sexta-feira, 1 de maio de 2020

Edgard Armond à Luz dos Fatos


1. Ocultismo, esoterismo e teosofia
Passar ao escrutínio da razão autores que falaram, conferenciaram, escreveram e divulgaram suas próprias ideias como se espíritas fossem não é tarefa fácil, tampouco recompensadora, ao menos do ponto de vista espiritual - os ataques fluídicos são exponencialmente maiores, quão mais divulgados forem os resultados deste processo. Ainda que os benfeitores espirituais colaborem, neste mundo materialista os seus esforços parecem insípidos, ainda que não sejam; mas, se os efeitos deletérios do pensamento daqueles que tiveram sua fé sacudida em decorrência de um estudo aprofundado, cotejando seus autores de culto as evidências da realidade, ainda mais violentos lhes são as agonias intestinas ocasionadas pela acareação com as Obras Básicas - pois, todo aquele que se considera espírita, crê ter um dilatado conhecimento dos escritos de Allan Kardec. Quando não o tem, dizem-no ultrapassado, obsoleto, carente de revisão. Basicamente, o argumento esclerosado e loroteiro de sempre (ver artigo aqui publicado em 10 de agosto de 2019).

Todavia, ao levar a efeito tais exames e investigações, nenhum estudioso está em busca de qualquer espécie de recompensa, ou assim se cogita. Que todos se entendessem acerca do Espiritismo numa simples conversa já lhe seria um avanço positivamente promissor. Menos se pode crer que desejem vir denegrir a dignidade humana de tais autores, muitos dos quais apenas desorientados e instruídos de modo equivocado acerca do Espiritismo. Mas daqueles que fizeram do Espiritismo sua profissão, é ao menos de bom alvitre desconfiar de suas intenções, de suas palavras, de seus artigos e de seus livros. Julgam-se os Espíritos, como os homens, pela sua linguagem. Tem-se o presente blog exposto esforços em artigos referentes a erraticidade, princípio do Espiritismo, e cujo qual fartam teses, conceitos, doutrinas e ideias anômalas, que qualquer estudioso da Doutrina não deve deixar sem análises e conclusões. Mas não só. Concepções outras, trazidas de culturas, religiões e doutrinas estranhas aos postulados espíritas vicejam entre as gentes, a guisa de Espiritismo. De modo insidioso, por meio de diversos divulgadores e pretensos estudiosos, ideias bizarras ganham corpo e posteridade, estando presentes no ilegítimo movimento espírita brasileiro há décadas.

Um dos sistemas de ideias que há mais tempo se insinuam junto ao Espiritismo é o ocultismo; este é tido como uma disciplina das cousas misteriosas, sobrenaturais e ocultas, que não são explicáveis por meio de teses que contemplem leis naturais - não será preciso notar o quão antagônico é frente a Doutrina dos Espíritos. O ocultismo divide a natureza, ou antes, os saberes acerca da natureza em exotéricos e esotéricos; o primeiro refere-se a conhecimentos de caráter público, disponível a todos irrestritamente, enquanto a segunda trata de conhecimentos ocultos, próprios a círculos estritos de iniciados. Três segmentos, ou categorias subdividem o campo de estudo e atuação do ocultismo - o ocultismo filosófico, que aborda a moral, a metafísica e a teologia; o ocultismo prático, que trata do magnetismo, hipnotismo, alquimia, astrologia, cartomancia, quiromancia, grafologia, frenologia, bibliomancia, hialoscopia, autoscopia e magia; e, por fim, o ocultismo esotérico, que estuda os sistemas de pensamento dos filósofos antigos, em especial aqueles cujas ideias tem feições secretas. Determinadas doutrinas, culturas ou religiões preconizam interpretações de seus postulados ao espectro ocultista, como por exemplo o hinduísmo e demais religiões e seitas indianas, o budismo zen, o islamismo, o catolicismo, a maçonaria, a rosacruz, a kabala hebraica, a eubiose e a teosofia. A adesão ao pensamento ocultista traduz-se no acolhimento de tradições, ritos e rituais, símbolos, gestos, grandes e pequenos mistérios, misticismos, magias, orações e rezas. No entanto, se este amontoado de conceitos e práticas divinatórias que nada tem que ver com o Espiritismo, a este infiltrou-se por conta de certos autores, - dentre os quais Edgard Armond, que lhe dedicou especial expressão, ao qual abordaremos seguintemente - alguma influência exerceram os escritos de Allan Kardec sobre os autores ocultistas?

Stanislas de Guaita, obscura figura do século XIX, hoje um completo desconhecido a exceção para os iniciados do ocultismo, fora um dos expoentes máximos de tal corrente de pensamento, e em sua obra maior, No Umbral do Mistério, registra-se o seguinte:

O Espiritismo é algo que, por si só, constitui uma aberração e uma loucura. (...) Há no homem, segundo a Magia, três elementos radicais: a Alma (elemento espiritual), o Corpo (elemento material) e o Perispírito ou Mediador (elemento fluídico). (…) A alma espiritual seria , aliás, inábil para se fazer obedecer pelo corpo material sem a interferência de um Mediador Plástico procedente de ambos (…) Ora, uma vez que este Mediador Plástico, exercido convencionalmente, segundo sua própria vontade, pode coagular ou dissolver, projetar ao longe ou atrair uma porção do Fluido Universal, ele possibilita ao adepto influenciar toda a massa de Luz Astral, nela criando correntes e produzindo, enfim, ainda que à distância, fenômenos surpreendentes que a ignorância comum qualifica como milagres ou perversas artimanhas do diabo, quando não acha ainda mais simples negá-los obstinadamente.

Tal interessante passagem, que expõe de modo relativamente preciso o perispírito, propriedades e interação deste com o fluido cósmico ambiente, revela um ponto de contato insuspeito com a Doutrina dos Espíritos, embora o autor impute tais formulações a magia, seja lá em que alfarrábios ancestrais tenha compulsado ele para os adquirir. Stanislas de Guaita, no entanto, é apenas um dos indivíduos sem fim que desde o medievo ao século XVIII, passando pelas escolas gnósticas do Renascimento, fomentaram o ocultismo e demais doutrinas esotéricas - ao seu tempo, coetâneos de Allan Kardec, certos nomes e personagens fizeram a história desta vertente de pensamento, instando fabulações, lendas e mitos na mentalidade popular; nomes como Gérard Encausse, Martinez de Pasqually, Louis-Claude de Saint-Martin, Jean Baptiste Willermoz, Eliphas Levi, Conde de Cagliostro, Conde de Saint Germain, entre muitos outros evocavam respeito e reservas em igual medida. Acaso se possa apontar um ponto culminante na efervescência causada pela presença e inserção do pensamento ocultista e esotérico no século XIX, este seria a fundação da Sociedade Teosófica Internacional, fato que se deu em Nova York, por iniciativa de Helena Blavatsky e Henry S. Olcott, em 1875.

Helena Petrovna Blavatsky nasceu na Ucrânia em 1831 e, embora haja tido uma infância enfermiça, fora uma criança manifestamente rebelde, obstinada e imaginativa. Com 17 anos se casa, mas foge do marido em plena lua-de-mel, sem haver consumado o matrimônio; seu pai a ampara e facilita sua fuga, permitindo-a seguir a moda dos filhos das elites europeias de antanho, peregrinando por países considerados exóticos, colhendo experiências as mais fantásticas e, por certo exageradas, dado o seu pendor pessoal para a mitificação. Mulher independente, culta e de caráter firme, Helena se dizia sensitiva, iniciando-se no esoterismo por intermédio de um mestre muçulmano que conhecera no Egito. A Sociedade Teosófica Internacional fundada por ela, teve sua sede transferida para a Índia, primeiramente em Mumbai, e depois para Adyar, ao sul de Madras, onde se fixaria em definitivo. Suas obras interligam o conhecimento religioso mistico asiático ao gnosticismo e outras correntes ocultistas ocidentais; entre seus escritos destacam-se A Doutrina Secreta, Ísis sem Véu e A Voz do Silêncio. Entre personagens de destaque que foram membros da Sociedade Teosófica encontra-se Charles Leadbeater, Alfred Sinnett, George Mead, Annie Besant, Jiddu Krishnamurti e Curuppumullage Jinarajadasa.

2. Comandante
A biografia de Edgard Armond registra seu nascimento à 14 de junho de 1894 na cidade paulista de Guaratinguetá, localizada no Vale do Paraíba. Aos 21 anos, ingressou nas forças públicas do Estado de São Paulo, onde viria a receber o título de Comandante, patente pela qual ficaria conhecido junto ao movimento espírita nacional; em 1938 deixa a vida militar em decorrência de haver fraturado os dois joelhos em um acidente automobilístico. A este tempo passa a considerar-se espírita e dedica-se, então a tenaz atuação, tendo participado da fundação da FEESP (Federação Espírita do Estado de São Paulo), e de seu órgão de imprensa, o periódico O Semeador, além de fundar a USE (União das Sociedades Espíritas). Na década de 1970, disside da FEESP, ao lado dos dirigentes de vários centros espíritas, fundando a Aliança Espírita Evangélica (AEE), retomando a Escola de Aprendizes do Evangelho e a Fraternidade dos Discípulos de Jesus, nos moldes em que existiram na FEESP na década de 1950, implementando aí a Reforma Íntima como meio de aperfeiçoamento moral para a vivência do cristianismo. É autor de mais de cinquenta livros, mas reconhecido principalmente por Os Exilados de Capela, O Redentor, e Passes e Radiações. Faleceu em 1982, aos 88 anos. Interessa, porém, apontar que além de haver sido maçom, ao longo da década de 1920, Armond travou contato com líderes esotéricos e ocultistas, como registrado nestas duas passagens facilmente encontráveis em sites a respeito do autor - “(...) fez contatos pessoais com líderes esotéricos, ocultistas e espiritualistas, entre outros Krishanmurti, Krumm-Heller, Jinarajadasa (...)” - “(...) manteve contato com líderes esotéricos, ocultistas e espiritualistas, entre os quais Krishanmurti, Krumm-Heller, Jinarajadasa (...)

Quem foram tais três figuras? Henrich Arnold Krumm-Heller nasceu na Alemanha em 1879, tendo migrado ainda jovem para o México, onde tornou-se militar, empreendendo missões no Chile, Peru e Amazônia. Praticou curandeirismo, adotando o pseudônimo de Mestre Huiracocha. Em 1895 estuda metodicamente o ocultismo e o gnosticismo, tomando contato com as obras de Madame Blavatsky, Louis Claude de Saint-Martin, Eliphas Levi e Gérard Encausse, em cujos cursos vem se inscrever em 1906, em Paris; aí passa a integrar a maçonaria e a estudar medicina. Por toda a América Latina funda lojas Rosacrucianas, inclusive no Brasil. Jiddu Krishnamurti, nascido na Índia em 1895, fora adotado na infância por Annie Besant, então presidente da Sociedade Teosófica. Ainda aí fora declarado Mestre do Mundo, cumprindo uma profecia existente no seio dos teósofos; com o fito de preparar o planeta para sua chegada, fundou-se a Ordem da Estrela do Oriente, e o pequeno indiano fora empossado seu líder. Décadas após, ele dissolve tal agremiação renunciando o papel que lhe fora imputado, restituindo os bens, as propriedades e o dinheiro que lhe haviam sido doados para desempenhar tal tarefa. Entretanto, pelos quase sessenta anos posteriores, peregrinou pelo mundo divulgando suas ideias acerca do autoconhecimento para uma mudança radical da humanidade, de certo modo desempenhando uma tarefa próxima a qual lhe houveram sujeitado. Curuppumullage Jinarajadasa, nasceu em 1875 no Sri-Lanka; foi aluno de Charles Leadbeater, que o tutelou quando retornou a Inglaterra, o que permitiu ao pequeno cingalês uma formação privilegiada; sua biografia registra um poliglota que além de dominar seu idioma de nascença, era proficiente em inglês, italiano, francês, havendo lecionado em espanhol e português quando esteve na América do Sul, ocasião em que teria fundado filiais da Sociedade Teosófica. Deixara mais de cinquenta livros e cerca de mil e seiscentos artigos; fora maçom e comaçom, além de haver sido o quarto presidente da Sociedade Teosófica.

Assinalado que tal tríade de ocultistas haja, em dado momento de suas vidas, visitado a América do Sul, não se duvida que, de fato, possam ter travado relação com o Comandante Edgard Armond, incidindo estes, decisivamente sobre seu pensamento. Ainda que tais contatos não hajam ocorrido factualmente, senão por meio de suas obras, atesta-se o influxo com certa facilidade, dada a fartura de dados sobejantes nos livros que compôs. Isto posto, compulsaremos alguns dentre estes, os mais afamados e significativos a fim de verificar a tese aqui defendida. Mas o volume pelo qual o autor é frequentemente rememorado, Os Exilados de Capela, deixaremos para tecer laudas com o ensejo propício e a gana adequada ao montante de labor exigido, bem como reservaremos a futuro artigo tratar da Reforma Íntima, uma invenção armondiana que, infelizmente, disseminou-se ao ponto de tornar-se o nirvana almejado a todo espírita; ninguém parece ter notado que uma reforma faz-se em obra acabada, ou próxima a isto - o Espírito humano encarnado na Terra está bastante distante de encontrar o potencial máximo manifesto por sua natureza, com o agravante de se especular para a tênue possibilidade de, um dia, encontrar termo o progresso espiritual. Mas aqui, já é questão para o futuro - por hora basta examinar alguns pontos aberrantes de suas mais célebres obras, e quão foram incisivas as ideias esotéricas e teosóficas sobre seu pensamento.

3. Passes e Radiações
Lançado em meados do século passado, foi amplamente adotado, em grande parte pela escassez de obras que tratavam da fluidoterapia - infelizmente impingiu aqueles que seguiram-lhe as lições o ridículo dos passes padronizados, um misto de técnicas outrora utilizadas pelos magnetizadores e mesmerizadores que precederam ao Espiritismo, associada a teoria hindú dos chacras. O desassossego advindo da observância ao gestual, cores e tempo, aliado ao suposto conhecimento de anatomia e fisiologia necessários a prática de tal metodologia obstaram que se conhecesse a teoria espírita acerca dos fluidos, e sua aplicação por meio dos passes. Vejamos alguns trechos significativos para o artigo presente, acompanhados de oportunos e necessários comentários:

Cada homem, cada ser vivo é um centro atrativo dessa força (magnetismo animal), uma usina capaz de proceder à sua captação, armazenamento e distribuição aos doentes, bastando para isso o desejo sincero e humilde de exercer esse dignificante sacerdócio de caridade evangélica, segundo os ensinamentos d'Aquele que por todos se sacrificou, para salvá-los.” - Introdução a 1º edição da Passes e Radiações (1950) _ bastasse apenas o desejo e todo homem bem intencionado curaria qual Jesus em sua melhor forma, decretando a falência dos sistemas de saúde do mundo, e o fim das profissões médicas e terapêuticas; é preciso mais para curar de modo proficiente; claro, exclusos aqui os médiuns curadores, os quais são objeto de estudo em O Livro dos Médiuns. No mais, o que se destaca é a sentença segundo a qual Jesus sacrificou-se para salvar a humanidade, demonstrando que as correntes de pensamento ocultistas as quais se expôs Armond possuem bases bem estabelecidas no cristianismo místico do medievo, em nada aparentado ao Espiritismo. Porém, que se note, a Doutrina dos Espíritos não concebe que Jesus haja se sacrificado para salvar quem quer que seja, seja lá de que perigos, questão a que mais abaixo será tangida em profundidade.

