sexta-feira, 3 de abril de 2020

Qual a Verdadeira Felicidade?


Todo homem experimenta a necessidade de viver, de gozar, de amar e ser feliz. Dizei ao moribundo que ele viverá ainda; que a sua hora é retardada; dizei-lhe sobretudo que será mais feliz do que porventura o tenha sido, e o seu coração rejubilará.” - O Céu e o Inferno, cap. I da Primeira Parte

1.
O materialismo venceu! Desde a Academia e seu aglomerado de sábios até os simplórios campônios sob as condições mais recônditas e insulares da nação, a doutrina materialista fez escola, espargiu-se por entre as gentes com tal habilidade e sucesso que coube ao Espiritismo o ostracismo, urrando a realidade da vida espiritual numa multidão de surdos. Não há que enganar-se imaginar que os caracteres de tal vertente cruza o movimento espírita brasileiro com dificuldade, ou que sequer o faça, sendo seus aderentes imunes a estes - muito ao contrário. Sorrateiramente, desde o princípio, o materialismo se avizinhava do Espiritismo, o assediou até maculá-lo, senão em sua teoria, na prática dos que alegam seguir-lhes os fundamentos.

Jean Baptiste Roustaing, desprovido de critérios, e messianicamente, por meio da médium Émilie Collignon, deu-se a coordenar uma série de comunicações mediúnicas que compuseram a obra Os Quatro Evangelhos, cognominado Espiritismo Cristão ou A Revelação da Revelação. Mais que trazer alegações estapafúrdias quanto a natureza do corpo de Jesus, numa retomada do Docetismo herético do medievo, ou da defesa da ideia anti-espírita segundo a qual os Espíritos podem involuir, o dano mais agudo legado por Roustaing é sua metodologia, ou falta dela. Numa crença cega diante das mensagens dos mortos, tudo foi crido como verdadeiro, como expressão da realidade. Não se levantaram questionamentos, não se objetaram os conteúdos das mensagens, não se discutiram sua razão de ser, a que fim se pretendiam e pretendem. Como outrora procedeu o magistrado, o espírita brasileiro age sem método, sem processo, sem um sistema orientador, recebendo desmazeladamente toda e qualquer mensagem espiritual como a expressão cabal da verdade. Não há análise, não há dúvida; há apenas a antevisão de trazer a lume um novo volume, que alcançará o leitor por um preço maior que seu valor venal, fomentando ideias equivocadas, insuflando terror, deturpando ao Espiritismo e explorando a fé alheia; uma fé religiosa, e não uma fé raciocinada, que se registre.

Entretanto, a responsabilidade de Roustaing acerca do que deu posteridade é partilhada por este movimento espírita brasileiro, e por cada espírita que nele se reconhece, principalmente por que Allan Kardec não dispôs a Doutrina dos Espíritos sem recursos no sentido de averiguar-se tudo quanto ditam os Espíritos - muito ao contrário, posto que desde o princípio preocupou-se com esta porta escancarada a dar passagem para qualquer um. Lavrou a questão, contudo, de modo mais assertivo na Introdução de O Evangelho Segundo o Espiritismo, com o Controle Universal dos Ensinamentos dos Espíritos. Quem se aventurou em seguir-lhe as instruções, em averiguar segundo tais regras as palavras de além-túmulo? Tendo em vista a imensurável bibliografia que sob a signa de literatura espírita se produziu e se produz, certamente poucos o fizeram e fazem. Para aqueles que argumentarão contra é preciso recordar: Roustaing lançou sua obra em 1866, enquanto que O Evangelho Segundo o Espiritismo já estava à disposição em 1864 - o advogado bordelês, porém, não o leu, ou ao menos não alegou tê-lo feito nos documentos por nós compulsados. Para efeito de registro ele alegou haver posto olhos apenas em O Livro dos Espíritos e O Livro dos Médiuns. Para aqueles que empreenderam em semelhante prática, havendo recebido mensagens e ou narrativas de origem espiritual, e que se alegam espíritas, é imperdoável que não hajam seguido estritamente as instruções dadas pelo professor.

