. Para tanto interessa observar os seguintes trechos do mesmo:

Por sua natureza e por seus princípios, o Espiritismo é essencialmente pacífico; é uma ideia que se infiltra sem ruído, e se encontra numerosos aderentes, é que agrada; jamais fez propaganda nem exibições quaisquer; forte pelas leis naturais, nas quais se apoia, vendo-se crescer sem esforços nem abalos, não vai ao encontro de ninguém, não violenta nenhuma consciência; diz o que é e espera que a ele venham. Todo o ruído que se fez a sua volta é obra de seus adversários; atacaram-no, ele teve de se defender, mas sempre o fez com calma, moderação e só pelo raciocínio; jamais se afastou da dignidade que é própria de toda causa que tem consciência de sua força moral; (...) Hão de convir que é este o caráter ordinário dos partidos, turbulentos por natureza, fomentando a agitação e a quem tudo é bom para chegar aos fins.

Na edição de agosto do mesmo ano, em resposta a um correspondente de Sens, acerca justamente deste primeiro artigo, Allan Kardec complementa:

A palavra partido implica, por sua etimologia, a ideia de divisão, de cisão e, por conseguinte, a de luta, de agressão, de violência, de intolerância, de ódio, de animosidade, de vingança, coisas todas contrárias ao espírito do Espiritismo. Não tendo o Espiritismo nenhum desses caracteres, pois que os repudia, por suas tendências mesmas, não é um partido na acepção vulgar da palavra, (...) Longe de nós, pois o pensamento de transformar em partidários os adeptos de uma doutrina de paz, de tolerância, de caridade e de fraternidade. A palavra partido, aliás, nem sempre implica a ideia de luta, de sentimentos hostis; não se diz: o partido da paz? O partido das pessoas honestas? O Espiritismo já provou, e provará sempre, que pertence a esta categoria.

Contudo, cerca de seis anos antes, na edição de fevereiro de 1862, em artigo intitulado Resposta Dirigida aos Espíritas Lioneses por Ocasião do Ano Novo, sua postura e opinião lavram a sentença em definitivo quanto a questão da política introduzida aos meios da prática espírita:

Assim, reconhecereis o verdadeiro espírita pela prática da caridade em pensamentos, palavras e ações; e vos digo que aquele que em sua alma nutrir sentimentos de animosidade, de rancor, de ódio, de inveja ou de ciúme, mente a si mesmo se aspira a compreender e a praticar o Espiritismo. (...) Devo ainda vos chamar a atenção para outra tática de nossos adversários: a de procurar comprometer os espíritas, induzindo-os a se afastarem do verdadeiro objetivo da doutrina, que é o da moral, para abordarem questões que não são de sua competência e que poderiam, com toda razão, despertar susceptibilidades e desconfianças. Também não vos deixeis cair nessa armadilha; afastai cuidadosamente de vossas reuniões tudo quanto disser respeito à política e às questões irritantes; nesse caso, as discussões não levarão a nada e apenas suscitarão embaraços enquanto ninguém questionará a moral, quando ela for boa. Procurai, no Espiritismo, aquilo que vos pode melhorar; eis o essencial. Quando os homens foram melhores, as reformas sociais verdadeiramente úteis serão uma consequência natural.

Constitui-se este trecho final num verdadeiro cala boca a todos aqueles que buscam atrelar a figura de Allan Kardec e ao Espiritismo a pecha de doutrina de esquerda; mais, estas palavras constituem-se na proposta espírita para a melhoria do mundo – mude a si mesmo para melhor e seja o bom exemplo em que o mundo pode espelhar-se. Difícil? Claro, mas em total sintonia com a realidade evolutiva do planeta. Todavia, estas palavras do professor abordam a questão que nos levou a este artigo, qual seja a da vigilância de si mesmo, dos próprios pensamentos, e do compromisso que o espírita deve, por princípio, consolidar consigo mesmo. O que temos testemunhado, contudo, vai na contramão das instruções do Codificador; indivíduos que se propuseram a perniciosa prática diária da crítica gratuita a vazia a tudo quanto lhes é contrário ao pensamento, as inclinações pessoais, a entranhada ideologia política que sustentam em muito maior importância que o Espiritismo. Pode-se desgostar da figura do presidente da República, mas impor-lhe os piores pensamentos, a mais rasteira má vontade para com suas ações e palavras tem, antes que a suposta nobiliárquica ação combativa do campo político, a consequência de somar para piorar a atmosfera fluídica do país. Sustentar ódios intestinos de alguém, e alguém que não se conhece pessoalmente, não apenas denuncia um ser humano em seu mais amador estado, imaturo e patético, como depõe contra o Espiritismo se este assim se proclamar um adepto. Indivíduos tem criado irreais dificuldades em suas próprias vidas porque alguém que lhes é completamente distante do campo de ação cotidiana está ocupando o cargo político mais importante do país - eis a consequência direta do ódio, da animosidade, do rancor, dos sentimentos negativos. Caberia, por princípio, que o espírita reconhecesse com grande dose de bom senso que a demonização de uma figura, seja ela quem for, não é o proceder mais coerente, a prática mais salutar, seja no âmbito dos círculos pessoais, seja em apontar um sujeito público para tanto. A natureza pacífica do Espiritismo passa distante de tais pessoas que apenas se arvoram aderentes sem o serem, como denuncia-lhes as palavras e ações.