“(o corpo físico) É formado de matéria densa (energia condensada a vários graus), apresentando uma forma tangível, modelada sobre um arcabouço resistente e flexível rodeado, no etéreo, de uma aura característica, variável para cada indivíduo, visível no plano hiperfísico, e comumente limitada a uns poucos centímetros a partir da superfície do corpo.” - Primeira Parte Teórica 1 O Santuário do Espírito Encarnado _  toda a influência teosófica se registra nestas poucas linhas. O que ele aponta no trecho refere-se a atmosfera fluídica individual, que Allan Kardec apontou como a irradiação do perispírito? O arcabouço sobre o qual o corpo físico é modelado é o perispírito, este mesmo que no etéreo é rodeado por uma aura? E o que é o etéreo e o plano hiperfísico? O linguajar empregado é grotesco, maculando a feliz simplicidade do Espiritismo, levando confusão ao leitor. Mas, o que mais fere aos olhos do estudioso é a afirmação de a matéria constitutiva do corpo físico ser composta a partir de energia condensada - isto assim, irresponsavelmente enunciado, é contrário ao Espiritismo, pois não atesta o Elemento Material como princípio doutrinário; e repisa o erro de sempre, demonstrando não saber, também Armond, a diferença entre energia e matéria, de um ponto de vista exclusivamente espírita. Acerca do que a Física trata, buscaremos em futuro artigo abordar dada a necessidade da temática e da enorme confusão existente.

“(o Sistema Respiratório) Absorve da atmosfera não somente o oxigênio necessário, como também o fluido vital, que fornece ao organismo a indispensável energia.” - Primeira Parte Teórica 1 O Santuário do Espírito Encarnado _  afirmar que a absorção de fluido vital se dá por intermédio de um dos sistemas do corpo humano seria considerar a este tão físico quanto os gases componentes da atmosfera, o que não pode ser. O fluido vital não sendo mais que uma transformação do perispírito, e este do fluido cósmico universal, com ele interage por toda a extensão do ser, não mais pelos pés que através da cabeça. Nota-se contudo, no seguimento deste trecho, que o Comandante possui uma visão particular da constituição do perispírito, o que justifica sua asserção.

As glândulas hipófise e pineal são pontos sensíveis das intervenções espirituais na vida anímica do homem encarnado, sobretudo no desenvolvimento de suas faculdades psíquicas. A glândula pineal possui uma aura, uma concreção dourada em torno, que apresenta os setes matizes das cores básicas. Esta aura não existe na criança antes dos sete anos (normalmente), nem nos idosos com arteriosclerose intensa e nos deficientes mentais, o que prova que essa glândula esta ligada à vida mental dos homens. É o órgão principal da espiritualidade e da consciência das coisas tanto externas quanto internas.” - Primeira Parte Teórica 1 O Santuário do Espírito Encarnado _ e se perpetua o mito, porfiando a mediunidade incompreendida como o processo fisiológico que é, e não como um dom radicado num órgão; ou não será exatamente isto que afirma Armond aqui? Tal tese tem suas origens nas culturas do Oriente, ao gosto do autor, em que o terceiro olho, ou a terceira visão, identificada como a visão espiritual é imageticamente representada por um sacerdote com um olho do centro da fronte. Para o hinduísmo, uma das fontes da Teosofia, o terceiro olho é um Ajna, ou chacra localizado a altura da testa, estando ligado a intuição e a percepções sutis da consciência. Helena Blavatsky em seu livro A Doutrina Secreta, por exemplo, registra acerca da glândula pineal o seguinte: “Também chamada de Terceiro Olho. (...) É um órgão misterioso que, em outros tempos, desempenhou papel importantíssimo na economia humana. Durante a terceira Raça e no início da quarta, existiu o Terceiro Olho, órgão principal da espiritualidade no cérebro humano, local de gênio, o 'Sésamo' mágico, que, pronunciado pela mente purificada do místico, abre todas as vias da verdade para aquele que sabe usá-lo. Um Kalpa1 depois, devido ao gradual desaparecimento da espiritualidade e do aumento da materialidade humanas, substituída a natureza espiritual pela física, o Terceiro Olho foi se 'petrificando', atrofiando-se gradualmente, começou a perder suas faculdades e a visão espiritual tornou-se obscurecida. O 'Olho Divino' já não existe; está morto, deixou de funcionar. Porém, deixou atrás de si um testemunho de sua existência e este testemunho é a glândula pineal que, com os novos progressos da evolução, voltará a entrar em plena atividade.” - parece familiar quanto a tudo que o estudioso do Espiritismo veio encontrar acerca deste organelo fincado no cérebro? Pois esta similaridade não é uma coincidência fortuita. Apenas cinco anos antes, o Espírito pseudo-sábio André Luiz viera trazer Missionários da Luz ao mundo, tratando neste da glândula pineal por tais mesmos paradigmas; e pouco mais de cinco anos após Passes e Radiações, Lobsang Rampa encanta o mundo ao lançar A Terceira Visão - ao que parece, esta temática estava na moda em meados do século passado. Mas, que não se engane o aprendiz, pois a procedência é a mesma para todos, a ancestral cultura oriental dos vedas do hinduísmo. Ou seja, nada tem que ver com o Espiritismo.

O corpo físico não gera o fluido vital ou a força promotora da atividade orgânica, entretanto recebe-o dos centros de força do perispírito e absorve-o do meio em que vive por intermédio da pele, dos alimentos e da respiração. Em todos os casos o sistema nervoso é o veículo de recebimento dessas forças e, além de armazená-las em órgãos apropriados (plexos e centros de força), finalmente as distribui oportunamente a todos os órgãos internos, (...)” - Primeira Parte Teórica 1 O Santuário do Espírito Encarnado _ surge então, pela primeira vez a menção a plexos e centros de força. Novamente e uma vez mais, é atribuir uma materialidade ao perispírito que este não possui, proceder que fora já apontado de outros autores, especificamente do Espírito André Luiz que, outrossim, impôs um paradigma materialista ao corpo fluídico, conferindo a este um aspecto orgânico do qual é destituído. Plexos são entrelaçamentos de nervos do sistema nervoso periférico e autônomo, e para os aderentes, correspondem ao centros de força presentes no perispírito - uma total bobagem; não para Armond que, no início do capítulo seguinte emenda:

No perispírito, o sistema nervoso liga-se através dos plexos e gânglios, a uma série de centros de força, denominados chacras na literatura oriental, sobre os quais devemos aqui dizer mais algumas palavras, tendo em vista sua importância para o trabalho dos passes, apesar de não terem sido citados por Kardec na Codificação, por conveniência de programação.” - Primeira Parte Teórica 2 Centros de Força _ é interessante e desanimador testemunhar que certas informações surgem a partir das conveniências as mais oportunas; então Allan Kardec nada registrou nas obras da Codificação acerca dos chacras e dos centros de força por conveniência de programação? Ora, pois que o sr. Armond encontra-se na obrigação de provar tal afirmação; e mais, o dever de por a vista de todos esta programação, sim, pois tal afirmação apenas leva a concluir que o ex-militar conhece os desígnios misteriosos atribuídos aí aos Espíritos da Codificação. Para olhos treinados, as entrelinhas deixam entrever a verdade - afirma-se aqui que o Espiritismo é uma doutrina inconclusa, e sob tal farsa toda sorte de invencionices e interpolações são aceitas, buscando embasar todos os mais díspares autores e suas teses, ideias e conceitos. O restante do capítulo é uma salada tão indigesta que separar seus diversos elementos para exame resultaria em triplicar-lhe a extensão original, labor dispensado, uma vez que o nível de obscurantismo arremete a níveis abismais. Convém, todavia resumir o que se segue ao fato de o autor enumerar os chacras, classificá-los e explicar-lhes a ação - tudo eivado por um vocabulário abominável que transtorna em asco e resulta em esgotamento; tudo muito distante da limpidez da linguagem de Allan Kardec.

Armond não se entende com o uso equivocado do termo energia, repercutindo a cada passagem esse erro crasso que magoa os sentidos tanto quanto a inteligência. Em semelhante medida demonstra um profundo desconhecimento do fluido e das suas inumeráveis transformações, reiterando uma série de expedientes eminentemente materiais com o fim de manipulá-los - é o mesmo que afirmar que velas acesas atraem Espíritos; não são exercícios de respiração, ou qualquer dos sistemas ou órgãos do corpo físico que capacitarão alguém a manipular fluidos em benefício próprio, pois é o pensamento, a qualidade deste, que determinará a absorção de fluidos salutares, tanto ou mais em relação a eficácia que se almeja por meio da fluidoterapia. O capítulo 8 da obra, intitulado Estudo dos Fluidos é uma afronta ao Espiritismo, e evidencia os limites cognitivos de Armond. O restante da obra é uma tortura que o leitor busca antever o fim urgentemente - uma série de conceitos os mais estapafúrdios que, por certo, catalogam ideias absolutamente equivocadas acerca do fluido, hauridos de toda sorte de fontes pregressas dos mais diversos experimentadores e pesquisadores ao longo da história, o que poderia resultar numa coleção coesa e historiograficamente bem urdida. O que se encontra, no entanto, é uma espécie de almanaque místico de algum mago ou alquimista medieval. Não é apenas afrontoso que indivíduos que se afirmaram e afirmam espíritas hajam adotado tal caderno de insanidades para vir aplicar a fluidoterapia, é ainda patético que alguém haja seguido os caprichos do autor, que na qualidade de espírita é um eminente orientalista e teósofo.

Não resta dúvida, todavia, que Edgard Armond era cônscio do carisma e penetração de sua obra, ao que ele expressou na Introdução a 2º edição desta, tratando de sua repercussão: “(...); como também de disciplinar e unificar as práticas doutrinarias da Casa, sobretudo os passes, que o arbítrio desordenado e as infiltrações de correntes estranhas levavam muitas vezes ao ridículo, ao descrédito, atentando negativamente contra a seriedade e a eficiência científica deste precioso elemento auxiliar de reequilíbrio material e psíquico.

4. O Redentor
A começar pelo título da obra, o termo redentor refere-se a Jesus, e embora os espíritas possam lhe atribuir significados próprios, a acepção original afirma este como o salvador da humanidade, o que veio sacrificar-se para a todos salvar. Aí o termo já não pode ser aceito diante da Doutrina dos Espíritos, afinal algo apenas pode ser salvo diante de uma potencial perda - ora, o Espiritismo não aceitando um modelo cósmico senão progressivo para o Espírito, não há como sustentar o conceito da perdição presente no cristianismo. Nenhum Espírito perdendo-se, nenhuma salvação se faz necessária, menos ainda que alguém venha purgar os pecados da humanidade como um cordeiro em holocausto. Esta parece ser uma escolha para título que reflete a visão pessoal de Armond acerca do papel de Jesus, como pudemos constatar anteriormente, na diminuta passagem da introdução de seu livro Passes e Radiações. A este ele vem afirmar, na introdução de O Redentor:

A tarefa messiânica era sanear a Terra de suas iniquidades, oferecer a humanidade diretrizes espirituais mais perfeitas, definitivas, redimir os homens e encaminhá-los para Seu reino divino de luzes e de amor e foi cumprida em todos os sentidos, (...)” _ para o Espiritismo, todavia, a missão de Jesus era mais prosaica, e se a sua mensagem ganhou o mundo deveu-se a uma série de fatores alheios a sua performance, ou mesmo a sua vontade; mas não seria de supor que ele desconhecesse o que resultaria sua passagem pelos encarnados àquele tempo, a tanto que afiançou o surgimento do Espiritismo (o consolador prometido). Tratando em O Evangelho Segundo o Espiritismo de situar o leitor quanto a alguns caracteres do tempo de Jesus, Allan Kardec trata dos Fariseus, e acerca destes frente a Jesus concluiu:

Jesus, que prezava, sobretudo, a simplicidade e as qualidades da alma, que, na lei, preferia o espírito que vivifica à letra que mata, se aplicou durante toda a sua missão, a lhes desmascarar a hipocrisia, pelo que tinha neles encaniçados inimigos. Essa a razão por que se ligaram aos príncipes dos sacerdotes para amotinar contra Ele o povo e eliminá-lo.” _ ao lado dos Saduceus, os Fariseus constituíam uma poderosa força materialista no seio do povo hebreu, e contra eles Jesus teve os mais marcantes embates registrados nas páginas dos Evangelhos. Em mensagem recebida espontaneamente em sede da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas a 2 de fevereiro de 1868, sem que Allan Kardec lhe tenha composto qualquer ressalva ou complemento, um Espírito resumiu a questão assim: “Moisés é o tempo passado; o Cristo, o tempo presente; o Messias a vir, que é o amanhã, ainda não apareceu... Moisés tinha que combater a idolatria; o Cristo, os fariseus; o Messias a vir terá também os seus adversários: a incredulidade, o cepticismo, o materialismo, o ateísmo e todos os vícios que acabrunham o gênero humano...” _ ora, como se constata, sua missão era o enfrentamento aberto às ideias contrárias ao espiritualismo que àquele tempo contaminavam o povo da Palestina. Não há cousa alguma, sequer meramente análogo a fazer de si uma metáfora viva do holocausto empreendido pelas gentes no Templo de Jerusalém; menos ainda que ele buscasse a cada palavra dita e ação empreendida tanger a totalidade dos homens de todos os tempos, embora, é preciso ressaltar, ele certamente tinha plena presciência do seu legado. Imaginar que apenas, e tão somente por meio de Jesus se alcançará um progresso de monta é desprezar que suas lições já não se encontrem presentes num sem número de culturas e correntes filosóficas e religiosas pelos povos da Terra. A defesa de tais ideias em O Redentor apenas revela os pendores íntimos do autor, mesmo que para tanto sustente algo contrário a Doutrina dos Espíritos. Acerca disto, a propósito, tem-se curiosa passagem ainda neste seguimento da obra, que vale um exame:

E se nos voltarmos para as obras de caráter mediúnico, da mesma forma encontraremos inúmeras divergências, de forma e de fundo, que não levam a maiores certezas. Têm-se, então, a impressão de que ainda não chegou a época de ser o assunto esclarecido pelos Instrutores Espirituais que, conquanto se mostrem muitas vezes até mesmo prolixos na exposição de assuntos doutrinários ou filosóficos, não trazem maiores esclarecimentos a respeito da parte histórica da vida do Divino Messias.” _ ao que, mais adiante, na lista de obras que afirma haver consultado para compor seu livro, registra sucintamente 'diversas obras mediúnicas'. Ora, inicialmente, não será por intermédio dos Espíritos que caberá preencher as lacunas quanto aos aspectos historiográficos da vida de Jesus de Nazaré, ou de qualquer figura ou acontecimento passado; os que assim almejam se expõem as narrativas disparatadas de Espíritos enganadores e pseudo-sábios. Em seguimento, é necessário se questionar se, diante das divergências das obras mediúnicas, que critérios Edgard Armond utilizou na escolha daquelas que consultou para a composição do texto. Convenientemente ele os sonega ao leitor, cabendo a este a confiança cega em sua metodologia, seja qual for. Não é uma atitude muito espírita insuflar tal juízo ao legente.