Graças a disposição íntima de crer sem raciocinar, não é equivocado afirmar que este movimento espírita brasileiro é, antes, um movimento roustaiguista, por adotar-lhe a falta de sistema, de um critério para julgar as mensagens espirituais, ignorando completamente a Allan Kardec. Eis pois, por que afirmamos diuturnamente que este movimento espírita é ilegítimo. E, outrossim, por que sobrevivem consensualmente a idolatria a médiuns e personalidades, por que se aceita bovinamente a obra de Espíritos claramente pseudo-sábios e, por que vicejam as ideias e ideologias destes. O que se tem é o pastiche, o simulacro. O conceito de Colônias Espirituais é um distintivo exemplo do materialismo fincando bandeira onde, teoricamente, jamais o poderia. Deturpado ou corrompido o fundamento da erraticidade, o Espiritismo se desintegra e o que resta é crença cega na doutrina de um só Espírito.

Considerando-se o fato de que cada ser vivente na matéria se encaminha inexoravelmente para o fenômeno da morte, seria de bom senso que o que está por vir, caso se creia que algo sobrevive ao decesso, fosse questão candente. Dotado de capacidade cognitiva única, a criatura humana pôde aventar teorias ao longo de sua trajetória, e por milênios a dualidade espírito/matéria esteve no centro das disciplinas do conhecimento. Porém, o materialismo foi se robustecendo a cada novo mestre da matéria, em sistemas filosóficos intrincados e, frequentemente, herméticos - entretanto, o homem comum não se mostra disposto a apreciar as teorias do materialismo em seu apogeu; no seu imo calam profundamente os velhos questionamentos acerca da existência, de sua natureza, de sua razão de ser e do que o espera o futuro. Acaso a Academia e sua agremiação de sábios astênicos se perde na retórica bela e vazia, a religião não dá sinais mais promissores no sentido de fomentar uma cultura do Espírito. Os tele-evangelistas pregam a teologia da prosperidade, insuflando a barganha com a divindade num paradigma deísta primitivo e materialista; quando não incorrem aos mesmos procederes dos palestrantes que se espalham pelos supostos centros espíritas da nação, vertidos em gurus da auto-ajuda.

Mas o que tem a felicidade do ser a ver com isto? A matéria pode ser o foco motriz do sofrimento dos Espíritos, ou melhor dito, o apego a matéria, traduzido pelo vocábulo materialismo, pode ser o âmago do sofrimento espiritual. Parece parte da necessidade do progresso do Espírito compreender o limite entre a materialidade do mundo físico, e a espiritualidade do mundo pós-físico, ou dito de modo espírita, do mundo espiritual, ou mundo espírita. Não há melhor tradução para isto do que a doutrina de Jesus de Nazaré, que pode ser sintetizada na frase estar no mundo sem ser escravo dele. Falando e atuando segundo esta singela, ainda que complexa sentença, Jesus veio dar o demonstrativo máximo de tudo quanto pregou e fez ao morrer - sua aparição posterior, em meio a seus adeptos tinha este único e assertivo objetivo, ou seja, demonstrar a existência e sobrevivência do ser espiritual, mas também afirmá-lo como ser principal, sendo sua expressão física senão uma frágil e fugidia manifestação. Assim de pode compreender melhor, portanto, o papel do Espiritismo, que veio reiterar a doutrina de Jesus, atando a ela novas revelações acerca da origem do Espírito, de sua razão de ser, de seu destino, do que há para além do mundo físico, e das razões pelas quais não se deve deixar este apegar-se aquele. O materialismo que passou a preconizar o Jesus ressurreto, renascido em carne e sangue, pôs abaixo sua doutrina, distorceu-a e criou a cristandade que, muito distante de professar o espiritualismo, mais se aprofunda na valorização da matéria. A questão 1018 de O Livro dos Espíritos resume bem a isto:

1018. Em que sentido se devem entender estas palavras do Cristo: Meu reino não é deste mundo?
Respondendo assim, o Cristo falava em sentido figurado. Queria dizer que o seu reinado se exerce unicamente sobre os corações puros e desinteressados. Ele está onde quer que domine o amor do bem. Ávidos, porém, das coisas deste mundo e apegados aos bens da Terra, os homens com ele não estão.