A agenda oficial do mundo hoje constitui-se numa grande cortina de fumaça que nubla as vistas para os reais problemas; e a aceitação deste expediente se mostra na valorização de garotinhas bem-nascidas que com suas trancinhas vão cobrar aos líderes mundiais suas infâncias perdidas, enquanto crianças de pele escura padecem a fome dos corpos até o limite da razão, perdidas em localidades esquecidas do território planetário. As ações geopolíticas engendradas por engravatados condena milhões, na mesma medida que ilude bilhões acerca da falácia das mudanças climáticas decorrentes da ação humana. Qualquer indivíduo mais ou menos instruído e minimamente informado compreende que a agenda ecologicamente correta, e o terrorismo que se busca imputar ao homem comum em suas relações com o meio ambiente tem um claro motivador, que passa longe da ameaça, suposta, da extinção da espécie humana. O petróleo é um recurso natural largamente utilizado no mundo moderno, e por mais que se queira, ninguém sabe a quantidade existente na natureza. Países ricos e desprovidos de recursos energéticos naturais, principalmente o petróleo, patrocinam a ideia da mudança climática consequente da ação humana com o fito único de frear o desenvolvimento dos demais países do globo, para que estes persistam dependentes economicamente, exportando seus recursos naturais sem o qual os primeiros padeceriam. Destarte, a emissão de gás carbônico decorrente da industrialização é o vilão que está causando o efeito estufa, e aquecendo o planeta, uma mentira que depõe contra o básico das Ciências naturais aprendido no banco escolar – forçando a diminuição da emissão destes gases, os países ricos freiam a produção industrial dos países em desenvolvimento, obrigando-os a depender das exportações de seus recursos para sustentarem suas economias. Observar os veículos de mídia mundiais apoiando tal demanda, alimentando esta cortina de fumaça, chega a ser uma afronta a inteligência de qualquer indivíduo – apenas revolta menos que testemunhar supostos espíritas apoiando que o frívolo Prêmio Nobel da Paz seja dado a tal garotinha sueca que teve sua infância perdida exposta num discurso de ódio, diante dos olhares estupefatos do mundo. Culpa, remorso, ódio, egoísmo, ciúmes, inveja enfim, toda sorte de sentimentos e emoções negativas, alimentados e retroalimentados por uma realidade que, antes de ser compreendida pelas vias que o Espiritismo propõe, são o açoite que magoa as consciências sensíveis, as suscetibilidades mais caprichosas, as mais imaturas individualidades - resultam em que efeito? Não se pede ao leigo compreender as relações de causalidade, tampouco a ação do pensamento no fluido, menos ainda a esperança no futuro decorrente da fé raciocinada, mas aquele que se outorga espírita tem por obrigação saber, e este saber demonstrar-se na própria melhoria, no progresso moral que se almeja, decorrência direta do progresso intelectual.

Esta compreensão, este saber, advirá apenas do estudo contínuo e assíduo da Doutrina dos Espíritos, jamais em conjunto ou ladeando uma doutrina política, ou ideologia cujos postulados sejam contrários a esta – acaso a realidade seja per si uma provocação? Poucos há que aceitem-na inteiramente, e menos ainda os que de fato a compreendem por uma visão de conjunto privilegiada para emitir uma opinião isenta e correta; a imensa maioria apenas julga de um ponto diminuto, embora tenham enorme visibilidade suas palavras e discursos. Deseja-se que o mundo mude para melhor? Certo é que ninguém possui tão grande progresso que o possa fazer por si mesmo, ou pela mobilização de indivíduos graças a um carisma singular. Aliás, há muita pretensão em quem se propõe salvador da pátria, e uma inocência igualmente abundante em quem dá crédito a tais bisonhas personagens. Parafraseando um dito chinês – se o desejo é limpar o mundo, comece pela própria casa; e não há lugar melhor, nem mais trabalhoso, que a habitação mental, que o pensamento, que precisa ser expurgado de conceitos equivocados, de discursos e agendas que escondem o engodo e o ódio, para de fato empreender-se uma cultura de paz.

Todavia, para os persistentes sistemas utópicos de justiça social, basta recordar a comunicação do Espírito Bernard Palissy, dada a Allan Kardec e transcrita em artigo da Revista Espírita de abril de 1858 – tal Espírito, encarnado em Júpiter, um planeta superior a Terra, em cujo conjunto a humanidade terrestre pode almejar alcançar, vem trazer aspectos da vida que lá existe. Algumas poucas questões nos interessam para o presente artigo:

71. Há ricos e pobres, isto é, homens que vivem na abundância e no supérfluo, e outros a quem falta o necessário?
R. – Não; todos são irmãos; se um possuísse mais que o outro, com este dividiria; não seria feliz quando seu irmão se privasse do necessário.

72. De acordo com isso, as fortunas seriam iguais para todos?
R. – Eu não disse que todos sejam ricos no mesmo grau; perguntastes se haveria os que possuem o supérfluo e outros a quem faltasse o necessário.

73. Essas duas respostas nos parecem contraditórias; pedimos que estabeleças a concordância entre elas.
R. – A ninguém falta o necessário; ninguém possui o supérfluo, ou seja, a fortuna de cada um está em relação com a sua condição. Estais satisfeitos?

74. Agora compreendemos; mas perguntamos, ainda, se aquele que tem menos não é infeliz, relativamente àquele que tem mais?
R. – Não pode ser infeliz, desde que não é invejoso nem ciumento. A inveja e o ciúme fazem mais infelizes que a miséria.

75. Em que consiste a riqueza em Júpiter?
R. – Que vos importa?

76. Há desigualdades sociais?
R. – Sim.

77. Sobre o que se fundam tais desigualdades?
R. – Sobre as leis da sociedade. Uns são mais ou menos avançados em perfeição. Os que são superiores exercem sobre os outros uma espécie de autoridade, como um pai sobre os filhos.

Num planeta de tal conta avançado qual Júpiter, a matéria não é encarada senão por aquilo que de fato é, a ferramenta que faculta as experiências que resultam no progresso do Espírito – isto é tão verdade que Allan Kardec, em seus parâmetros de fortuna e miséria, precisou de uma questão mais para compreender o que se passa. Mas, e isto é necessário atentar, a solidariedade que propicia a ninguém as agruras da extrema carência material é resultado do progresso íntimo de cada indivíduo, e não o efeito de uma imposição legal, juridicamente instituída, que violenta a natureza particular dos Espíritos. A ilusão que haja, que nutre o ser humano acerca de uma equidade material à guisa de igualdade social, segundo os parâmetros observáveis na Terra são e persistirão sendo apenas isto, uma ilusão. Será preciso o progresso dos indivíduos, um a um, leve o tempo que levar, para alcançar-se um estado como o existente em Júpiter. Até lá, ao invés de buscar uma utopia, não seria mais coerente consagrar esforços a algo mais real, possível de ser alcançado, qual o progresso pessoal? Qual a aumentar o conhecimento próprio, e educar os sentimentos, comedir as emoções, melhorar a qualidade dos próprios pensamentos?