Edgard Armond dedica todo um capítulo a tratar da seita dos Essênios, e em apenas um único trecho comete dois equívocos frente a Codificação: “É sabido que João Batista era essênio, como essênio eram José de Arimatéia, Nicodemo, a família de Jesus e inúmeros outros que na vida do Mestre desempenharam papéis relevantes, como também o próprio Jesus que conviveu com essa seita, frequentando assiduamente seus mosteiros, enterrados nas montanhas palestinas, onde sempre encontrava ambiente espiritualizado e puro, apto a lhe fornecer as energias de que carecia nos primeiros tempos da preparação para o desempenho de sua transcendente missão.” - já Allan Kardec vem esclarecer em O Evangelho Segundo o Espiritismo acerca dos essênios: “Pelo gênero de vida que levavam, assemelhavam-se muito aos primeiros cristãos, e os princípios da moral que professavam induziram muitas pessoas a supor que Jesus, antes de dar começo à sua missão pública, lhes pertencera à comunidade. É certo que ele há de tê-la conhecido, mas nada prova que se lhe houvesse filiado, sendo, pois, hipotético tudo quanto a esse respeito se escreveu” _ e se escreveria. Afirmando que as pessoas em derredor de Jesus eram essênios, o Comandante cai em outra falha; o mestre lionês vem em socorro: “Pelo que concerne a seus irmãos, sabe-se que não o estimavam. Espíritos pouco adiantados, não lhe compreendiam a missão: tinham por excêntrico o seu proceder e seus ensinamentos não os tocavam, tanto que nenhum deles o seguiu como discípulo. Dir-se-ia mesmo que partilhavam, até certo ponto, das prevenções de seus inimigos. O que é fato, em suma, é que o acolhiam mais como um estranho do que como um irmão, quando aparecia à família. João diz, positivamente (7:5), 'que eles não lhe davam crédito'. Quanto à sua mãe, ninguém ousaria contestar a ternura que lhe dedicava. Deve-se, entretanto, convir igualmente em que também ela não fazia ideia muito exata da missão do filho, pois não se vê que lhe tenha seguido os ensinos, nem dado testemunho dele, como fez João Batista.

Dentre os livros que Edgard Armond indica como bibliografia utilizada para a composição de O Redentor, nenhum deles é espírita, nenhum deles compõe as Obras Básicas ou qualquer outro dentre os escritos de Allan Kardec - eis pois, porque resulta seu tomo num equívoco, dos quais qualquer leitor de ânimo há de extrair outras tantas passagens inexatas, hipotéticas e anômalas. Talvez, a que mais clame seja sua defesa da existência de um Cristo Planetário. No capitulo 17 da obra, que trata do batismo de Jesus por João Baptista, Armond explica: “Seja como for, percebe-se que Jesus, naquele instante - o Filho do Homem, isto é, o que evoluíra pelas encarnações humanas, o Governador Planetário, em perfeita sintonia com o Cristo Planetário - reintegrou-se em todo o poder do Espírito Crístico, da esfera dos Amadores, tornando-se integralmente apto para a realização de sua sacrificial tarefa na Terra.” _ preciso é esclarecer que a Teosofia e outras tantas correntes das práticas ocultistas possuem uma intrincada, para não dizer hermética, base teórica que considera uma hierarquia de comando cósmica extremamente complexa. Disto nasce a ideia de uma 'faixa crística' onde, supostamente se localizariam os Cristos, que respondem a Cristos Planetários, agentes inteligentes enviados diretamente de Deus, que responderiam pela criação de universos. O interessante é notar a ideia presente, por exemplo, em A Doutrina Secreta, de Blavatsky, onde ela expressa o seguinte em dada passagem: “Chame-o por qualquer nome, mas deixe apenas que os infelizes cristãos saibam que o verdadeiro Cristo de todo cristão é Vach, a 'Voz mística', enquanto o homem Jeshu foi apenas um mortal como qualquer um de nós, um adepto mais por sua pureza inerente e sua ignorância do verdadeiro Mal que pelo que ele tenha aprendido com seus Rabinos iniciados e os Hierofantes e sacerdotes egípcios, já (àquela época) em rápida degeneração.” _ nem queira entender o leitor, porque isto é Teosofia, e não Espiritismo. Esta ideia do Cristo Planetário, alias, está também presente na obra do Espírito pseudo-sábio Ramatis, que teve por primeiro médium Hercílio Maes, que até a publicação e repercussão positiva de seus livros se dizia teósofo.

No capítulo 4 intitulado Controvérsias Doutrinárias, o autor tece considerações a vários temas, dentre os quais a natureza do corpo de Jesus; para tanto, erige uma série de perguntas e respostas, das quais se destaca uma em particular: “P_Mas como, sendo de carne comum, poderia desmaterializar-se, como fez várias vezes e de forma tão natural e perfeita, como consta dos Evangelhos? R_Porque tinha um corpo de carne, sem dúvida, porém de consistência diferente, de densidade muito menor, de matéria mais pura, de vibração mais alta, adequada a conter um Espírito de Sua elevada hierarquia; corpo, a seu turno, gerado por um vaso físico devidamente preparado e selecionado anteriormente ao nascimento, de vibração e pureza que comportasse Sua permanência em nosso plano grosseiro e impuro.” _ não é afirmar o mesmo que Roustaing, por outras palavras? E incide em novo erro, proclamando a superioridade mariana, expressa na pureza da matéria que comporia seu corpo físico. Acima já transcreveu-se passagem de O Evangelho Segundo o Espiritismo acerca do proceder de Maria a denunciar-lhe o progresso espiritual, não tão excelso quanto pintam alguns espíritas que não abandonaram o ranço católico.

A narrativa de Armond é hábil em buscar subterfúgios para não adentrar completamente nem as palavras, tampouco as ações de Jesus, tendo as primeiras sido tratadas em O Evangelho Segundo o Espiritismo, e as últimas em A Gênese. Mas, ocasionalmente se lhe escapa ao escrutínio da revisão um ou outro ponto que o expõe; por exemplo, no capítulo 27, sob o título Outros Lugares, o leitor encontra: “Diz o Evangelho que efetuou também muitos 'milagres' (...) e duas multiplicações de pães, que o Espiritismo também pode explicar como condensações fluídicas, multiplicadas em cadeia, o que, para o Divino Mestre, seria possibilidade natural.” _ Em A Gênese, Allan Kardec desfere o correto ensinamento acerca de tal passagem evangélica, erroneamente interpretada ao longo dos séculos: “O prodígio, no caso, está no ascendente da palavra de Jesus, poderosa bastante para cativar a atenção de uma multidão imensa, ao ponto de fazê-la esquecer-se de comer. Esse poder moral comprova a superioridade de Jesus, muito mais do que o fato puramente material da multiplicação dos pães, que tem de ser considerada como alegoria.” _ Edgard Armond não leu A Gênese? Recomenda-se a atitude correta para compreender-se os milagres de Jesus, ao que convidamos os leitores a não proceder como o ex-militar, e ir por olhos sobre as obras da Codificação; além, claro, de empreender pelos próprios esforços um mais atento exame da presente obra, com a certeza de que novos deslizes surgirão.

5. Mediunidade
A exemplo de Passes e Radiações, esta obra de mote instrucional descortina-se em real sevicia ao estudioso do Espiritismo. O tortuoso emprego de linguagem alheia aquela trazida pelos Espíritos da Codificação e adotada por Allan Kardec, torna a leitura um enigma a que nenhum dicionário dará solução. Além, obviamente, do emprego dos termos equivocados de sempre - carma, incorporação, energia, desdobramento, etc. Mas, o crème de la crème são sempre as divergências das teses, ideias e conceitos presentes na obra frente a Doutrina dos Espíritos. Exemplos são abundantes:

A mediunidade é pois um fenômeno natural e se realiza em todos os graus da hierarquia da criação, numa escala que vai do verme aos anjos, tudo e todos reciprocamente se manifestando e dando testemunho de si mesmos. Assim, Jesus Cristo foi, inegavelmente, o médium de Deus junto aos homens, manifestando, transmitindo e realizando suas vontades divinas.” _ a mediunidade se dá em todos os graus da hierarquia da Criação? Vermes têm mediunidade? É o que preceitua este trecho, ou seria conclusão apriorística? Porventura se tratasse de outro autor, poder-se-ia traduzi-lo como metáfora ou símbolo, mas é o Comandante quem compõe tais frases. Desprovido, no entanto, de qualquer possibilidade de interpretação é a afirmação acerca de Jesus; quanto a isto, encontra-se em A Gênese as seguintes passagens acerca do tema: “(...) o médium é um intermediário, um instrumento de que se servem os Espíritos desencarnados e o Cristo não precisava de assistência, pois que era ele quem assistia os outros. Agia por si mesmo, em virtude do seu poder pessoal (...) Que Espírito, ao demais, ousaria insuflar-lhe seus próprios pensamentos e encarregá-lo de os transmitir? Se algum influxo estranho recebia, esse só de Deus lhe poderia vir. Segundo definição dada por um Espírito, ele era médium de Deus” _ antes que imaginar Edgard Armond havendo de harmonizar-se a algo presente nas Obras Básicas, é preciso atentar para o fato de que Allan Kardec faz notar que apenas um Espírito assim definiu Jesus, cuja mediunidade é suposta e tratada como hipotética, bastando ao leitor constatar o tempo do verbo usado pelo mestre lionês; aqui sim se pode registrar positivamente por uma expressão alegórica, jamais literal.

A muitos, entretanto, ainda que atrasados em sua evolução e moralmente incapazes, são concedidas faculdades psíquicas como graça. Não as conquistaram, mas receberam-nas de empréstimo, por antecipação, numa posse precária que fica dependendo do modo como forem utilizadas, da forma pela qual o indivíduo cumprir a tarefa cujo compromisso assumiu, nos planos espirituais ao recebê-la. A isso denominamos mediunidade de prova.” _ há todo um capítulo dedicado a esta aberração, do qual não se afirma que uma só linha de seu conteúdo concorde aos postulados da Doutrina dos Espíritos; mas, fica ao arbítrio do leitor apreciar tal anômalo opúsculo. A mediunidade, como fizemos notar em artigo passado, é um atributo humano como a fala e, como tal, seu sinônimo mais perfeito é comunicabilidade; mas a exemplo de Emmanuel, que deturpando a mediunidade viu em tal característica um castigo, Edgard Armond lança doutrina própria a tratar deste ponto fundamental do Espiritismo, mesmo que para tanto venha adulterá-lo.

As quedas são mais comuns nos degraus inferiores da escada evolutiva e tanto mais dolorosas e profundas se tornam quanto maior for o cabedal próprio de conhecimentos espirituais adquiridos pelo Espírito. 'Estado de evolução' e 'estado de queda' são duas condições de caráter geral, em que se encontram os Espíritos nas fases inferiores da ascese. Essas são as condições que dominam no umbral que, como sabemos, é uma esfera de vida purgatorial, bem como nos planos que lhe são, até certo ponto, e de um certo modo, imediatamente acima. Quando porém as quedas se acentuam devido a reincidências de transgressões, elas levam os culposos às Trevas, esfera mais profunda, de provas mais acerbas, situada abaixo da Crosta.” _ Edgard Armod oferece sempre um espetáculo soberbo de falhas, equívocos e conceitos clara e frontalmente opostos aos princípios do Espiritismo. Aqui, neste trecho em particular, ele prega a involução, que chama espertamente de queda. E vai além, remetendo o leitor diretamente as obras mais controversas de André Luiz, aquelas mesmas que couberam a Rafael Ranieri registrar. Certamente o livro O Abismo causou pungente impressão em Armond, a tal ponto de fazê-lo compor esta pérola de ignorância espiritual.

(...) o espírito que fala transmite a palavra ou o som e as ondas sonoras não atravessam a cortina fluídica de proteção que separa o perispírito do corpo denso, permanecendo no campo das atividades do perispírito; tais impressões não são transmitidas aos órgãos dos sentidos físicos e, por isso, é que o médium tem a impressão de que ouve dentro do cérebro. (...)” _ cortina fluídica de proteção que separa o perispírito do corpo denso? Mas que obscenidade é esta? Pior é alegar que o Espírito ao falar move o ar como quando encarnado podia fazê-lo! É um completo desconhecimento da natureza perispiritual, do fluido e da mediunidade. Não leu o Comandante o Ensaio Teórico da Sensação nos Espíritos? O Livro dos Médiuns? É de tal natureza complexa a torção que ele compôs aqui que se torna difícil alcançar positivas conclusões acerca do que quis afirmar; pode-se concluir aí pela defesa da existência de um perispírito orgânico? Sim. Mas ora, se o som é impedido por esta suposta barreira de alcançar os órgãos do corpo, como pode ser percebido? Nada disso parece fazer nenhum sentido, sob quaisquer modos de entendimento aplicado a tal trecho.

Ballonnement. Adotamos esta expressão francesa para indicar a sensação de dilatação, estufamento, inchamento de mãos, pés e rosto do médium, que muitas vezes ocorre antes do transe. É ainda efeito da exteriorização, do deslocamento do perispírito do médium dentro do arcabouço físico para ceder lugar, parcial ou totalmente, ao Espírito comunicante.” _ Incorporação? Bem o sabe o estudioso que o Espírito não toma o corpo, como se este lhe pudesse conter em seu imo. Mas, nada sabendo acerca disto Edgard Armond, ele ainda foi capaz de compor um capítulo inteiro acerca da incorporação. Lamentavelmente.

Como os animais vivem ao mesmo tempo no astral e no plano material denso, a visão e a audição captam impressões desses dois planos: ouvem e veem com facilidade nos dois planos, os seres encarnados e desencarnados.” _ há todo um seguimento na obra acerca deste absurdo, do qual já deitamos esforços em elucidar em artigo aqui publicano em 14 de agosto do ano passado. Embora positivamente os sentidos dos animais, mais sensíveis que os humanos, percebam a presença de certos Espíritos que, conscientemente ou não, fazem uso do fluido de algum médium próximo para serem percebidos ostensivamente pelos primeiros, tais fenômenos não são mediúnicos. Menos ainda se pode conceber um médium ganindo ou rosnando. Reiteramos a leitura do artigo supracitado.