2.
O coração humano é um cálice cheio de lágrimas”, já o expressara o Espírito Georges na edição de junho de 1860 da Revista Espírita, em texto intitulado Miséria Humana - este conceito ancestral refere-se em sua acepção mais ampla, a condição do Espírito humano encarnado na Terra. Não se constitui grande dificuldade a ninguém enumerar as razões pelas quais a expressão da vida humana no planeta não é idílica; qualquer indivíduo conhece as aflições que atingem o homem. Levando-se em conta as múltiplas existências do Espírito, não há que excluir um só que não tenha sofrido, que não haja sentido na própria tessitura do ser a dor, as angústias morais, a antevisão da debilidade, os tormentos da perda da saúde, a profundidade das tristezas, os agônicos padecimentos, os estados depressivos, a indigência da exclusão e da escassez absoluta das necessidades básicas.

A leitura das Obras Básicas esclarece em tantos seguimentos as razões da miséria humana que vir neste ponto transcrevê-las seria praticamente copiá-las quase na íntegra - mas se há uma só razão, ou antes uma palavra que resuma in totum o âmago das dores humanas é esta a paixão. Não paixão no sentido que a escola romântica lhe dá, mas num aspecto mais amplo, no apego aos excessos, na expressão das exaltações dos sentidos e dos sentimentos, da emotividade extremada e do apetite ardente por pessoas, coisas ou experiências - algo que a Psicanálise resumiria na palavra desejo, ou que o Budismo chama de Trishna (a sede insaciável dos desejos humanos, e causa do sofrimento). E aqui tem-se uma vez mais a argumentação materialista que, contrariando as instruções espirituais, versa que o homem, desde suas primeiras idades pré-históricas existindo numa vida violenta e mortal, foi induzido a satisfazer de imediato as necessidades do corpo, tornando-se um oportunista em relação a saciar-se, tendo em vista que o amanhã não poderia dar-lhe garantia de cousa alguma. Isto é compreensível do ponto de vista físico, mas o homem não é apenas isto - parte de si criou, ao ir contra este impulso, com organização e disciplina, a previdência para os dias vindouros. Sai ele então do nomadismo, passa a domesticar formas de vida vegetais e animais, criando a agricultura e a agropecuária; vive em assentamentos com muitos indivíduos, precisa então de leis para regrar a vida em comunidade... Enfim, a saga humana na Terra é por reprimir em si estes condicionamentos primevos, para abandonar seu feitio animal em busca de assumir-se por sua natureza primeira, a espiritual, num processo que deve, antes, ser natural e espontâneo. Foram certos aspectos deste carácter humano que, reprimidos em demasia pela sociedade do século XIX vieram por suas mais sofridas consequências fundamentar em parte o nascimento da Psicanálise.

N'O Livro dos Espíritos, em o Ensaio Teórico da Sensação nos Espíritos, Allan Kardec refere-se as paixões pelos seguintes dizeres:

Os sofrimentos deste mundo independem, algumas vezes, de nós; muito mais vezes, contudo, são devidos à nossa vontade. Remonte cada um à origem deles e verá que a maior parte de tais sofrimentos são efeitos de causas que teria sido possível evitar. Quantos males, quantas enfermidades não deve o homem aos seus excessos, à sua ambição, numa palavra: às suas paixões? Aquele que sempre vivesse com sobriedade, que de nada abusasse, que fosse sempre simples nos gostos e modesto nos desejos, a muitas tribulações se forraria. O mesmo se dá com o Espírito. Os sofrimentos por que passa são sempre a consequência da maneira por que viveu na Terra.

Os Espíritos da Codificação, entretanto, são austeros e incisivos, parecendo optar pela renúncia e ascetismo ao equilíbrio do Codificador aqui expresso; da seguinte forma eles lhe respondem:

968. Citais, entre as condições da felicidade dos bons Espíritos, a ausência das necessidades materiais. Mas, a satisfação dessas necessidades não representa para o homem uma fonte de gozos?
Sim, gozo do animal. Quando não podes satisfazer a essas necessidades, passas por uma tortura.