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Até o ano que vem

Organizados os Espíritos encarnados no planeta Terra segundo seus meios, anseios e progresso íntimo, a fim de gerir o tempo transcorrido do orbe em suas circunvoluções espaciais, em sua relação com estes, criaram-se os meios de mensurar, classificar e subdividir tal fenômeno. Assim sendo, o tempo que a humanidade goza não ficou apenas no âmbito da reação natural às auroras e aos ocasos, ou entre o que se convencionou chamar dia e noite. Os calendários, adotados segundo a particularidade de diferentes povos e culturas do mundo, são o testemunho de milhares de anos de observação do tempo, das sazonalidades decorrentes dos movimentos do planeta ao redor da estrela que lhe faculta possuir vida. A contagem e o registro do tempo sedimentou a civilização - permitiu a agricultura, a pecuária, a exploração de diferentes recursos naturais para o desenvolvimento humano, para seu progresso enfim. Natal e Reveillon são, outrossim, convenções, que vão ao socorro da necessidade em adotar o natural nascer e fenecer do dia numa escala muito maior, prescrevendo eternos começos e fins para ciclos de tempo que se contam em semanas, quinzenas, meses, anos, décadas, séculos, milênios, etc. - com o acréscimo de resignificações religiosas atadas a fenômenos naturais, como equinócios e solstícios, as festividades pagãs ou pré-históricas se propagaram através da história, de sociedade em sociedade desde então. Destarte, o Natal é celebrado no solstício de inverno, no hemisfério norte, que ocorre próximo ao 25 de dezembro segundo o antigo calendário romano (o calendário gregoriano em uso no ocidente aponta o 22 de dezembro como data mais aproximada do fenômeno) - este fato é notado pois aí a noite possui a maior duração do ano em relação ao dia; a partir do dia seguinte ao solstício, as noites começam a ter uma duração menor, e os dias uma duração maior, o que simbolizava para os povos primevos a vitória da luz frente a escuridão, do Sol contra a noite. A primitiva humanidade cultuava o Sol, como os Persas, por exemplo - a partir do terceiro século depois de Cristo, o Império Romano incorporou esta adoração por meio do culto ao deus Sol Invicto, que determinou o nascimento desta deidade no dia 25 de dezembro, dia em que sua personificação vence a escuridão, e os dias passam a ser maiores em relação as noites, ou seja, o solstício de inverno no hemisfério norte. Com o avanço cristão no seio de Roma, este foi se interpolando aos cultos já existências, enquanto aqueles sofreram igual processo, adotando aspectos do cristianismo. Por convenção, portanto, e tendo Jesus seu nascimento associado ao deus Sol Invicto, o 25 de dezembro passa a ser comemorado como dia do nascimento deste Espírito de avultado progresso. Não apenas Jesus, mas uma série de avatares, deuses e iluminados do mundo antigo tem seu nascimento registrado nesta data, como Herácles, Hórus, Krishna, Mitra, Dionísio, entre muitos outros. Muito embora, na condição de espíritas sejamos instados a racionalizar tais ordens de questões, é preciso reconhecer o valor social destas efemérides, respeitá-las e, ainda que não se deseje fazer parte de quaisquer festividades correlatas, não sujeitar quem vê nestas um mote para culto os argumentos do intelecto. Cada Espírito estará pronto segundo sua maturação natural, não cabendo empreender uma cruzada descabida e inútil contra uma prática que remonta ao princípio da senda humana na Terra. Para os que nos acompanharam desde este ano, quando iniciado tal despretensioso trabalho, desejamos um ano que se avizinha de excelentes realizações, sucesso e paz. Para encerrar esta que é a derradeira postagem de 2019, deixamos o registro de uma das fotografias tomadas do Espírito materializado de Katie King, que dobrou a incredulidade de Sir William Crookes, um dos maiores sábios nascidos em território inglês, com nossas redobradas recomendações de leitura e exame das obras que assinalam seus experimentos. Até 2020.



sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Qual o tamanho do Espírito?

No ano de 1984 um filme de origem americana chegou aos cinemas causando grande comoção – Ghostbuster, ou Os Caça-Fantasmas. Em 1989 ganharia uma continuação intitulada apenas Os Caça-Fantasmas II, decorrência direta do sucesso da primeira aventura de três parapsicólogos que estudam fenômenos psíquicos, e fazem da caça e captura de fantasmas sua profissão. Alguns dos conceitos comuns a parapsicologia, e a certas correntes de estudo e pesquisa espiritualista já se encontravam presentes no primeiro filme, mas é em sua continuação que curioso elemento da trama interessa. Havendo encontrado um rio do que as personagens de Dan Aykroyd e Harold Ramis chamam de lodo psicoativo sob a cidade de Nova York, eles colhem uma amostra e com este fazem uma série de experimentos, animando uma torradeira que reage a música, por exemplo. Qualquer indivíduo mais ou menos familiarizado aos conceitos da Doutrina dos Espíritos viu ali o fluido – na realidade, o fluido está presente desde o primeiro filme, quando afirmado de que tal substância são constituídos os fantasmas. De fato, a personagem de Bill Murray é quem acaba se havendo em lidar com os resquícios deixados pela passagem dos espectros, um fluido mais semelhante a um gel do que aquele que já se observou em sessões reais de materialização.