E há ainda um sem número de passagens em que Armond chama a mediunidade sonambúlica de desdobramento, não compreendendo cousa alguma dos processos sucedidos aí. É mais um soberbo festival em que o leitor se vê depauperado pelo esforço de atravessar tais linhas, página após outra em busca de algo que faça sentido, em busca de algo que minimamente o faça recordar das Obras Básicas em toda sua clareza e coerência, em vão.

6. Conclusão
E por tais absurdos vaga Edgard Armond, haurindo das leituras de quando jovem as impressões mais pungentes acerca da mediunidade, e de outros princípios eles também presentes na Doutrina dos Espíritos - mas, nem por um instante se engane o desavisado, o aprendiz ou o estudioso, pois que de tais princípios pouco compreendia, ou compreendia justamente segundo a literatura teosófica e oriental de seus tempos de moço. Leitura esta que soergueu as bases de seu pensamento, e dos quais, suspeita-se, não haja empreendido forças para os revisitar frente a um conhecimento de outra natureza, qual seja o Espiritismo. Mais perigoso que um Espírito pseudo-sábio que busca impor suas ideias e sistemas, tendo na figura do médium um intermediário que lhe pode escudar e a quem pode fascinar, mas ainda assim traduzir incorretamente seu pensamento, os autores encarnados mais livremente espargem suas doutrinas; e ainda que tanjam nas mesmas bases do Espiritismo, estas nenhum parentesco podem lhe guardar, e frequentemente é o que se observa.

Hinduísmo, budismo e outras culturas e religiões orientais assinalam, por exemplo, a existência da reencarnação, mas tem seus sistemas próprios para a explicá-la, compreende-la, o que, pela simples comparação se infere que sonegam informes que a Doutrina dos Espíritos possui; quando não, aliam a estas crendices, superstições e toda sorte de especulações que a razão e a lógica recusam, indo por caminho contrário ao Espiritismo. Judiciosamente pois é que o Espiritismo tem sua singularidade, que pede e merece respeito tanto quanto qualquer outra corrente de pensamento ou doutrina que trate das mesmas questões por si abordadas.

O ocultismo, a teosofia e o esoterismo tem lugar nas mentalidades que lhes são afins, e não há o que condenar os que por tais vertentes de pensamento escolheram aventurar-se - não se pode, contudo, avançar os limites que lhes são próprios. A objeção se faz a alguns indivíduos, dotados de carisma, voz de comando e ascendência psicológica sobre os demais que, na consideração de tudo conhecer, urdem na efervescência do ego sistemas doutrinários personalíssimos, espargindo-os sob o balsão do labor fervoroso em nome de uma religião, de uma doutrina econômica, científica, política ou filosófica. Não impõe ressalvas inutilmente quem toma com apreensão tais personagens, e a eles impõe todos os entraves a confiança. Vigiai e orai, prescreve Mateus; vigiemos portanto.
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1_Kalpa é o equivalente a 14 Manvantaras, o que é um ano de Manu, ser surgido de Brahma, o Criador, e responsável pela criação da humanidade, isto segundo o hinduísmo. Para a Teosofia, o Kalpa é a somatória de tempo universal para os mundos possuidores de vida, o que equivale, na contagem de tempo terrena, a 4.320.000.000 de anos. Na lógica da obra de Blavatsky, portanto, a espécie humana teria surgido muito antes deste tempo, o que não corresponde a realidade geológica e biológica do planeta; mas este detalhe científico é o tipo de conhecimento tomado como incorreto ou passível de relativização por ocultistas, esotéricos e teósofos, procedimento muito comum, ainda, dentre os autores que compõem obras sob o epíteto de Espiritismo. Acautelemo-nos diante destes.

domingo, 12 de abril de 2020

Velhos Livros, Novas Leituras - "As Colônias Espirituais e a Codificação"


Parafraseando um esquecido gênio brasileiro, a verdade é impopular - segue-se que os defensores da erraticidade espírita, aquela mesma revelada pelos Espíritos da Codificação a Allan Kardec são, diuturnamente, mais e mais relegados ao ostracismo que a verdade lhes impõe. Colônias Espirituais, Umbral e cousas do mesmo gênero não existem; assim o sabia o Codificador, assim sabiam aqueles que leram e estudaram as Obras Básicas e lhe foram coetâneos. E assim sabem aqueles poucos que, insulados, deram-se a debruçar sincera diligência a desvelar uma Doutrina que clama por seu lugar ao Sol, constrangida a um canto escuro da História por seu abominável parasita teratológico, que atende pelo nome de movimento espírita brasileiro. Paulo Neto é um, dentre milhares de diminutos organismos que constituem o microbioma de tal monstruosidade, deambulando sobre sua derme na feliz marcha dos ignorantes. Obviamente, a qualquer abalo que atrapalhe o caminho, muitos hão de se insurgir contrários, forçando-se ao embate, e a defesa da criatura da qual vivem. Assim, ante um alarido qualquer que cogitou pela inexistência das Colônias Espirituais, fez surgir a presente obra, de ponta a ponta um completo equívoco.

Para defender a realidade das Colônias Espirituais, qualquer autor precisará de bases sólidas e, num livro que tem a Codificação em seu título, era esperado que Allan Kardec fosse a grande estrela a ser conclamada a demonstrar, inescapavelmente, que tais locais de circunscrição de Espíritos são uma realidade axiomática. No entanto, como isto não ocorre, por que nas Obras Básicas nada há que possa embasar uma mentira de tal monta, o autor precisa apanhar do prestígio e obra de outros autores que, a exemplo dele, propugnam dessa ignomínia. O baluarte a quem apela não é senão outra que Yvonne A. Pereira, figura incensada por sua mediunidade - Devassando o Invisível é a obra escolhida; desde já se saiba que em seu conteúdo é citado cinco vezes o Espírito André Luiz, adjetivado por termos meritórios quais 'eminente' e 'ilustre', um proceder que, para efeito de fonte isenta e segura, o autor talvez devesse ter se esmerado mais em buscar outra. Além disso, a autora carioca falecida em 1984 teceu curiosa consideração acerca da mediunidade:

Ora, sendo a mediunidade, em geral, ao que se observa, uma sensação ou uma percepção, participante de determinadas funções da consciência; e sendo estas entendidas como potências da alma, que traduzem a sua individualidade, acreditamos que todas as criaturas sejam dotadas dessa faculdade, em grau maior ou menor, dependendo de um estado mais ou menos acentuado de desenvolvimento, ou experimentação. Todavia, parece-nos que, no estado de desencarnação ou de desprendimento espiritual, esse atributo da nossa individualidade anímica emerge espontaneamente, visto que, no que a nós própria respeita, certos acontecimentos, desenrolados durante aquele segundo estado, parecem confirmar nossa impressão.

Mediunidade é comunicabilidade, um atributo do homem como a fala, e justamente como esta pois porque se destina a comunicar inteligivelmente uma ideia, uma mensagem, enfim, algo útil, bom e, mais que isto, verdadeiro - não é uma sensação, como um comichão ou prurido, menos ainda uma percepção, dado que o vocábulo tem um sem número de significações, de tal conta que, podendo tudo significar, nada expressa. O uso de tal vocábulo aqui, em particular, ecoa outras tantas palavras que são usadas correntemente pelos espíritas e que, analogamente, são desprovidas da capacidade de representar corretamente aquilo a que indicam - um bom exemplo é a palavra energia, amiúde usada para referir-se ao fluido, mas não sabendo senão superficialmente, ou nada sabendo acerca do fluido, o espírita tem de expressar-se, ainda que erroneamente, de algum modo. Fluido é matéria, e energia um atributo desta - mas há energia no fluido? O Espiritismo não o indica, e quem em nome dele assim o afirmar positivamente precisará prová-lo. Outro exemplo de emprego de terminologia errada, presente na obra, diz respeito a constante referência a mediunidade de incorporação, ou apenas incorporação, o que não existe e aponta, em realidade, para a psicofonia; além, é claro do infame desdobramento, ou mediunidade de desdobramento, que não define cousa alguma, embora se refira a mediunidade sonambúlica.

A leitura deste enxerto de Devassando o Invisível parece indicar que, para a autora, a mediunidade é também atributo do Espírito, configurando novo erro. Aliás, afirma, outrossim, que a mediunidade é desconhecida dos estudiosos do Espiritismo, ao que apenas se constata por tais trechos que ela não deixara nada a desejar a estes, e embora enaltecida e vangloriada, Yvonne A. Pereira não vai muito além do que se vê de parte dos médiuns que são mote de culto da choldra espírita. Ainda que pela extensão venhamos a pecar, outra passagem interessa para um exame mais atento - acaso firme-se em real dificuldade à autora definir a mediunidade, ou crê-la presente no Espirito, vejamos como se sai ao lidar com outro fundamento do Espiritismo, o livre-arbítrio. Para tanto, e afim de vir encerrar tal obra, ela deseja abordar assunto que seja objeto das preocupações de companheiros de ideal espírita; destarte, resulta após aguardar que lhe venha algo por inspiração, em considerar o seguinte tema:

Das teses aventadas, uma nos parecera a mais sedutora: procurar saber, de nossos mentores espirituais, a razão pela qual certos Espíritos desencarnados se supõem ainda vivos, 'qual o mecanismo que os leva a se considerarem homens carnais' quando, em verdade, muitas vezes, há séculos que estão separados da condição humana.

Não será demasiado vir lembrar o que responderam a Allan Kardec os Espíritos em O Livro dos Médiuns acerca de seu papel como guias dos homens em suas descobertas - “Que mérito teria ele (o homem), se não lhe fosse preciso mais do que interrogar os Espíritos para tudo saber? A esse preço, qualquer imbecil poderia tornar-se sábio.” - ou ainda, ao risco a que se expôs por assumir tal atitude, como que ignorando que há sempre uma multidão de Espíritos prontos a tomar a palavra, sob qualquer pretexto; tais prevenções, todavia, não a impediram de, destemidamente partir junto de um suposto enviado do Espírito do médico Adolpho Bezerra de Menezes, bastião moral febiano. Ladeada por este suposto emissário, adentra pocilga onde seus ocupantes, maltrapilhos Espíritos divertem-se com álcool, tabaco, conversas infrutíferas e muita cantoria. Informa seu cicerone que tais sujeitos intervinham negativamente na vida dos encarnados. Questiona Yvonne se não haveria meios 'que os impeçam de (cometer) tais monstruosidades', ao que o Espírito responde:

(...) será oportuno considerar que, da mesma forma, monstruosidade será a sociedade deixar um órfão, ou um filho de pais miseráveis ou delinquentes, criar-se ao abandono, pelas ruas... E a sociedade o faz agora, e o fez com estes mesmos que está vendo aqui... Monstruosidade será também omitir providência humanitária para que o jovem abandonado, ou o pobre, se instrua, eduque e habilite de modo a furtar-se à humilhação da ignorância, prendendo-se na escola do dever e da honestidade... No entanto, estes que aqui vemos foram banidos pela sociedade, que lhe não facilitou escola, nem educação, nem exemplos bons, senão a dureza de coração com que os tratou... Não se instruíram porque não tiveram meios de remunerar professores, e as escolas públicas nem sempre são acessíveis aos deserdados, como estes foram... Não puderam educar-se porque o lar é que modela os caracteres, e eles, desde a infância, viveram perambulando pelas ruas... Tal como os vemos, são ainda frutos da sociedade... Sua impiedade foi libada na impiedade que receberam... Tornaram-se criminosos inveterados, na Terra e no Além, porque foram vítimas do crime de egoísmo da sociedade... Portanto, pertencem à sociedade terrena, esta é afim com eles e eles vivem nos ambientes que lhes convêm...

Seguintemente, o Espírito afirma caber ao encarnado, por vontade e alvitre, contrapor as influências de Espíritos de tal natureza - mas esta inferência após um discurso tão afinado aos preceitos da sociologia materialista, que propõe impor a culpa do criminoso às suas vítimas, é de indagar se não caberia a mesma lógica para com estes Espíritos, tornados obsessores, quando de seu contato com os encarnados. Ou seja, que culpa há por parte da sociedade, uma vez que ela não anula o livre-arbítrio do ser? Não há tanta miséria que sufoque absolutamente todas as alternativas do sujeito encarnado por manter-se, senão ativo nas lides benfazejas da bonomia, ao menos afastado do delito e do vício. O proceder adotado por este Espírito a acompanhar Yvonne A. Pereira é um denunciador infalível do alcance de seus saberes, de seu progresso - deve-se considerar sua fala? Não parece haver a intenção de instar culpa ao leitor? Não seria um procedimento mais correto tratar da questão por outros meios?

No mais, o que importa para Paulo Neto está apartado do mourejo com que Yvonne A. Pereira lida com o livre-arbítrio, pois que a médium, igual defensora da existência das Colônias Espirituais, faz referência a obra de outros tantos autores a fim de, a seu turno, também dar base a esta descabida doutrina - assim, além de Ernesto Bozzano e George Vale Owen, Léon Denis é arrolado para esta reunião de insanos. Ainda não foi a vez de Allan Kardec integrar as festividades. Um Paulo Neto entusiasmado vem concluir:

Portanto, com esses três autores citados, a médium Yvonne A. Pereira conseguiu nos convencer da realidade das colônias espirituais, ou construções diversas no mundo espiritual. Sim, ela com as provas apresentadas, venceu o nosso 'achismo'.

Notoriamente, a figura de Léon Denis é a que salta aos olhos do autor, que sentencia:

O que achamos fantástico é a menção que Yvonne faz de personalidades renomadas terem comungado com essa ideia; entre elas, e de um modo especial, cita nada menos que Léon Denis (1846-1927), que sabemos ter sido o continuador de Kardec, após o seu desencarne.

Mais adiante, prossegue:

Apresentar Léon Denis como defensor da causa foi algo como que um tiro certeiro no alvo, porquanto não há o que se falar de serem antidoutrinárias as colocações dele e, muito menos, que tenha dito absurdos, produto de sua imaginação.

Lamentavelmente para Paulo Neto, o druida de Lorena embora respeitável, não avança intacto ao escrutínio de um análise mais atenta. Em Depois da Morte, os leitores hão de encontrar o trecho seguinte:

É perispírito que garante a manutenção da estrutura humana e dos traços fisionômicos, e isto em todas as épocas da vida, desde o nascimento até a morte. Exerce, assim, a ação de uma forma, de um molde contrátil e expansível sobre o qual as moléculas vão incorporar-se. Esse corpo fluídico não é, entretanto, imutável; depura-se e enobrece-se com a alma; segue-a através das suas inumeráveis encarnações; com ela sobe os degraus da escada hierárquica, torna-se cada vez mais diáfano e brilhante para, em algum dia, resplandecer com essa luz radiante de que falam as Bíblias (antigas) e os testemunhos da História a respeito de certas aparições. É no cérebro desse corpo espiritual que os conhecimentos se armazenam e se imprimem em linhas fosforescentes, e é sobre essas linhas que, na reencarnação, se modela e forma o cérebro da criança.