E pode-se supor que prefiram a abstinência, justamente por conhecerem desde há muito aos piores efeitos do gozo animal satisfeito:

972. Como procedem os maus Espíritos para tentar os outros Espíritos, não podendo jogar com as paixões?
As paixões não existem materialmente, mas existem no pensamento dos Espíritos atrasados. Os maus dão pasto a esses pensamentos, conduzindo suas vítimas aos lugares onde se lhes ofereça o espetáculo daquelas paixões e de tudo o que as possa excitar.

972A. Mas, de que servem essas paixões, se já não têm objeto real?
Nisso precisamente é que lhes está o suplício: o avarento vê ouro que lhe não é dado possuir; o devasso, orgias em que não pode tomar parte; o orgulhoso, honras que lhe causam inveja e de que não pode gozar.

O contentamento humano é a satisfação das necessidades físicas - porém, não raramente o que até então poderia ser pautado pelo comedimento e frugalidade torna-se, em decorrência da compulsão das personalidades em vício, sob as mais trôpegas e escusas justificativas. O homem se rejubila ao poder satisfazer a sede, mas também se entorpece de alcaloides; anseia pelas oportunidades do sexo, mas ora abusa da prática; implora pelo tempo de descanso, mas com muita frequência se deixa dominar pela preguiça; aspira ao alimento reparador das forças, mas cai cativo dos sabores até o extremo da obesidade; desesperadamente a felicidade persegue, mas apela ao acesso fácil a substâncias que induzem a alegria, até se ver precisar de elementos que produzam o efeito contrário. Da necessidade se vai ao abuso, do abuso ao vício, e deste para a paixão, obsessivamente nutrida na antevisão de sua própria satisfação. Advindo o decesso, o ser padece da abstinência forçada que lhe impõe sua natureza errante - em seguimento a questão 957 de O Livro dos Espíritos, esclarecem o seguinte a Allan Kardec os Espíritos:

Para o Espírito errante, já não há véus. Ele se acha como tendo saído de um nevoeiro e vê o que o distancia da felicidade. Mais sofre então, porque compreende quanto foi culpado. Não tem mais ilusões: vê as coisas na sua realidade.

Quais quadros se pode imaginar para os Espíritos que erram numa infrutífera busca pela satisfação das paixões? Sofrimentos agravados por essa visão da realidade a lhes revelar o quão distantes se encontram da felicidade. Para uma parcela imagina-se constituir alento não mais precisar demandar tempo e esforços a mitigar a fome, a sede, o sono, a imperiosa necessidade de urinar ou defecar, ver-se livre das regras menstruais, enquanto que em mesma medida muitos sentirão falta do sexo, do álcool, do empanzinamento próprio dos glutões, da inércia dos preguiçosos, etc. Arriscamo-nos afirmar que este impulso animal, com base no estudo da Doutrina dos Espíritos, consiste na forma mais primordial de atavismo do Espírito humano sobre a Terra. Não são de per si ruins, visto que elas surgem no andamento natural do progresso do Espírito, até serem expurgadas deste em sua jornada ascendente - mas, tendo em vista a sociedade atual, em que domina o materialismo, a dor, o sofrimento e a infelicidade resultante da satisfação extrema e abusiva das necessidades básicas, e das paixões que seu abuso dimana, vem convidar a um esforço notável suplantá-las o quanto antes. Um esforço notável e bastante meritório, dada a coação por que padece o indivíduo, constrangido por um modus pensandi coletivo que valoriza ao desejo em detrimento a necessidade. Como nunca antes será preciso a consciência de se estar no mundo sem lhe ser um escravo.

Destarte, observemos um último adendo a este tópico para aclarar ainda mais a questão:

970. Em que consistem os sofrimentos dos Espíritos inferiores?
São tão variados como as causas que os determinam e proporcionados ao grau de inferioridade, como os gozos o são ao de superioridade. Podem resumir-se assim: invejarem o que lhes falta para ser felizes e não obterem; veem a felicidade e não na poderem alcançar; pesar, ciúme, raiva, desespero, motivados pelo que os impede de ser ditosos; remorsos, ansiedade moral indefinível. Desejam todos os gozos e não os podem satisfazer: eis o que os tortura.