Para algumas correntes de estudos e pesquisa de fenômenos mediúnicos, da qual o filme lança mão em seus elementos, o fluido é chamado de ectoplasma – o termo foi cunhado em 1894 por Charles Richet, inventor da Metapsíquica. O uso errôneo deste termo para designar o fluido quando sofre certa condensação nos fenômenos de materialização é comum nos meios supostamente espíritas. Que fique claro, o termo é da Metapsíquica e não do Espiritismo; e, se nos permitamos o parêntese, Charles Richet embora francês, pouco deu atenção ao Espiritismo de Allan Kardec. Em O Tratado de Metapsíquica, um catatau de mais de 600 páginas, dedica poucas linhas a ele, equivocando-se ao trata-lo como médico; não apenas isso:

Essa teoria tem entretanto, um lado fraco, dolorosamente fraco. Toda a construção do sistema filosófico de Allan Kardec (que é aquela mesma do espiritismo) tem por base está brilhante hipótese de que os médiuns, nos quais se diz que os espíritos estão incorporados, não se enganam nunca, e que as escritas automáticas nos revelam verdades que é necessário aceitar, a não ser que esteja influenciado por maus espíritos. Nestas condições, se acompanhamos a teoria de Allan Kardec, seremos também levados a aceitar como dinheiro contado todas as divagações do inconsciente, as quais, salvo exceções, dão sempre mostra de uma muito primitiva e pueril inteligência. É um erro bem grave construir uma doutrina com as palavras dos tais espíritos, que são pobres espíritos.

Uma opinião que apenas pode ser exarada de alguém que jamais leu a obra espírita, que jamais pôs olhos a, por exemplo, o capítulo XXI de O Evangelho Segundo o Espiritismo. À segunda edição de sua obra, entretanto, Richet surge cheio de queixumes diante da repercussão desta entre os espíritas franceses:

Os espíritas receberam o meu Tratado de Metapsíquica com grande frieza. Compreendo o seu estado de espírito. Em vez de aceitar a sua teoria ingênua e frágil, propus aguardar, para se constituir qualquer teoria defensável, que os fatos fossem classificados, codificados, marcados, acompanhando-os das necessárias exigências do método experimental. Ao contrário, os espíritas julgam possuir já uma explicação adequada para todos os fenômenos. Disse-lhes que a sua explicação era hipotética, mas não hesitei em reconhecer que em certos casos, raros, a hipótese espírita, simplista, parecia ser preferível. Creio bem que isso não é senão uma aparência. Portanto a aparência continua nela. Se os espíritas fossem justos, reconheceriam que a minha tentativa de fazer entrar na ordem dos fatos científicos todos os fenômenos que constituem a base de sua fé, mereceria eu verdadeiramente alguma indulgência.

Suscita a qualquer estudioso do Espiritismo indagar das razões de tão indisfarçável ressentimento, visto que as inferências de Charles Richet parecem apriorísticas; não seriam os adeptos da Doutrina dos Espíritos a constatar como frágil e ingênuo quem afirma que Espíritos incorporam em médiuns, ou que Allan Kardec não dispensou linhas sem fim a expor critérios para o exame das mensagens dos Espíritos? Este é, tão somente, um capítulo mais na senda dos caminhos tortuosos pelos quais seguiram e seguem os aderentes da realidade do Espírito, que antes de haverem deixado de lado suas diferenças, coerentemente agindo diante da evidência de uma existência espiritual, a essencial, parecem haver se guiado pelos anseios do ego e do egoísmo, valorizando mais a matéria.

Diversamente do que ocorre em Caça-Fantasmas II, o ectoplasma, ou antes o fluido num estado particular de condensação, não é uma substância de fácil aquisição, tampouco de fácil conservação -  Juliette Bisson, como o descreve Arthur Conan Doyle em seu livro A História do Espiritualismo, madame da sociedade francesa e entusiasta dos fenômenos mediúnicos, empreendeu cinco anos de constantes experimentos com a médium Marthe Béraud, cognominada Eva Carrière, a quem adotou como uma filha. Em tais sessões, o cientista alemão Dr. Schrenck Notzing controlava estritamente as condições para evitar fraudes, e o resultado está hoje nos anais do espiritualismo mundial - o autor, acerca destes afirma curiosa iniciativa dos experimentadores:

Com o consentimento da médium foi cortada uma pequena porção (do fluido). Dissolveu-se na caixa em que foi colocada, como se fosse neve, deixando umidade e algumas células que poderiam provir de um fungo. O microscópio demonstrou células epiteliais da membrana mucosa, das quais a coisa parecia originar-se.

Em outras ocasiões, com diferentes médiuns e pesquisadores, obteve-se toda sorte de substâncias, inclusive cabelo humano colhido de uma pequena cabeça materializada, demonstrando tratar-se esta de matéria volátil, flexível, capaz de assumir formas, texturas e propriedades ao sabor dos pedidos daqueles que desejaram com ela colher resultados peremptórios, atestando sua existência de modo inegável. Estes e outros tantos relatos em que o fluido condensado (ou ectoplasma como querem os adeptos da Metapsíquica) facultou a materialização de Espíritos, traz a memória os registros dos experimentos de Sir William Crookes com a médium Florence Cook, cuja mediunidade manifestava o Espírito de uma moça chamada Katie King. Ao tomar-lhe o pulso o cirurgião Dr. James M. Gully, nada pode aferir buscando-lhe os batimentos cardíacos - porém, ao que o Espírito compreendendo o objetivo deste, fez reagir-lhe a substância fluídica de que se constituía, apresentando na sequência uma pulsação firme qual se se contasse de retorno ao mundo dos encarnados.