Léon Denis parece omitir um fato conhecido e reconhecido de todo estudioso do Espiritismo acerca da natureza do perispírito - ele afirma ser este envoltório fluídico um apenas, acompanhando o Espírito em suas múltiplas vidas; verdade, mas apenas em parte. Transladado a outro mundo, este corpo fluídico é abandonado como a uma veste, e tão rápido quanto se pode supor a velocidade do pensamento, visto que é constituído da matéria comum aos elementos do orbe onde se encontra o Espírito. Faltou aqui um cadinho mais de capricho na elaboração da questão por parte de Denis - a ideia que evoca acerca dos contornos diáfanos e radiantes que o perispírito assume no decurso do progresso do Espirito, assim apresentada, pede explicações acessórias que aí não se encontram. Aspecto de fato indefensável é sua afirmação de haver um cérebro no perispírito - um pioneirismo que se refletiria décadas após, e de modo mais ostensivo na literatura do Espírito André Luiz. Um infeliz erro, lamentavelmente.

Em O Problema do Ser, do Destino e da Dor, Léon Denis vai contra O Livro dos Espíritos em sua questão de número 298, ao defender a existência das almas gêmeas, ou como denomina Allan Kardec, metades eternas:

Muitas almas, criadas aos pares, são destinadas a evoluírem juntas, unidas para sempre na alegria como na dor. Deram-lhes o nome de almas-irmãs; o seu número é mais considerável do que geralmente se crê; realizam a forma completa, mais perfeita de vida e do sentimento e dão às outras almas o exemplo de um amor fiel, inalterável, profundo.

Sobram lirismo e poesia, falta conhecimento ao venerável e suposto continuador de Allan Kardec. Quanto a suposição que versa Denis como herdeiro e continuador da missão do Codificador, aliás reiterá-se, defendida na obra de Paulo Neto, vale uma judiciosa observação. Para tanto, algumas passagens de Obras Póstumas, em que Allan Kardec solicitando instruções acerca de um possível sucessor, obtém uma longa resposta, da qual se destacam os seguintes trechos:

A ti te incumbe o encargo da concepção, a ele o da execução, pelo que terá de ser homem de energia e de ação. Admira aqui a sabedoria de Deus na escolha de seus mandatários: tu possuis as qualidade que eram necessárias ao trabalho que tens de realizar, porém não possuis as que serão necessárias ao teu sucessor. Tu precisas da calma, da tranquilidade do escritor que amadurece as ideias no silêncio da meditação; ele precisará da força do capitão que comanda um navio segundo as regras da Ciência. Exonerado do trabalho de criação da obra sob cujo peso teu corpo sucumbirá, ele terá mais liberdade para aplicar todas as suas faculdades ao desenvolvimento e à consolidação do edifício.

Fora Léon Denis este homem? A cada um caiba examinar a biografia de tal venerável pioneiro das lides espíritas, ir ao seu encontro por suas obras, seus artigos, tudo quanto legou e acerca dele foi composto para se responder, de fato, tal indagação - de nossa parte, cremos ter sido um dos mais contundentes laboradores do Espiritismo nos anos subsequentes ao decesso de Allan Kardec. Estes seus equívocos, e alguns de seus posicionamentos pessoais, contudo, depõem contra a asserção, mui mitificada, de que fora o continuador mor da obra principiada pelo mestre lionês. Esta mitificação, aliás, é própria de um meio afeito as práticas e condutas mais reprováveis oriundas da religião - a Paulo Neto parece faltar preencher profundas lacunas instrucionais. Contudo, ainda que pareça sincero devoto do espírito de pesquisa na busca da verdade e do conhecimento, ele se mostra a nu quando, por fim se recorda de trazer o Codificador para a celebração de suas teses, infelizmente indo de encontro a outros tantos supostos investigadores da questão, concluindo erroneamente que:

Entendemos que as colônias estão em completa semelhança com as características dos mundos transitórios, referidos nas questões 234 a 236 de O Livro dos Espíritos, que são apenas acampamentos temporários.

Embora conheça as questões referidas, não parece capaz de as compreender - na edição de maio de 1859 da Revista Espírita, em artigo intitulado Mundos Intermediários ou Transitórios, Allan Kardec indaga o Espírito de Santo Agostinho acerca destes orbes, ao que este afirma o já sabido em O Livro dos Espíritos - tais mundos são planetas, e não cidades fluídicas que pairam nas altas camadas atmosféricas destes; são estéreis de vida física; e assim o são porque os Espíritos que os habitam de cousa alguma precisam; não há nenhum atualmente dentre os mundos que constituem o sistema solar ao qual a Terra pertence; mas, a Terra já foi um mundo transitório em seu passado, no período de sua formação; tais mundos subsistem na condição de estações de pouso, e não como locais em que será preciso laborar para se obter uma moradia, como descrito em Nosso Lar, por exemplo. Seria preciso um grande dano cognitivo para se enxergar aí, nas letras do Codificador, as descrições narradas pelo Espírito André Luiz em suas obras, e nas de outros autores surgidos nas décadas subsequentes, encomendadas com o fito de enriquecer seus editores. Contudo, a razão pela qual se aponta os mundos transitórios como sendo as Colônias Espirituais é para as conformar ao princípio doutrinário da pluralidade dos mundos habitados, e não a da erraticidade - é esta uma manobra de prestidigitação literária com o fim claro de manter a tese intacta, mesmo que comprometa a fonte original, qual seja o Espírito André Luiz e suas obras, pois que não se trata de mundos transitórios o que o leitor encontra em Nosso Lar, nem em Cidade no Além de Heigorina Cunha, ou em Violetas na Janela de Vera Lúcia M. De Carvalho. Quando arrolada a erraticidade aí, a tese das Colônias Espirituais esboroa facilmente, e é isto que o autor precisa evitar a todo custo. Uma vez que haja se convencido, por meio da obra de Yvonne A. Pereira acerca da realidade das narrações do Espírito André Luiz e congeneres, Allan Kardec se lhe surge como incomodo penetra, a quem ora lhe tem utilidade, ora é desprezado por suas asserções. Assim Paulo Neto aborda a questão 87 de O Livro dos Espíritos, comprovando que a erraticidade e a tese que defende são inconciliáveis:

A afirmação de não haver região determinada e circunscrita no espaço nada tem a ver com a existência ou não da colônias espirituais, que, atualmente, tantos companheiros atacam; porém, ao que tudo indica, eles estão levando em consideração o conceito, então vigente à época de 'céu' e 'inferno' localizados, ou seja, como locais circunscritos, como sendo um espaço físico delimitado.

Ora, há aqui uma torção argumentativa bastante hábil que, apenas os aderentes da ideia, ou aqueles tão absolutamente inábeis na leitura crítica adotam sem precauções - solicitamos a explicação de por que não tem nada que ver a afirmação da inexistência de regiões circunscritas no espaço, com o fito de conter Espíritos errantes, com a existência de Colônias Espirituais. Uma Colônia Espiritual não é uma cidade, e uma cidade localizada nas altas camadas atmosféricas do planeta, aí inserida num deserto lodoso destinado a Espíritos sofredores, conhecido pelo termo Umbral? Ainda que este, por todas as fontes conhecidas e compulsadas se constitua num deserto que perfaz toda a extensão do globo terrestre, ele encontra seu limite nas Colônias Espirituais, e estas neste, o que claramente os circunscreve, geográfica e espacialmente - as ilustrações esquemáticas encontradas em Cidade no Além, obra coadjuvada por Chico Xavier, houvera apresentado erro nesta divisão do espaço circundante ao planeta em esferas espirituais, porque não as corrigiu o médium mineiro? Porque não foram reprovadas por André Luiz ou Emmanuel? Acaso o tenham feito, não se lhes conhece o réprobo - na máxima segundo a qual o silêncio aprova, questiona-se afinal, em que resume-se o conceito das Colônias Espirituais para Paulo Neto?

Qualquer estudioso considerará, após pesquisar cuidadosamente, que a opinião una de André Luiz, que não deixa de adaptar ideias pregressas, mas que nem longinquamente correspondem as normas apresentadas por Allan Kardec em o Controle Universal dos Ensinamentos dos Espíritos, foi ao longo das décadas adaptada ao gosto do mercado que, qual hímen complacente aceitou novas ideias, novas concepções imagéticas mais fantásticas e mais espetaculares, sem se romper e sem deixar de prestar deferência a fonte original. Todavia, o que teima em não se adaptar acaba menosprezado ou deformado - eis o caso das Obras da Codificação, e a atitude do autor de As Colônias Espirituais e a Codificação condiz ipsis litteris a de todos aqueles que o antecederam, erroneamente afirmando que a Doutrina dos Espíritos encontra-se inacabada, procedimento que adota já no terceiro capítulo de sua obra. Este tema o abordamos em artigo aqui publicado em 10 de agosto de 2019, desmantelando ponto por ponto as interpretações personalíssimas, também encontradas no livro em análise das passagens escaladas das Obras Básicas, as quais usa o autor para fazer valer sua visão.

Há uma conveniente miopia na obra de Paulo Neto, que ainda padece de uma pesquisa desleixada - a questão de número 1017 (em algumas traduções é a 1016) de O Livro dos Espíritos sequer surge, possivelmente e, uma vez mais, porque não convém trazê-la ao conhecimento do leitor. Já por si esta implode a tese das Colônias Espirituais, como fizemos notar em artigos anteriores. Nada temos contrário a quem quer que escolha aderir as ideias que mais se conjuguem a seus pendores naturais e particulares, ainda menos a quem opte por escapar ao trabalho de voluntariamente aumentar o volume do próprio conhecimento, mas por nenhuma paga ou sob quaisquer escusas pode-se permitir que a figura de Allan Kardec, e a Codificação espírita sejam evocados a dar distinção a ideias e conceitos oriundos de Espíritos pseudo-sábios. Menos ainda se estes venham desfigurar qualquer dos fundamentos componentes da Doutrina dos Espíritos - a erraticidade é um deles, tão importante quanto cada um dos demais para a compreensão coerente do Espiritismo. Que se deseje conjurar Yvonne A. Pereira, Léon Denis, George Vale Owen, Enerto Bozzano, André Luiz, Emmanuel ou qualquer outra figura enaltecida pelas gentes que se creem espíritas, é esta da responsabilidade de cada um, autor de uma obra qual esta ou não, para defender que exista o que quer que seja para além dos limites da morte física. Chamar a isto de Espiritismo, contudo, é algo que nenhum espírita sério, estudioso, consciente e crítico há de permitir se faça - não há o que censurar na crença das Colônias Espirituais, desde que fique claro não se tratar de Espiritismo. Ostentando tal título, a obra de Paulo Neto é um crime de lesa-cultura. E todo aquele que um dia sequer considerou seriamente a tese das Colônias Espirituais e similares, para depois, aprofundando estudos nas Obras Básicas dar-se consciente do engodo a que fora exposto, compreende perfeitamente os sentimentos que resultam disto. Examinem tudo, absolutamente tudo, é o que conclamamos aos que de fato desejam conhecer o Espiritismo.

841. Para respeitar a liberdade de consciência, dever-se-á deixar que se propaguem doutrinas perniciosas, ou poder-se-á, sem atentar contra aquela liberdade, procurar trazer ao caminho da verdade os que se transviaram obedecendo a falsos princípios?
Certamente que podeis e até deveis; mas, ensinai, a exemplo de Jesus, servindo-vos da brandura e da persuasão e não da força, o que seria pior do que a crença daquele a quem desejaríeis convencer. Se alguma coisa se pode impor, é o bem e a fraternidade. Mas não cremos que o melhor meio de fazê-lo admitidos seja obrar com violência. A convicção não se impõe.

A caridade consiste em fazer todos os esforços para colocar a luz em evidencia pois aquele que crê que possui uma parte da verdade está obrigado pela lei de honra e divulgá-la. O medo das consequências que possam resultar da discussão nunca deve deter o pensador. Jesus, esse sublime modelo, não pensava duas vezes antes de tratar os fariseus como raças de víboras e sepulcros caiados. Isso deve-se a que ele compreendia que todo aquele que não combate o erro do qual tem conhecimento, torna-se responsável, e converte-se em cúmplice das desgraças que esse erro pode acarretar.” - Gabriel Dellane

sexta-feira, 3 de abril de 2020

Qual a Verdadeira Felicidade?


Todo homem experimenta a necessidade de viver, de gozar, de amar e ser feliz. Dizei ao moribundo que ele viverá ainda; que a sua hora é retardada; dizei-lhe sobretudo que será mais feliz do que porventura o tenha sido, e o seu coração rejubilará.” - O Céu e o Inferno, cap. I da Primeira Parte

1.
O materialismo venceu! Desde a Academia e seu aglomerado de sábios até os simplórios campônios sob as condições mais recônditas e insulares da nação, a doutrina materialista fez escola, espargiu-se por entre as gentes com tal habilidade e sucesso que coube ao Espiritismo o ostracismo, urrando a realidade da vida espiritual numa multidão de surdos. Não há que enganar-se imaginar que os caracteres de tal vertente cruza o movimento espírita brasileiro com dificuldade, ou que sequer o faça, sendo seus aderentes imunes a estes - muito ao contrário. Sorrateiramente, desde o princípio, o materialismo se avizinhava do Espiritismo, o assediou até maculá-lo, senão em sua teoria, na prática dos que alegam seguir-lhes os fundamentos.

Jean Baptiste Roustaing, desprovido de critérios, e messianicamente, por meio da médium Émilie Collignon, deu-se a coordenar uma série de comunicações mediúnicas que compuseram a obra Os Quatro Evangelhos, cognominado Espiritismo Cristão ou A Revelação da Revelação. Mais que trazer alegações estapafúrdias quanto a natureza do corpo de Jesus, numa retomada do Docetismo herético do medievo, ou da defesa da ideia anti-espírita segundo a qual os Espíritos podem involuir, o dano mais agudo legado por Roustaing é sua metodologia, ou falta dela. Numa crença cega diante das mensagens dos mortos, tudo foi crido como verdadeiro, como expressão da realidade. Não se levantaram questionamentos, não se objetaram os conteúdos das mensagens, não se discutiram sua razão de ser, a que fim se pretendiam e pretendem. Como outrora procedeu o magistrado, o espírita brasileiro age sem método, sem processo, sem um sistema orientador, recebendo desmazeladamente toda e qualquer mensagem espiritual como a expressão cabal da verdade. Não há análise, não há dúvida; há apenas a antevisão de trazer a lume um novo volume, que alcançará o leitor por um preço maior que seu valor venal, fomentando ideias equivocadas, insuflando terror, deturpando ao Espiritismo e explorando a fé alheia; uma fé religiosa, e não uma fé raciocinada, que se registre.

Entretanto, a responsabilidade de Roustaing acerca do que deu posteridade é partilhada por este movimento espírita brasileiro, e por cada espírita que nele se reconhece, principalmente por que Allan Kardec não dispôs a Doutrina dos Espíritos sem recursos no sentido de averiguar-se tudo quanto ditam os Espíritos - muito ao contrário, posto que desde o princípio preocupou-se com esta porta escancarada a dar passagem para qualquer um. Lavrou a questão, contudo, de modo mais assertivo na Introdução de O Evangelho Segundo o Espiritismo, com o Controle Universal dos Ensinamentos dos Espíritos. Quem se aventurou em seguir-lhe as instruções, em averiguar segundo tais regras as palavras de além-túmulo? Tendo em vista a imensurável bibliografia que sob a signa de literatura espírita se produziu e se produz, certamente poucos o fizeram e fazem. Para aqueles que argumentarão contra é preciso recordar: Roustaing lançou sua obra em 1866, enquanto que O Evangelho Segundo o Espiritismo já estava à disposição em 1864 - o advogado bordelês, porém, não o leu, ou ao menos não alegou tê-lo feito nos documentos por nós compulsados. Para efeito de registro ele alegou haver posto olhos apenas em O Livro dos Espíritos e O Livro dos Médiuns. Para aqueles que empreenderam em semelhante prática, havendo recebido mensagens e ou narrativas de origem espiritual, e que se alegam espíritas, é imperdoável que não hajam seguido estritamente as instruções dadas pelo professor.

Graças a disposição íntima de crer sem raciocinar, não é equivocado afirmar que este movimento espírita brasileiro é, antes, um movimento roustaiguista, por adotar-lhe a falta de sistema, de um critério para julgar as mensagens espirituais, ignorando completamente a Allan Kardec. Eis pois, por que afirmamos diuturnamente que este movimento espírita é ilegítimo. E, outrossim, por que sobrevivem consensualmente a idolatria a médiuns e personalidades, por que se aceita bovinamente a obra de Espíritos claramente pseudo-sábios e, por que vicejam as ideias e ideologias destes. O que se tem é o pastiche, o simulacro. O conceito de Colônias Espirituais é um distintivo exemplo do materialismo fincando bandeira onde, teoricamente, jamais o poderia. Deturpado ou corrompido o fundamento da erraticidade, o Espiritismo se desintegra e o que resta é crença cega na doutrina de um só Espírito.

Considerando-se o fato de que cada ser vivente na matéria se encaminha inexoravelmente para o fenômeno da morte, seria de bom senso que o que está por vir, caso se creia que algo sobrevive ao decesso, fosse questão candente. Dotado de capacidade cognitiva única, a criatura humana pôde aventar teorias ao longo de sua trajetória, e por milênios a dualidade espírito/matéria esteve no centro das disciplinas do conhecimento. Porém, o materialismo foi se robustecendo a cada novo mestre da matéria, em sistemas filosóficos intrincados e, frequentemente, herméticos - entretanto, o homem comum não se mostra disposto a apreciar as teorias do materialismo em seu apogeu; no seu imo calam profundamente os velhos questionamentos acerca da existência, de sua natureza, de sua razão de ser e do que o espera o futuro. Acaso a Academia e sua agremiação de sábios astênicos se perde na retórica bela e vazia, a religião não dá sinais mais promissores no sentido de fomentar uma cultura do Espírito. Os tele-evangelistas pregam a teologia da prosperidade, insuflando a barganha com a divindade num paradigma deísta primitivo e materialista; quando não incorrem aos mesmos procederes dos palestrantes que se espalham pelos supostos centros espíritas da nação, vertidos em gurus da auto-ajuda.

Mas o que tem a felicidade do ser a ver com isto? A matéria pode ser o foco motriz do sofrimento dos Espíritos, ou melhor dito, o apego a matéria, traduzido pelo vocábulo materialismo, pode ser o âmago do sofrimento espiritual. Parece parte da necessidade do progresso do Espírito compreender o limite entre a materialidade do mundo físico, e a espiritualidade do mundo pós-físico, ou dito de modo espírita, do mundo espiritual, ou mundo espírita. Não há melhor tradução para isto do que a doutrina de Jesus de Nazaré, que pode ser sintetizada na frase estar no mundo sem ser escravo dele. Falando e atuando segundo esta singela, ainda que complexa sentença, Jesus veio dar o demonstrativo máximo de tudo quanto pregou e fez ao morrer - sua aparição posterior, em meio a seus adeptos tinha este único e assertivo objetivo, ou seja, demonstrar a existência e sobrevivência do ser espiritual, mas também afirmá-lo como ser principal, sendo sua expressão física senão uma frágil e fugidia manifestação. Assim de pode compreender melhor, portanto, o papel do Espiritismo, que veio reiterar a doutrina de Jesus, atando a ela novas revelações acerca da origem do Espírito, de sua razão de ser, de seu destino, do que há para além do mundo físico, e das razões pelas quais não se deve deixar este apegar-se aquele. O materialismo que passou a preconizar o Jesus ressurreto, renascido em carne e sangue, pôs abaixo sua doutrina, distorceu-a e criou a cristandade que, muito distante de professar o espiritualismo, mais se aprofunda na valorização da matéria. A questão 1018 de O Livro dos Espíritos resume bem a isto:

1018. Em que sentido se devem entender estas palavras do Cristo: Meu reino não é deste mundo?
Respondendo assim, o Cristo falava em sentido figurado. Queria dizer que o seu reinado se exerce unicamente sobre os corações puros e desinteressados. Ele está onde quer que domine o amor do bem. Ávidos, porém, das coisas deste mundo e apegados aos bens da Terra, os homens com ele não estão.

2.
O coração humano é um cálice cheio de lágrimas”, já o expressara o Espírito Georges na edição de junho de 1860 da Revista Espírita, em texto intitulado Miséria Humana - este conceito ancestral refere-se em sua acepção mais ampla, a condição do Espírito humano encarnado na Terra. Não se constitui grande dificuldade a ninguém enumerar as razões pelas quais a expressão da vida humana no planeta não é idílica; qualquer indivíduo conhece as aflições que atingem o homem. Levando-se em conta as múltiplas existências do Espírito, não há que excluir um só que não tenha sofrido, que não haja sentido na própria tessitura do ser a dor, as angústias morais, a antevisão da debilidade, os tormentos da perda da saúde, a profundidade das tristezas, os agônicos padecimentos, os estados depressivos, a indigência da exclusão e da escassez absoluta das necessidades básicas.

A leitura das Obras Básicas esclarece em tantos seguimentos as razões da miséria humana que vir neste ponto transcrevê-las seria praticamente copiá-las quase na íntegra - mas se há uma só razão, ou antes uma palavra que resuma in totum o âmago das dores humanas é esta a paixão. Não paixão no sentido que a escola romântica lhe dá, mas num aspecto mais amplo, no apego aos excessos, na expressão das exaltações dos sentidos e dos sentimentos, da emotividade extremada e do apetite ardente por pessoas, coisas ou experiências - algo que a Psicanálise resumiria na palavra desejo, ou que o Budismo chama de Trishna (a sede insaciável dos desejos humanos, e causa do sofrimento). E aqui tem-se uma vez mais a argumentação materialista que, contrariando as instruções espirituais, versa que o homem, desde suas primeiras idades pré-históricas existindo numa vida violenta e mortal, foi induzido a satisfazer de imediato as necessidades do corpo, tornando-se um oportunista em relação a saciar-se, tendo em vista que o amanhã não poderia dar-lhe garantia de cousa alguma. Isto é compreensível do ponto de vista físico, mas o homem não é apenas isto - parte de si criou, ao ir contra este impulso, com organização e disciplina, a previdência para os dias vindouros. Sai ele então do nomadismo, passa a domesticar formas de vida vegetais e animais, criando a agricultura e a agropecuária; vive em assentamentos com muitos indivíduos, precisa então de leis para regrar a vida em comunidade... Enfim, a saga humana na Terra é por reprimir em si estes condicionamentos primevos, para abandonar seu feitio animal em busca de assumir-se por sua natureza primeira, a espiritual, num processo que deve, antes, ser natural e espontâneo. Foram certos aspectos deste carácter humano que, reprimidos em demasia pela sociedade do século XIX vieram por suas mais sofridas consequências fundamentar em parte o nascimento da Psicanálise.

N'O Livro dos Espíritos, em o Ensaio Teórico da Sensação nos Espíritos, Allan Kardec refere-se as paixões pelos seguintes dizeres:

Os sofrimentos deste mundo independem, algumas vezes, de nós; muito mais vezes, contudo, são devidos à nossa vontade. Remonte cada um à origem deles e verá que a maior parte de tais sofrimentos são efeitos de causas que teria sido possível evitar. Quantos males, quantas enfermidades não deve o homem aos seus excessos, à sua ambição, numa palavra: às suas paixões? Aquele que sempre vivesse com sobriedade, que de nada abusasse, que fosse sempre simples nos gostos e modesto nos desejos, a muitas tribulações se forraria. O mesmo se dá com o Espírito. Os sofrimentos por que passa são sempre a consequência da maneira por que viveu na Terra.

Os Espíritos da Codificação, entretanto, são austeros e incisivos, parecendo optar pela renúncia e ascetismo ao equilíbrio do Codificador aqui expresso; da seguinte forma eles lhe respondem:

968. Citais, entre as condições da felicidade dos bons Espíritos, a ausência das necessidades materiais. Mas, a satisfação dessas necessidades não representa para o homem uma fonte de gozos?
Sim, gozo do animal. Quando não podes satisfazer a essas necessidades, passas por uma tortura.

E pode-se supor que prefiram a abstinência, justamente por conhecerem desde há muito aos piores efeitos do gozo animal satisfeito:

972. Como procedem os maus Espíritos para tentar os outros Espíritos, não podendo jogar com as paixões?
As paixões não existem materialmente, mas existem no pensamento dos Espíritos atrasados. Os maus dão pasto a esses pensamentos, conduzindo suas vítimas aos lugares onde se lhes ofereça o espetáculo daquelas paixões e de tudo o que as possa excitar.

972A. Mas, de que servem essas paixões, se já não têm objeto real?
Nisso precisamente é que lhes está o suplício: o avarento vê ouro que lhe não é dado possuir; o devasso, orgias em que não pode tomar parte; o orgulhoso, honras que lhe causam inveja e de que não pode gozar.

O contentamento humano é a satisfação das necessidades físicas - porém, não raramente o que até então poderia ser pautado pelo comedimento e frugalidade torna-se, em decorrência da compulsão das personalidades em vício, sob as mais trôpegas e escusas justificativas. O homem se rejubila ao poder satisfazer a sede, mas também se entorpece de alcaloides; anseia pelas oportunidades do sexo, mas ora abusa da prática; implora pelo tempo de descanso, mas com muita frequência se deixa dominar pela preguiça; aspira ao alimento reparador das forças, mas cai cativo dos sabores até o extremo da obesidade; desesperadamente a felicidade persegue, mas apela ao acesso fácil a substâncias que induzem a alegria, até se ver precisar de elementos que produzam o efeito contrário. Da necessidade se vai ao abuso, do abuso ao vício, e deste para a paixão, obsessivamente nutrida na antevisão de sua própria satisfação. Advindo o decesso, o ser padece da abstinência forçada que lhe impõe sua natureza errante - em seguimento a questão 957 de O Livro dos Espíritos, esclarecem o seguinte a Allan Kardec os Espíritos:

Para o Espírito errante, já não há véus. Ele se acha como tendo saído de um nevoeiro e vê o que o distancia da felicidade. Mais sofre então, porque compreende quanto foi culpado. Não tem mais ilusões: vê as coisas na sua realidade.

Quais quadros se pode imaginar para os Espíritos que erram numa infrutífera busca pela satisfação das paixões? Sofrimentos agravados por essa visão da realidade a lhes revelar o quão distantes se encontram da felicidade. Para uma parcela imagina-se constituir alento não mais precisar demandar tempo e esforços a mitigar a fome, a sede, o sono, a imperiosa necessidade de urinar ou defecar, ver-se livre das regras menstruais, enquanto que em mesma medida muitos sentirão falta do sexo, do álcool, do empanzinamento próprio dos glutões, da inércia dos preguiçosos, etc. Arriscamo-nos afirmar que este impulso animal, com base no estudo da Doutrina dos Espíritos, consiste na forma mais primordial de atavismo do Espírito humano sobre a Terra. Não são de per si ruins, visto que elas surgem no andamento natural do progresso do Espírito, até serem expurgadas deste em sua jornada ascendente - mas, tendo em vista a sociedade atual, em que domina o materialismo, a dor, o sofrimento e a infelicidade resultante da satisfação extrema e abusiva das necessidades básicas, e das paixões que seu abuso dimana, vem convidar a um esforço notável suplantá-las o quanto antes. Um esforço notável e bastante meritório, dada a coação por que padece o indivíduo, constrangido por um modus pensandi coletivo que valoriza ao desejo em detrimento a necessidade. Como nunca antes será preciso a consciência de se estar no mundo sem lhe ser um escravo.

Destarte, observemos um último adendo a este tópico para aclarar ainda mais a questão:

970. Em que consistem os sofrimentos dos Espíritos inferiores?
São tão variados como as causas que os determinam e proporcionados ao grau de inferioridade, como os gozos o são ao de superioridade. Podem resumir-se assim: invejarem o que lhes falta para ser felizes e não obterem; veem a felicidade e não na poderem alcançar; pesar, ciúme, raiva, desespero, motivados pelo que os impede de ser ditosos; remorsos, ansiedade moral indefinível. Desejam todos os gozos e não os podem satisfazer: eis o que os tortura.

3.
965. Tem alguma coisa de material as penas e gozos da alma depois da morte?
Não podem ser materiais, di-lo o bom senso, pois que a alma não é matéria. Nada têm de carnal essas penas e esses gozos; entretanto, são mil vezes mais vivos do que os que experimentais na Terra, porque o Espírito, uma vez liberto, é mais impressionável. Então, já a matéria não lhe embota as sensações.