 Todo este introito resulta do desejo de responder a questão que intitula o presente artigo, vindo por fontes várias demonstrar irrecusavelmente a existência do perispírito e da matéria de que este se compõe, o fluido. Conceber o Espírito destituído de forma, ou constituição particular, divisando-lhe a nu em sua natureza imaterial é tema da imaginação. Desde a mais remota Antiguidade, o corpo sútil que dá individualidade e envolve o Espírito é conhecido, sendo no Egito chamado de Ka; na Grécia era conhecido por Ochéma; o matemático e filosofo Pitágoras dera-lhe o nome de Eidolon; para os hindus trata-se da Linga Sharira; para os hebreus é a Néphesph; Paracelso o denominou Corpo Sidéreo, enquanto Hippolyte Baraduc o chamou Somod; Paulo de Tarso, por conseguinte, em suas epístolas o tratou por Corpo Espiritual. Transcrever in extenso todas as passagens em que Allan Kardec remete a existência, origem e propriedades do perispírito, resultaria confeccionar uma obra própria, sem acrescer-lhe qualquer linha possível, sob pena de avolumar em vão um conhecimento bastante amplo, e doutrinariamente definitivo. Sob os auspícios dos bons Espíritos e contando com a indulgência dos leitores, apanharemos de trechos das Obras Básicas que, concluímos, perfazem o todo da matéria de modo resumido, para que se possa em sequência vir adentrar o bojo do presente.

1- O que é o perispírito?

93. O Espírito, propriamente dito, está a descoberto ou, como alguns o pretendem, encontra-se envolto numa substância qualquer?
O Espírito é envolvido por uma substância vaporosa para ti, porém, ainda muito grosseira para nós; todavia, bastante vaporosa para poder elevar-se na atmosfera e transportar-se para onde ele queira.

Além desse invólucro material, tem o Espírito um segundo, semimaterial, que o liga ao primeiro. Por ocasião da morte, despoja-se deste, porém não do outro, a que damos o nome de perispírito.” - O Livro dos Médiuns, 1º parte, cap. 1, item 3

O perispírito faz, portanto, parte integrante do Espírito, como o corpo o faz do homem. Porém, o perispírito, só por só, não é o Espírito, do mesmo modo que só o corpo não constitui o homem, porquanto o perispírito não pensa. Ele é para o Espírito o que o corpo é para o homem: o agente ou instrumento de sua ação.” - O Livro dos Médiuns, 2º parte, cap. 1, item 55

2- Qual a função do perispírito?

Esse invólucro semimaterial, que tem a forma humana, constitui para o Espírito um corpo fluídico, vaporoso, mas que, pelo fato de nos ser invisível no seu estado normal, não deixa de ter algumas das propriedades da matéria.” - O Livro dos Médiuns, 1º parte, cap. 1, item 3

Esse segundo invólucro da alma, ou perispírito, existe, pois, durante a vida corpórea; é o intermediário de todas as sensações que o Espírito percebe e pelo qual transmite sua vontade ao exterior e atua sobre os órgãos do corpo. Para nos servirmos de uma comparação material, diremos que é o fio elétrico condutor, que serve para a recepção e a transmissão do pensamento; é, em suma, esse agente misterioso, imperceptível, conhecido pelo nome de fluido nervoso, que desempenha tão grande papel na economia orgânica e que ainda não se leva muito em conta nos fenômenos fisiológicos e patológicos.” - O Livro dos Médiuns, 2º parte, cap.1, item 54

Pela sua essência espiritual, o Espírito é um ser indefinido, abstrato, que não pode ter ação direta sobre a matéria, sendo-lhe indispensável um intermediário, que é o envoltório fluídico, o qual, de certo modo, faz parte integrante dele. É semimaterial esse envoltório, isto é, pertence à matéria pela sua origem e à espiritualidade pela sua natureza etérea. Como toda matéria, ele é extraído do fluido cósmico universal que, nessa circunstância, sofre uma modificação especial. Esse envoltório, denominado perispírito, faz de um ser abstrato, do Espírito, um ser concreto, definido, apreensível pelo pensamento. Torna-o apto a atuar sobre a matéria tangível, conforme se dá com todos os fluidos imponderáveis, que são, como se sabe, os mais poderosos motores. O fluido perispirítico constitui, pois, o traço de união entre o Espírito e a matéria. Enquanto aquele se acha unido ao corpo, serve-lhe ele de veículo ao pensamento, para transmitir o movimento às diversas partes do organismo, as quais atuam sob a impulsão da sua vontade e para fazer que repercutam no Espírito as sensações que os agentes exteriores produzam. Servem-lhe de fios condutores os nervos como, no telégrafo, ao fluido elétrico serve de condutor o fio metálico.” - A Gênese, cap. 11, item 17

3- Qual a origem do perispírito?

94. De onde o Espírito retira seu envoltório semi-material?
Do fluido universal de cada globo. É por isso que não é idêntico em todos os mundos; passando de um mundo a outro, o Espírito muda de envoltório, como mudais de roupa.” - O Livro dos Espíritos

135a) Qual a natureza desse elo?
Semimaterial, isto é, intermediária entre o Espírito e o corpo. E é preciso que assim seja, para que eles possam comunicar-se um com o outro. É através desse elo que o Espírito age sobre a matéria e reciprocamente.” - O Livro dos Espíritos

O perispírito, ou corpo fluídico dos Espíritos, é um dos mais importantes produtos do fluido cósmico; é uma condensação desse fluido em torno de um foco de inteligência ou alma.” - A Gênese, cap. 14, item 7

4- Como se relaciona o perispírito ao progresso do Espírito?