Imagina-se que, para o espírita, a questão da felicidade represente um tema fulcral - e à maneira que é abordado pelo Doutrina, soma maior importância que para o restante da humanidade; conhece-se e compreende-se as consequências das próprias ações para a vida em erraticidade, tanto quanto para as vindouras reencarnações. Não é, portanto, senão imperioso entender o tema em profundidade. Posto que a felicidade e a infelicidade do Espírito nada tem da materialidade da vida física, em que se constituiriam então? Allan Kardec fez já este questionamento aos Espíritos, mas carece de mais:

967. Em que consiste a felicidade dos bons Espíritos?
Em conhecerem todas as coisas; em não sentirem ódio, nem ciúme, nem inveja, nem ambição, nem qualquer das paixões que ocasionam a desgraça dos homens. O amor que os une lhes é fonte de suprema felicidade. Não experimentam as necessidades, nem os sofrimentos, nem as angústias da vida material. São felizes pelo bem que fazem. Contudo, a felicidade dos Espíritos é proporcional à elevação de cada um. Somente os puros Espíritos gozam, é exato, da felicidade suprema, mas nem todos os outros são infelizes. Entre os maus e os perfeitos há uma infinidade de graus em que os gozos são relativos ao estado moral. Os que já estão bastante adiantados compreendem a ventura dos que os precederam e aspiram a alcançá-la. Mas, esta aspiração lhes constitui uma causa de emulação, não de ciúme. Sabem que deles depende o consegui-la e para a conseguirem trabalham, porém com a calma da consciência tranquila e ditosos se consideram por não terem que sofrer o que sofrem os maus.

E se pode suplementar esta riquíssima resposta com o adendo do Codificador a questão 979 de O Livro dos Espíritos:

Goza da felicidade a alma que chegou a um certo grau de pureza. Domina-a um sentimento de grata satisfação. Sente-se feliz por tudo que vê, por tudo o que a cerca. Levanta-se-lhe o véu que encobria os mistérios e as maravilhas da Criação e as perfeições divinas em todo o esplendor lhe aparecem.

Num mundo dominado pelo materialismo, e diante do exposto, pode-se reiterar a questão que dá título ao presente artigo - qual a verdadeira felicidade? Não é a do corpo, da vida material, física; a felicidade verdadeira é a do Espírito, e difere de simplesmente saciar a fome ou a sede. Pelo que foi dado em resposta a questão acima transcrita, a ausência das paixões já é, por si uma grande fonte de plena felicidade, livrando o Espírito de emoções e sentimentos negativos que constituem, para a generalidade dos encarnados na Terra, a infeliz regra. Em seguimento, a união daqueles que hajam atingido este ponto de progresso é, outrossim, uma razão maior de felicidade, bem como a liberdade do que apontamos como o mais primitivo atavismo do Espírito, a prisão das necessidades materiais, e dos sofrimentos que podem ocasionar. Eis que aí notam que a felicidade tem por motor o bem que se possa fazer a outrem, algo raro de se encontrar nas expressões materiais terrenas, principalmente quando tais ações se fazem anonimamente, desprovidas de interesses senão o de aliviar a dor e as aflições alheias. Invulgarmente essa bonomia encontra desconfiança num mundo em que parecer bom tornou-se mais importante que o sê-lo de fato - isto empresta um caráter ainda mais alienígena as prescrições dos Espíritos, e não raro muitos tomam tais palavras como utopias, vindo enfatizar a hegemonia suprema do materialismo no seio da humanidade.

No entanto, sendo relativa a felicidade a infindável gradação dos Espíritos, desde o mais primitivo aos puros em maior nível, para o espírita interessado em saber o que lhe espera após o fenômeno da morte, que alternativas se-lhe apresentam? Muitos apelam para os infelizes quadros dos romances mediúnicos e seus cenários dantescos e terroristas; mas o estudioso sincero e devotado tem à mão O Céu e o Inferno. No capítulo II da Segunda Parte, intitulado Espíritos Felizes, tem o educando dezessete relatos de Espíritos que se viram em condições favoráveis quando libertos em estado de erraticidade - Sr. Sanson, antigo membro da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, que tivera uma morte após longo transcurso de sofrimentos assevera que sua situação é bem-ditosa, achando-se regenerado, renovado, nada mais sentindo das antigas dores. Ao que completou em posteriores evocações: “Não vos atemorize a morte, meus amigos: ela é um estágio da vida, se bem souberdes viver, é uma felicidade, se bem a merecerdes e melhor cumprirdes as vossas provações. Repito: coragem e boa vontade! Não deis mais que medíocre valor aos bens terrenos, e sereis recompensados. Não se pode muito gozar, sem tirar de outrem o bem-estar e sem fazer moralmente um grande, um imenso mal. A terra me seja leve. (...) Sabei que a felicidade, como vós outros a compreendeis, não passa de uma ficção. Vivei sabiamente, santamente, pela caridade e pelo amor, e tereis feito jus a impressões e delícias que o maior dos poetas não saberia descrever.


Ao Sr. Jobard, presidente honorário da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, em espontânea manifestação, coube registrar as impressões vívidas de sua condição em erraticidade, comprazendo-se em afirmar - “Ah! Meus caros amigos, que prazer se experimenta sem o peso do corpo! Quanta alegria no abranger o Espaço!” - ou o bom e obscuro Samuel Philippe que afirmou: “indizível sensação de bem-estar penetrava todo o meu ser, a presença dos que amara alegrava-me sem surpreender, antes parecendo-me natural, como se os encontrasse depois de longa viagem.” Ainda há Van Durst, octogenário de partida para outra esfera, cuja alegria expressou nos seguintes termos: “Que vida nova, meu amigo, nova, brilhante e cheia de ventura! Salve, oh! Salve, eternidade que me conténs em teu seio! Adeus, Terra que por tanto tempo me retiveste afastado do elemento natural da minha alma! Não... eu nada mais de ti queria, porque és a terra do exílio, e a maior das felicidades que dispensas nada vale!” Tem-se a seguir o Espírito Sixdeniers reportado como homem de bem que afirma: “Nada existe aqui de material; tudo fere os sentidos ocultos sem auxílio da vista ou do tato: compreendeis? É uma admiração espiritual que ultrapassa o vosso entendimento, porque não há palavras que a expliquem. (...) Bem feliz foi o meu despertar. A vida é um desses sonhos que, apesar da ideia grosseira que se lhe atribui, só pode ser qualificada de medonho pesadelo.

Surge em seguida, o Dr. Demeure, médico homeopata de grande abnegação e caridade para com os pacientes que a ele acorriam, carentes de recursos e saúde; vivaz e engajado propagandeador da Doutrina dos Espíritos, deu a seguinte mensagem após o decesso: “Ágil como o pássaro que cruza célere os horizontes do vosso céu nebuloso, admiro, contemplo, bendigo, amo e curvo-me, átomo que sou, ante a grandeza e sabedoria do Criador, sintetizadas nas maravilhas que me cercam. Feliz! Feliz na glória! Oh! Quem poderá jamais traduzir a esplêndida beleza da mansão dos eleitos; os céus, os mundo, os sóis e seu concurso na harmonia do universo? (...) Sou feliz e mais feliz do que esperava, gozando de uma lucidez rara entre os Espíritos, relativamente ao tempo da minha desencarnação.” Após Allan Kardec dá espaço aos depoimentos da Sra. Foulon que atesta, após o desencarne haver despertado cercada de bons Espíritos: “Eles prodigalizavam-me cuidados e carícias, ao mesmo tempo que me mostravam no Espaço um ponto algo semelhante a uma estrela, dizendo: 'é para ali que vai conosco, pois já não pertence mais à Terra'. Então, recordei-me; e, apoiada sobre eles, formando um grupo gracioso que se lança para as esferas desconhecidas, mas na certeza de aí achar a felicidade, subimos, à proporção que a estrela se engrandecia...” - outro dos Espíritos que, em estado de felicidade, depara-se com a paga dos sofrimentos migrando para novo mundo, correspondente a seu estado íntimo de progresso.

O Espírito de um médico russo, ao lhe ser perguntado acerca de sua felicidade assim a expressa: “Essa ventura que gozo é uma espécie de contentamento extremo de mim mesmo, não pelos meus merecimentos - o que seria orgulho - e este é predicado de Espíritos atrasados - mas contentamento como que saturado, imerso no amor de Deus, no reconhecimento da sua infinita bondade. Em suma, é a alegria que nos infunde o bem, podendo supor-te ter a seu arbítrio contribuído para o progresso de outros, que se elevaram até o Criador. Ficamos como que identificados com esse bem-estar, que é uma espécie de fusão do Espírito com a bondade divina.” Emma Livry, a última das bailarinas românticas, teve sua roupa de tule incendida em pleno palco, num tempo em que as casas de espetáculos, os salões e os teatros eram iluminados por candeeiros em chamas; suas queimaduras fizeram-na padecer longos oito meses até sua morte por septicemia em 26 de julho de 1863, com apenas 20 anos de idade. Espontaneamente manifestou-se em mensagens as quais algumas palavras se destacam: “Seja resignado se for ferido e diante de Deus que é o criador absoluto, inclinai-vos pela vossa bondade quando Ele vos der um fardo pesado para suportar. Se Ele vos chamar depois de grandes sofrimentos, se nenhum lamento ou murmúrio entrar em vosso coração, vereis como eram poucas essas dores e as penas da Terra, quando percebeis a recompensa que Deus vos reserva.

E a tal maneira seguem os depoimentos colhidos à mesa mediúnica, dispondo de firme propósito o estudioso para, no recolhimento exigido a própria instrução, encontrar um conteúdo riquíssimo na obra de cujos enxertos demos pálidos fragmentos. O que os Espíritos da Codificação vem a Allan Kardec responder encontra eco desde as mais antigas expressões religiosas e escolas filosóficas, até os mais bem intencionados gurus da auto-ajuda contemporâneos - a felicidade é um estado de alma, particular, ao que o Espiritismo complementa afirmando-a como consequência do progresso do ser, progresso esse que se constitui no avolumar do conhecimento, haurido de existência em existência, uma encarnação após outra, ao longo de um dado período mais ou menos longo. Nenhuma experiência sequer deixa de ser para o Espírito, uma causa que permita aspirar novos saberes, novos conhecimentos, que traga por efeito mais discernimento, compreensão e lucidez. Tais mensagens, muitas outras e seus autores, presentes ao longo das mais de oito mil páginas que Allan Kardec dedicou ao Espiritismo deveriam ser, a este movimento de pessoas que se alegam espíritas, tão familiares quanto o são as figuras bíblicas para os crentes da cristandade - nem de longe com a mesma nula e obtusa idolatria, mas com respeito e afeição semelhantes as devotadas as personagens que pela história particular dos indivíduos passa disseminando zelo e fraternal amor. Sim, pois tais mesmos, por seus depoimentos vêm lembrar o espírita diuturnamente que será preciso planificar a vida, e a vida para além da vida. Pois, por que se o homem comum a quem as cousas do Espírito ignora e a morte lhe é fonte de temor, para o espírita deve ser manancial inesgotável de estudos contínuos e, senão de preocupação, de anseios naturais, esperanças e perspectivas que anteveem possibilidades. O Espiritismo necessita ter um fim prático para a vida do Espírito encarnado, muito além do que apenas pode realizar a fluidoterapia, e do que tenha a ofertar a fala mansa de certos palestrantes ou as narrativas chocantes de vis escrevinhadores de além-túmulo - não, o Espiritismo dá o lenitivo fundamental, indicando ao homem sua origem, sua razão de ser, e seu futuro. Eis aí um manual de instruções que vai muito além do alcance do materialismo, destituindo aos pensadores da matéria a condição de meditabundos patéticos que fogem a antevisão da cova a lhes prescrever um grande e vazio nada. Enquanto a alguns homens parece impossível viver um só dia antecipando seu fim inexorável, ao espírita é impossível viver um só dia sem a necessidade de antevê-lo - pois que a morte pode ser a fonte de grandes sofrimentos, mas apenas ela pressagia a verdadeira felicidade.

Sendo a felicidade dos Espíritos inerente às suas qualidades, haurem-na eles em toda parte em que se encontram, seja à superfície da Terra, no meio dos encarnados, ou no Espaço. (...) O mundo espiritual tem esplendores por toda parte, harmonias e sensações que os Espíritos inferiores, submetidos à influência da matéria, não entreveem sequer, e que somente são acessíveis aos Espíritos purificados.


quinta-feira, 26 de março de 2020

Um Mentor Espiritual Incomoda Muita Gente...


1.
Vivem-se dias em que verdades tácitas precisam ser ditas clara e pausadamente, ainda sob risco de faltar a compreensão de muitos - nossas observações firmadas acerca de Chico Xavier e de questões a ele relacionadas, tais como os autores espirituais que por sua prodigiosa mediunidade vieram legar obras que fomentaram e fomentam confusão, em artigos neste espaço publicados, exortaram certas ordens de observações. Ordinariamente foi possível testemunhar quem desejasse, a exemplo do ocorrido ao médium mineiro, ter admoestações cotidianas de parte de seus mentores espirituais. Tais diretas intervenções parecem, aliás, ser da vontade plena de diversos indivíduos, e suspeitamos que o sejam de uma imensa maioria, mesmo dentre os que não se identificam como espíritas. Destes não há o que censurar em abrir mão do livre-arbítrio, mas dos espíritas é de espantar, senão condenar - no entanto, esta prática necromântica, ou seja, a consulta dos mortos para aconselhamento acerca do futuro é antiquíssima, muitos milhares de anos anterior ao surgimento do Espiritismo. É contra esta, aliás, que o legislador hebreu Moisés vem manifestar-se no livro do Deuteronômio, no capítulo 18, versículos de 9 a 12, e o termo usado ali para a condenação da prática é espírito adivinhador (v. 11), deixando claro a presença de tal prática adivinhatória, aquela que pressagia, pressente, desvenda ou descobre antecipadamente fatos ou acontecimentos vindouros. O que prescreve o Espiritismo é bem diverso disto, embora esta necromancia seja imprudente e correntemente levada a efeito em locais e por grupos que se afirmam espíritas. Mais comum ainda é a bibliomancia, em que O Evangelho Segundo o Espiritismo, preferencialmente, é aberto ao acaso, como que movidas suas páginas por uma vontade e inteligência ocultas, a fim de fazer cair num dado capítulo, item ou passagem que caiba ao consultante ou a alguém para quem se pratica tal arte. Estas e demais práticas divinatórias, não seja demasiado redundante registrar, não faz parte das atividades recomendadas pela Doutrina dos Espíritos, sendo seus executores inteira e pessoalmente responsáveis por estas e seus efeitos.

Há um apelo candente na ideia de se conhecer o futuro, embora aqueles que a historiografia notou como capazes de fazê-lo hajam previsto mortes, tragédias e calamidades. A figura nebulosa do médico francês Michel de Nostredame, o Nostradamus, é sempre evocada em tempos incertos e na culminância de hecatombes e fatalidades; o americano Edgar Cayce é outro visionário que tem suas previsões evocadas de quando em vez, para espanto geral, prevendo epidemias e desastres; da Internet, recentemente surgiu a obscura clarividente russa chamada Baba Vanga  que teria previsto a morte de Stalin, o acidente nuclear de Chernobil, os atentados do 11 de setembro e a eleição de Barack Obama a presidência dos EUA - claro, em se tratando da rede mundial de computadores, é difícil comprovar o que de fato ela teria antecipado. Esses e outros tantos alimentam a crença e as superstições, além dos temores mais intestinos das mentes sensíveis, que ora se abstém de ir comprovar se o que lhes alcança é o que fora adivinhado, haja visto que muitos dentre estes profetas usam de linguagem cifrada ou hermética, carecendo de interpretes ou tradutores nem sempre hábeis, ou bem intencionados. Uma questão frequentemente cara aos céticos mais renhidos diz respeito ao fato segundo o qual tais previsões, se reais, seriam a derrogação do livre-arbítrio - contudo, Allan Kardec trata desta questão, outrossim, em A Gênese com sua Teoria da Presciência, ou seja, o conhecimento do futuro. Neste ensaio ele cria a figura de um viajante que, posicionado ao cume de uma alta montanha é capaz de ver ao longe o caminho pelo qual vai um peregrino, antevendo na distância o que aguarda a este adiante - pudesse o que está acima comunicar do que há no porvir, parecerá prever o futuro do que está embaixo. Desta forma, o professor conclui:

Bem se compreende, pois, que, de conformidade com o grau de sua perfeição, possa um Espírito abarcar um período de alguns anos, de alguns séculos, mesmo de muitos milhares de anos, porquanto, que é um século em face do infinito? Diante dele, os acontecimentos não se desenrolam sucessivamente, como os incidentes da estrada diante do viajor: ele vê simultaneamente o começo e o fim do período; todos os eventos que, nesse período, constituem o futuro para o homem da Terra são o presente para ele, que poderia então vir dizer-nos com certeza: tal coisa acontecerá em tal época, porque essa coisa ele a vê como o homem da montanha vê o que espera o viajante no curso da viajem. Se assim não procede, é porque poderia ser prejudicial ao homem o conhecimento do futuro, conhecimento que lhe pearia o livre-arbítrio, paralisá-lo-ia no trabalho que lhe cumpre executar a bem do seu progresso.

O caminho traçado ao viajante é como que a linha indelével ascendente do progresso do Espírito, e a um outro Espírito que está muito acima deste hipotético que se lhe está abaixo, vê-lo em sua trajetória será como que antever, precisamente, suas ações, seus próximos passos, assim como um pai é capaz de antever as ações de um filho porque o conhece em profundidade. Não obstante, aos pais compete fatalmente confiar haver dado o melhor sustentáculo moral e espiritual aos filhos, a fim que estes fruam pela vida por seus próprios esforços, cometendo de per si os atos que resultarão desdobramentos ora positivos, ora negativos, cujos quais lhes caberá inteira responsabilidade. Saber o que resultará amanhã os passos dados hoje parece um alento, cuja tentação abarrota em todos os lugares, as mais disparatadas sessões mediúnicas, numa irresponsável prática da necromancia. Em complemento a questão 871 de O Livro dos Espíritos, Allan Kardec vem lucidamente esclarecer acerca dos efeitos do conhecimento do futuro:

Quanto mais se reflete nas consequências que teria para o homem o conhecimento do futuro, melhor se vê quanto foi sábia a Providência em lho ocultar. A certeza de um acontecimento venturoso o lançaria na inação. A de um acontecimento infeliz o encheria de desânimo. Em ambos os casos, suas forças ficariam paralisadas. Daí o não lhe ser mostrado o futuro, senão como meta que lhe cumpre atingir por seus esforços, mas ignorando os trâmites por que terá de passar para alcançá-la. O conhecimento de todos os incidentes da jornada lhe tolheria a iniciativa e o uso do livre-arbítrio. Ele se deixaria resvalar pelo declive fatal dos acontecimentos, sem exercer suas faculdades. Quando o feliz êxito de uma coisa está assegurado, ninguém mais com ela se preocupa.

2.
A presciência guarda este caráter extraordinário para as massas ignorantes, tanto quanto para certos espiritualistas que, equivocadamente creem ser espíritas - e embora estes últimos venham apelar as vozes de além-túmulo para conhecer o porvir, a generalidade dos homens sobre a Terra busca, com pontuais e anonimas exceções, guiar-se por intermédio de práticas divinatórias, sendo o horóscopo diário a mais ordinária de suas expressões. Não há nenhum equívoco em desejar um conselho, uma orientação, a voz de uma experiência superior quando diante de uma decisão difícil a ser tomada - é tal tarefa, aliás, que cabe aos Espíritos guia, os benfeitores espirituais. Imaginar ou almejar, porém, que estes Espíritos decretem como exatos um futuro venturoso, é por-se na condição de um ingênuo pronto a ser ludibriado. As seguintes questões de O Livro dos Espíritos tratam dos guias:

491. Qual a missão do Espírito protetor?
A de um pai com relação aos filhos; a de guiar o seu protegido pela senda do bem, auxiliá-lo com seus conselhos, consolá-lo nas suas aflições, levantar-lhe o ânimo nas provas da vida.

501. Por que é oculta a ação dos Espíritos sobre a nossa existência e por que, quando nos protegem, não o fazem de modo ostensivo?
Se vos fosse dado contar sempre com a ação deles, não obraríeis por vós mesmos e o vosso Espírito não progrediria. Para que este possa adiantar-se, precisa de experiência, adquirindo-a frequentemente à sua custa. É necessário que exercite suas forças, sem o que seria como a criança a quem não consentem que ande sozinha. A ação dos Espíritos que vos querem bem é sempre regulada de maneira que não tolha o livre-arbítrio, porquanto se não tivésseis responsabilidade, não avançaríeis na senda que vos há de conduzir a Deus. Não vendo quem o ampara, o homem se confia às suas próprias forças. Sobre ele, entretanto, vela o seu guia e, de tempos em tempos, lhe brada, advertindo-o do perigo.

Esta última questão, a propósito, resulta num comprovante mais da atuação anômala de Emmanuel, a que já foi detidamente tratada em artigos anteriores aqui publicados. Não nos furtamos, uma vez mais, vir transcrever as lições de Allan Kardec e dos Espíritos da Codificação acerca deste tema - em O Céu e o Inferno, em seu capítulo X, Intervenção dos Demônios nas Modernas Manifestações, pode-se apreciar o seguinte:

Que mérito teríamos nós se, para tudo saber, apenas bastasse interrogar os Espíritos? Por esse preço, todo imbecil poderia tornar-se sábio.

Do mesmo tomo, no capítulo VII, As Penas Futuras Segundo o Espiritismo, encontra-se:

Quaisquer que sejam a inferioridade e perversidade dos Espíritos, Deus jamais os abandona. Todos têm seu anjo da guarda (guia) que por eles vela, espreita-lhes os movimentos da alma, e se esforçam por suscitar-lhes bons pensamentos, desejosos de progredir, de reparar em uma nova existência o mal que praticaram. Contudo, essa interferência do guia faz-se quase sempre ocultamente e de modo a não haver pressão, pois que o Espírito deve progredir por impulso da própria vontade, nunca por qualquer sujeição.

Ou ainda, em O Livro dos Médiuns, item 303, há a passagem:

Se os homens não tivessem mais do que se dirigirem aos Espíritos para tudo saberem, estariam privados do livre-arbítrio e fora do caminho traçado por Deus à Humanidade. O homem deve agir por si mesmo. Deus não manda os Espíritos para que lhe achanem a estrada material da vida, mas para que lhe preparem a do futuro.

Ainda que o sentido à tez da pele por Chico Xavier não lidou diretamente com quaisquer previsões mirabolantes acerca de seu futuro, as intervenções empreendidas por Emmanuel no curso de tolher o livre-arbítrio deste foram além de consentidas, foram desejadas, exortadas e esperadas. Nem a doença, nem o cansaço, nem o comum das expressões da vida humana na Terra podiam desviar Chico Xavier de prosseguir trabalhando, psicografando, atendendo aos necessitados que para si acorriam com toda sorte de adversidade a afligir-lhes. O médium mineiro pôs-se aos caprichos de um Espírito que por ele, coagiu a seguir caminhos, constrangeu a tomar ações e atitudes, mesmo que lhe fosse contrário ao arbítrio. Tal relação em que a sujeição de um frente a dominação do outro urdiram um harmônico encadeamento com um fim que, em retrospecto, é conhecido e reconhecido, encontra muitos apoiadores e aderentes, que sob os mais diversos e absurdos argumentos defendem tudo quanto a biografia de Chico Xavier registrou. Subsiste firmemente a ideia segundo a qual o médium era um Espírito missionário, o que aponta a necessidade de coagir por parte de Emmanuel. Mas eis que a lógica se estabelece contra tal pressuposto, indicando para efeito didático, contrapor o momento em que Allan Kardec, de fato um Espírito missionário, fora convidado a assumir sua imensa tarefa, e o modo por que Chico Xavier fora impelido por Emmanuel ao trabalho de servir a registrar um mundo de obras equivocadas, cujos erros foram já alvo de artigos passados. De mais a mais, quem assim crê, demonstra desconhecer as funções de um benfeitor espiritual, bem como carece de maior estudo em relação ao livre-arbítrio, tanto quanto aos aspectos da vida do médium mineiro - o fato de alguns, ou muitos indivíduos terem sido tocados pessoalmente pela obra deste, ou terem sido levados ao Espiritismo por estas, não é o indicativo senão da confusão e deturpação aí contidas. O que ganha o Espiritismo em ter aderentes que se encontram presos por uma divida de gratidão que cega, afeitos ao desmedido das emoções e não a retidão da lógica racional?

3.
As duas questões que abrem o seguimento anterior pintam a figura dos benfeitores espirituais como pais; em complemento a questão 495 de O Livro dos Espíritos, São Luís e Santo Agostinho tecem outra imagem igualmente calorosa e receptiva:

Oh! Interrogai os vossos anjos guardiães; estabelecei entre eles e vós essa terna intimidade que reina entre os melhores amigos. Não penseis em lhes ocultar nada, pois que eles têm o olhar de Deus e não podeis enganá-los. Pensai no futuro; procurai adiantar-vos na vida presente. Assim fazendo, encurtarei vossas provas e mais felizes tornareis as vossas existências. Vamos, homens, coragem! De uma vez por todas, lançai para longe todos os preconceitos e ideias preconcebidas. Entrai na nova senda que diante dos passos se vos abre. Caminhai! Tendes guias, segui-os, que a meta não vos pode faltar, porquanto essa meta é o próprio Deus. (...) Não vos parece grandemente consoladora a ideia de terdes sempre junto de vós seres que vos são superiores, prontos sempre a vos aconselhar e amparar, a vos ajudar na ascensão da abrupta montanha do bem; mais sinceros e dedicados amigos do que todos os que mais intimamente se vos liguem na Terra?

Num mundo em que o materialismo é a tônica, tais palavras acerca dos benfeitores espirituais soam anacrônicas - que homens de fato podem analisar os próprios pensamentos e ações e afirmar que avançaram irreprochavelmente na senda do bem, que não faltaram uma só vez e dedicaram todo seu ser ao progresso e satisfação de seus pares? O superlativo chamamento da vida, transfigurado na oculta presença dos benfeitores espirituais pede um rumo diverso do entendido pelas massas agônicas que hora se debatem sobre a Terra. A felicidade do homem é o mesmo gozo do animal, da satisfação das necessidades do corpo, do descanso necessário, de suprir a fome que atordoa e a sede que esgota, de fruir do sexo e de prazeres fugazes - a felicidade espiritual é uma quimera que não atrai, a fé no futuro é letra morta nos Evangelhos, a promessa do Reino de Deus é um distante e caduco voto. O que importa é contentar agora, imediatamente. Diante disto a sentença que versa que Deus não manda os Espíritos para que lhe achanem a estrada material da vida, mas para que lhe preparem a do futuro parecem escritas em indecifrável idioma - nem mesmo aqueles que se propõem espíritas parecem prontos a compreender tal fato. Menos ainda dispostos estão a mudança de postura consciente exigida para avançar por este caminho.

Somente aí, em insuflar a bonomia, é que se irmana a postura de Emmanuel a dos guias espirituais; todavia, em que se prestem a toda assistência que podem remotamente dar, instando bom ânimo, orientando e guiando aos esforços sinceros na senda do progresso, nenhum guia espiritual há que pressionar seu protegido, constranger ou mesmo ameaçar, indo contra o livre-arbítrio deste. E aí é que pesam os fatos contra o mentor de Chico Xavier - o modo como operou atenta contra o bom senso e contra os postulados espíritas. Caberá ao leitor se questionar, ao fazer uma análise pessoal e íntima, se tem as disposições particulares do médium mineiro para suportar um mentor espiritual, presente, atuante e ostensivamente autoritário, que o impedirá de descansar, de recuperar-se de uma moléstia, de faltar aos compromissos assumidos por razões judiciosas, de fruir conversas vãs ou sequer aprender a tocar um instrumento musical. O capiau interiorano suportou isto e muito mais ao longo de mais de setenta anos, como bem se pode ler em qualquer de suas biografias disponíveis. Quererão insistir em afirmar a missão de Chico Xavier como forma de indultar Emmanuel, ou a solicitar averiguar o resultado prático de tal aberrante relação, qual seja os mais de quatro centenas de livros psicografados, quando de fato o conteúdo destes não transforma o médium mineiro em um Espírito missionário, menos ainda Emmanuel em um benfeitor espiritual. E disto já tratamos com riqueza de minucias em artigos aqui publicados no ano de 2019, e que estão prontos a apreciação de qualquer interessado.

O que se pode concluir diante disto? Que Emmanuel não fora um guia espiritual, tampouco que haja Chico Xavier sido tão bom quanto lhe supre o mito - a este pormenor, a propósito, dão as ações de bonomia do médium muito mais um caráter publicitário do que sincero. Chico Xavier não poderia ter desejado marqueteiro melhor.

Destarte, para este mar sem fim de cabeças humanas que deambulam em busca da felicidade, desta mesma felicidade de contornos materialistas, resta aos que aí, acompanhando a marcha aspiram e pressentem a vida como uma fenômeno muito mais amplo, debruçar esforços ao estudo de doutrinas espiritualistas, das quais o Espiritismo é senão, para nós outros, o expoente máximo - e de seu Codificador, o professor Allan Kardec, surge uma voz de ânimo desde mais de cento e cinquenta anos passados, instando a um fim que o futuro reserva a todos:

Todos os Espíritos, mais ou menos bons, quando encarnados, constituem a espécie humana e, como o nosso mundo é um dos menos adiantados, nele se conta maior número de Espíritos maus do que de bons. Tal a razão por que aí vemos tanta perversidade. Façamos, pois, todos os esforços para a este planeta não voltarmos, após a presente estada, e para merecermos ir repousar em mundo melhor, em um desses mundos privilegiados, onde não nos lembraremos da nossa passagem por aqui, senão como de um exílio temporário.