94a) Assim, quando os Espíritos que habitam mundos superiores vêm até nós, tomam um perispírito mais grosseiro?
É preciso que se revistam da vossa matéria; já o dissemos.” - O Livro dos Espíritos

186. Haverá mundos em que o Espírito, deixando de habitar um corpo material, só tenha como envoltório o perispírito?
Sim; e até mesmo esse envoltório se torna tão etéreo, que para vós é como se ele não existisse; este é, então, o estado dos puros Espíritos.” - O Livro dos Espíritos

187. A substância do perispírito é a mesma em todos os mundos?
Não; ela é mais ou menos etérea. Passando de um mundo a outro, o Espírito se reveste da matéria própria de cada um; e essa mudança é tão rápida quanto o relâmpago.” - O Livro dos Espíritos

Mas, qualquer que seja o grau em que se encontre, o Espírito está sempre revestido de um envoltório, ou perispírito, cuja natureza se eteriza, à medida que ele se depura e eleva na hierarquia espiritual.” - O Livro dos Médiuns, 2º parte, cap. 1, item 55

Esse envoltório, haurido no meio ambiente, varia, conforme a natureza dos mundos. Passando de um mundo ao outro, os Espíritos mudam de envoltório como mudamos de roupa, ao passar do inverno para o verão, ou do pólo ao Equador. Os Espíritos mais elevados, quando vêm nos visitar, revestem, portanto, o perispírito terrestre e, então, suas percepções se produzem como nos nossos Espíritos comuns;” - O Livro dos Espíritos, item 257

5- Quais são as propriedades do perispírito?

95. O envoltório semimaterial do Espírito dispõe de formas determinadas e pode ser perceptível?
Sim, uma forma correspondente à vontade do Espírito; é assim que ele vos aparece algumas vezes, quer nos sonhos, quer no estado de vigília, e que pode tomar uma forma visível e até mesmo palpável.” - O Livro dos Espíritos

Por sua natureza e em seu estado normal, o perispírito é invisível (…) Mas, (…) pode ele sofrer modificações que o tornem perceptível à vista, quer por meio de uma espécie de condensação, quer por meio de uma mudança na disposição de suas moléculas. Aparece-nos então sob uma forma vaporosa. A condensação (…) dizemos, pode ser tal que o perispírito adquira as propriedades de um corpo sólido e tangível, conservando, porém, a possibilidade de retomar instantaneamente seu estado etéreo e invisível.” - O Livro dos Médiuns, 2º parte, cap. 6, item 105

O perispírito pode variar de aparência, modificar-se ao infinito; a alma é a inteligência, não muda a sua natureza.” - O Livro dos Médiuns, 1º parte, cap. 4, item 51

Mas a matéria sutil do perispírito não possui a tenacidade, nem a rigidez da matéria compacta do corpo; é, se assim nos podemos exprimir, flexível e expansível, donde resulta que a forma que toma, conquanto decalcada na do corpo, não é absoluta, amolga-se à vontade do Espírito, que lhe pode dar a aparência que entenda, ao passo que o invólucro sólido lhe oferece invencível resistência.” - O Livro dos Médiuns, 2º parte, cap. 1, item 56

O Espírito, encarnado, conserva, com as qualidades que lhe são próprias, o seu perispírito que, como se sabe, não fica circunscrito pelo corpo, mas irradia ao seu derredor e o envolve como que de uma atmosfera fluídica. (…) Sendo o perispírito dos encarnados de natureza idêntica à dos fluidos espirituais, ele os assimila com facilidade, como uma esponja se embebe de um líquido. Esses fluidos exercem sobre o perispírito uma ação tanto mais direta, quanto, por sua expansão e sua irradiação, o perispírito com eles se confunde.” - A Gênese, cap. 14, item 18

Criando imagens fluídicas, o pensamento se reflete no envoltório perispirítico, como num espelho, ou ainda como essas imagens de objetos terrestres que se refletem nos vapores do ar; toma nele corpo e aí, de certo modo se fotografa. Tenha um homem, por exemplo, a ideia de matar a outro: embora o corpo material se lhe conserve impassível, seu corpo fluídico é posto em ação pelo pensamento e reproduz todos os matizes deste último; executa fluidicamente o gesto, o ato que intentou praticar. O pensamento cria a imagem da vítima e a cena inteira é pintada, como num quadro, tal qual se lhe desenrola no Espírito. Desse modo é que os mais secretos movimentos da alma repercutem no envoltório fluídico; que uma alma pode ler noutra alma como num livro e ver o que não é perceptível aos olhos do corpo. Os olhos do corpo veem as impressões interiores que se refletem nos traços do rosto: a cólera, a alegria, a tristeza; mas a alma vê nos traços da alma os pensamentos que não se traduzem no exterior.” - Revista Espírita, junho de 1868, Fotografia do Pensamento

Em muitos passos do Evangelho se lê: 'Mas, Jesus, conhecendo-lhes os pensamentos, lhes diz...' Ora, como poderia Ele conhecer os pensamentos dos seus interlocutores, senão pelas irradiações fluídicas desses pensamentos e, ao mesmo tempo, pela vista espiritual que lhe permitia ler-lhes no foro íntimo? Muitas vezes, supondo que um pensamento se acha sepultado nos refolhos da alma, o homem não suspeita que traz em si um espelho onde se reflete aquele pensamento, um revelador na sua própria irradiação fluídica, impregnada dele. Se víssemos o mecanismo do mundo invisível que nos cerca, as ramificações dos fios condutores do pensamento, a ligarem todos os seres inteligentes, corporais e incorpóreos, os eflúvios fluídicos carregados das marcas do mundo moral, os quais como correntes aéreas, atravessam o espaço, muito menos surpreendidos ficaríamos diante de certos efeitos que a ignorância atribui ao acaso.” - A Gênese, cap. 15, item 9

Apesar de todo este conhecimento assim exposto, muitas pessoas guardam sérias ressalvas a alguns pontos que lhes parecem, por falta de instrução, obscuros em demasia – há muito mais a ser obtido pela leitura e estudo das Obras Básicas, comunicações, mensagens e explicações detalhadas que constam da Revista Espírita; e não se dê o sujeito por satisfeito, há uma série de experimentadores, pesquisadores e catalogadores de fenômenos mediúnicos, coetâneos de Allan Kardec e posteriores, cujas descrições e estudos de caso valem a pena serem lidos e examinados, acautelando-se, todavia, de suas conclusões que podem, por certo, passarem ao largo da Doutrina dos Espíritos. Um de tais pontos diz respeito precisamente a questão que dá título ao presente artigo – parece mote de dúvida que o Espírito, e consequentemente o perispírito que o envolve, possa variar de estatura de maneira abrupta e acentuada. A apreciação das Obras Básicas resulta compreender que a forma humana é a adotada universalmente pelos Espíritos, e que o perispírito pode variar de aparência, modificar-se ao infinito. Pode-se, no mais, especular das razões de tal resistência diante de fenômeno tão natural e corriqueiro – doutrinas e sistemas de ideias completamente estranhos ao Espiritismo, vicejando aqui ora acolá podem ser apontados como os responsáveis pelo domínio universal da ignorância. No entanto, sem lhes dar o crédito de uma análise, em vista de já as haver examinado em vários dos artigos aqui publicados, basta que se constate haver um materialismo nas entrelinhas que concebem o perispírito como possuidor de órgãos, tal e qual o corpo físico – basta o estudo para ver a verdade.


A título de exercitar o mais fundamental didatismo, observemos as figuras retratadas acima – lado a lado estão, separados por décadas, o homem mais alto do mundo de que se tem registro, o norte-americano Robert Wadlow, que até o momento de sua morte jamais parou de crescer, atingindo incríveis 2m72cm. de altura., e o nepalês Chandra Dangi, que a seu turno, é considerado o menor ser humano registrado, não tendo ultrapassado míseros 0,55cm. de altura. Para se ter uma ideia da discrepância, os pés de Robert Wadlow, considerados os maiores do mundo, mediam 0,47cm.; ou seja, Chandra Dangi era pouco maior que os pés do mais alto ser humano de todos os tempos. Ao não se levar em conta a imaterialidade do Espírito, tampouco a maleabilidade do perispírito, não se pode conceber tamanha desconformidade. Quando trata das comunicações recebidas acerca de Júpiter, Allan Kardec obtêm informes acerca da estatura física de seus habitantes por Bernard Palissy, que afirma serem estes 'grandes e bem proporcionado. Maiores que os vossos maiores homens.' - não fosse tudo quanto fora exposto, como explicar as dimensões dos seres espirituais? Podemos ainda, obter de outras fontes, registros bastante curiosos acerca do que nós mesmos fomos testemunha. Mas antes que possam ser apreciados, no tocante a natureza do Espírito, o ser principal, as Obras Básicas possuem alguns trechos oportunos para o estudo, e para o entendimento que se busca alcançar pelo presente exposto, vale a pena lê-los:

23a) Qual a natureza íntima do espírito?
Não é fácil analisar o espírito com a vossa linguagem. Para vós, nada é, porque o espírito não é uma coisa palpável; mas, para nós, é alguma coisa. Sabei-o bem, o nada é coisa alguma; o nada não existe.” - O Livro dos Espíritos

82. É correto dizer que os Espíritos são imateriais?
Como se pode definir uma coisa, quando faltam termos de comparação e com uma linguagem ineficiente? Um cego de nascença pode definir a luz? Imaterial não é bem a palavra; incorpóreo seria mais exato, pois deves compreender bem que o Espírito, sendo uma criação, deve ser alguma coisa; é matéria quintenssenciada, porém, sem analogia para vós, e tão etérea que não pode ser percebida pelos vossos sentidos.” - O Livro dos Espíritos

Quanto à natureza intima da alma, essa desconhecemo-la. Quando se diz que a alma é imaterial, deve-se entendê-lo em sentido relativo, não em sentido absoluto, por isso que a imaterialidade absoluta seria o nada. Ora, a alma, ou o Espírito, são alguma coisa. Qualificando-a de imaterial, quer-se dizer que sua essência é de tal modo superior, que nenhuma analogia tem com o que chamamos matéria e que, assim, para nós, ela é imaterial.” - O Livro dos Médiuns, 1º parte, cap.4, item 50

Muitas partes mais apenas resultariam em ratificar que a natureza do Espírito, é esta desconhecida; porém, afirmá-la-emos imaterial a partir do momento que os parâmetros para defini-lo são única e exclusivamente materiais, o que resultaria, sob quaisquer tentativas, todas equivocadas. Isto posto, cabe expor as razões, ou antes os casos que motivaram a existência da presente postagem - certa feita uma garota de nosso convívio, com cerca de 3 anos de idade, passou a ter seu sono perturbado – inquieta, despertava-lhe a agitação e a excitação nos instantes que antecediam o repouso noturno. Nenhum procedimento era possível de fazê-la pacificar. Parecia divertir-se ainda com as tentativas vãs de acalmá-la. Tendo a mediunidade um caráter hereditário1 e já sendo de nosso conhecimento que a mãe desta era, não apenas médium sonambúlica como psicofônica, deitamos a esta fluidos por meio de passes, diante da suspeita que um Espírito respondia pelo alvoroço. E tal qual se imaginara, o desencarnado viera manifestar-se por intermédio desta – tratou-se de Espírito ligado as cousas próprias da infância, que apreciava brincar com a garota, travestindo-se de palhaço; este detalhe, aliás, correspondia às alegações da pequena que afirmava a antevisão do bufão. Dialogamos algum tempo com o Espírito que, infantilizado em demasia, parecia irredutível em sua intenção de divertir-se com a criança encarnada. Desde que é de conhecimento geral o caráter inconstante das crianças, firmamos acordo com o Espírito para que viesse brincar com a menina apenas durante seu repouso, jamais antes, contando que dentro em pouco este partiria em busca de novos parceiros de algazarra. Ainda, perguntamos há quanto se encontrava ali, interagindo com a criança, ao que nos respondeu que achegara-se fazia poucos dias, agitando-se a noite e repousando algum tempo num móvel que havia no aposento desta pela manhã, vez por outra a acompanhando ao ambiente escolar – o móvel a que o Espírito se referia, e o fez com afirmação contundente, era uma réplica de cerca de 30 centímetros de comprimento por 20 centímetros de altura de uma cristaleira, confeccionada pelo bisavô da menina, marceneiro de reconhecida habilidade.

Encantado pelo brinquedo, fez-nos prometer que o penduraríamos, visto que fora confeccionado com tal propósito – promessa jamais cumprida pois, como imaginado, o Espírito dali a tanto partira sem mais que sua presença fosse sentida. A criança, explica-se, podia bem ter os rudimentos da mediunidade àquela idade, mas sua excitação a visão do histrião decorria do seu estado de espírito, já relativamente liberto das amarras do corpo físico nos instantes precedentes ao repouso. Quanto a moradia diminuta do Espírito, poderíamos explicá-lo por duas hipóteses apenas – ou o Espírito, como toda criança mais ou menos deseducada, incorrera numa mentira; ou dissera a verdade, de fato fazendo da réplica sua habitação temporária. Em sendo este o caso, como seria possível? Tudo quanto fora exposto até então pode explicar coerentemente este caso; e o seguinte - por ocasião de haver-se feito necessário proceder a organização de um móvel, um armário de aço de boa dimensão e resistência destinado a conter toda sorte de documentos, decorreu dali a algum tempo, em sessão de experimentação mediúnica manifestar-se um Espírito em patente exaltação emocional, revoltado com a arrumação que empreendemos – explicou: o Espírito fizera do armário de aço sua casa, seu lar; habitava por entre as subdivisões deste. Detalhe: entre as prateleiras, não distam mais que 30 centímetros de altura. Por entre os volumes formados pelo amontoado de obras e documentos, um ser humano, por mais diminuto fosse, não poderia tomar lugar ali. Como explicar o fato? Uma vez mais, tudo já se encontra explicado. Porém, apanhemos dos alfarrábios de reportado pesquisador para constatar-se a natureza do Espírito e do perispírito.

Ernesto Bozzano, abalizado catalogador de fenômenos mediúnicos, espiritualista e pesquisador, em sua obra Materializações de Espíritos em Proporções Minúsculas, transcreve ele trechos do livro de Anne Louise Fletcher, A Morte Sem Véu. Esta autora, em reunião de experimentação mediúnica com a médium Ada Bessenet Toledo, estando ladeada pelo metapsiquista americano Dr. Hereward Carrington, por ocasião desta narra alguns fatos mui pertinentes:

O fenômeno, porém, que mais me surpreendeu, interessando-me grandemente, foi a materialização de uma figura com a altura de 14 polegadas (cerca de 35 centímetros), cercada de longo manto flutuante, a qual se pôs a dançar na mesa entre mim e o Dr. Carrington (estávamos sentados um defronte do outro). (…) era bem uma mulherzinha viva, perfeitamente normal, salvo no que concerne às suas proporções minúsculas.

Noutro caso colhido pelo pesquisador italiano, também catalogado na obra, o comandante da artilharia inglesa C. C. Colley, que fora defensor ferrenho do espiritualismo, narra caso ocorrido consigo em 1898; quando em sessão de experimentação mediúnica em que estavam presentes além de si, o anfitrião proprietário da casa onde se dava esta, sua filha e o médium. Por tais termos ele descreve o ocorrido:

O médium estava mergulhado em profundo transe. De repente, vi sair de seu lado algo parecendo o vapor de uma chaleira fervendo. Esse vapor tomou a forma de um tubo – que chamaremos o condutor da substância – que se alongou até atingir o centro da mesa oval em torno da qual estávamos sentados. Aí ele se transformou numa nuvenzinha de cerca de dois pés de diâmetro (cerca de 60 centímetros) que não tardou a tomar a forma de uma bela boneca da altura de 18 polegadas (cerca de 45 centímetros), que se pôs a passear graciosamente na mesa, como se fosse a miniatura viva de um Espírito. Ela se apresentou diante de cada um de nós com muita naturalidade e, finalmente, sentou-se em meus joelhos. Tive o privilégio de apertar-lhe a mão, que não era maior do que o meu polegar.

Ainda, uma história mais, recolhida da mesma obra de Bozzano, tendo ocorrido ao experimentador neozelandês E. H. Saché, de Auckland, por meio da médium Lily Hope, na década de 1920 – recebeu a esta em sua residência com o fito de realizar uma série de sessões experimentais, dentre as quais colheu-se o extrato abaixo, onde Saché anota:

Houve um curto intervalo de repouso, depois do qual vimos aparecer, no meio de nós, uma figurinha com a altura de 30 polegadas (76 centímetros aproximadamente), a qual, sorrindo, nos dirigiu a palavra. Ela diz ser Sunrise, que deixara, por alguns instantes, o controle da médium a fim de mostrar-se a nós. Perguntamos-lhe por que se manifestava em dimensões tão reduzidas e ela respondeu que assim o fizera para não gastar muita força. Tendo lhe pedido que permanecesse entre nós mais algum tempo do que as outras manifestações, sorriu, fez um sinal negativo com a mãozinha e desapareceu.

É de causar, portanto, algum espanto que Espíritos possam tomar dimensões minúsculas, mesmo ao manifestarem-se visíveis e tangíveis em sessões de experimentação mediúnica? Não seriam as visões de gnomos, elfos, goblins, demônios, gigantes, animais ou feras míticas, senão modificações naturais que podem sofrer o perispírito? Não seriam as narrativas mediúnicas que atestam os estigmas e as mutilações perispirituais um caso flagrante de interpretação literal do que, de fato, é aparente? Não seria a falta de explicação dos autores espirituais para isto um inequívoco sinal de ignorância, ou canalhice com o fito de confundir? O perispírito, tomando a forma e a dimensão que bem entende o Espírito, não carece do auxílio de terceiros para realizar o que naturalmente ocorre, sendo de rir-se quem leva em conta narrativas que descrevem processos fluídicos complexos no sentido de miniaturizar o ser para a reencarnação. Quão maior for o conhecimento do perispírito como prescrito pela Doutrina dos Espíritos, maiores subsídios terá o estudioso para chegar a uma conclusão por seus próprios meios. Ao estudo, portanto.
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1_ver questão 451 de O Livro dos Espíritos