3.
965. Tem alguma coisa de material as penas e gozos da alma depois da morte?
Não podem ser materiais, di-lo o bom senso, pois que a alma não é matéria. Nada têm de carnal essas penas e esses gozos; entretanto, são mil vezes mais vivos do que os que experimentais na Terra, porque o Espírito, uma vez liberto, é mais impressionável. Então, já a matéria não lhe embota as sensações.

Imagina-se que, para o espírita, a questão da felicidade represente um tema fulcral - e à maneira que é abordado pelo Doutrina, soma maior importância que para o restante da humanidade; conhece-se e compreende-se as consequências das próprias ações para a vida em erraticidade, tanto quanto para as vindouras reencarnações. Não é, portanto, senão imperioso entender o tema em profundidade. Posto que a felicidade e a infelicidade do Espírito nada tem da materialidade da vida física, em que se constituiriam então? Allan Kardec fez já este questionamento aos Espíritos, mas carece de mais:

967. Em que consiste a felicidade dos bons Espíritos?
Em conhecerem todas as coisas; em não sentirem ódio, nem ciúme, nem inveja, nem ambição, nem qualquer das paixões que ocasionam a desgraça dos homens. O amor que os une lhes é fonte de suprema felicidade. Não experimentam as necessidades, nem os sofrimentos, nem as angústias da vida material. São felizes pelo bem que fazem. Contudo, a felicidade dos Espíritos é proporcional à elevação de cada um. Somente os puros Espíritos gozam, é exato, da felicidade suprema, mas nem todos os outros são infelizes. Entre os maus e os perfeitos há uma infinidade de graus em que os gozos são relativos ao estado moral. Os que já estão bastante adiantados compreendem a ventura dos que os precederam e aspiram a alcançá-la. Mas, esta aspiração lhes constitui uma causa de emulação, não de ciúme. Sabem que deles depende o consegui-la e para a conseguirem trabalham, porém com a calma da consciência tranquila e ditosos se consideram por não terem que sofrer o que sofrem os maus.

E se pode suplementar esta riquíssima resposta com o adendo do Codificador a questão 979 de O Livro dos Espíritos:

Goza da felicidade a alma que chegou a um certo grau de pureza. Domina-a um sentimento de grata satisfação. Sente-se feliz por tudo que vê, por tudo o que a cerca. Levanta-se-lhe o véu que encobria os mistérios e as maravilhas da Criação e as perfeições divinas em todo o esplendor lhe aparecem.

Num mundo dominado pelo materialismo, e diante do exposto, pode-se reiterar a questão que dá título ao presente artigo - qual a verdadeira felicidade? Não é a do corpo, da vida material, física; a felicidade verdadeira é a do Espírito, e difere de simplesmente saciar a fome ou a sede. Pelo que foi dado em resposta a questão acima transcrita, a ausência das paixões já é, por si uma grande fonte de plena felicidade, livrando o Espírito de emoções e sentimentos negativos que constituem, para a generalidade dos encarnados na Terra, a infeliz regra. Em seguimento, a união daqueles que hajam atingido este ponto de progresso é, outrossim, uma razão maior de felicidade, bem como a liberdade do que apontamos como o mais primitivo atavismo do Espírito, a prisão das necessidades materiais, e dos sofrimentos que podem ocasionar. Eis que aí notam que a felicidade tem por motor o bem que se possa fazer a outrem, algo raro de se encontrar nas expressões materiais terrenas, principalmente quando tais ações se fazem anonimamente, desprovidas de interesses senão o de aliviar a dor e as aflições alheias. Invulgarmente essa bonomia encontra desconfiança num mundo em que parecer bom tornou-se mais importante que o sê-lo de fato - isto empresta um caráter ainda mais alienígena as prescrições dos Espíritos, e não raro muitos tomam tais palavras como utopias, vindo enfatizar a hegemonia suprema do materialismo no seio da humanidade.

No entanto, sendo relativa a felicidade a infindável gradação dos Espíritos, desde o mais primitivo aos puros em maior nível, para o espírita interessado em saber o que lhe espera após o fenômeno da morte, que alternativas se-lhe apresentam? Muitos apelam para os infelizes quadros dos romances mediúnicos e seus cenários dantescos e terroristas; mas o estudioso sincero e devotado tem à mão O Céu e o Inferno. No capítulo II da Segunda Parte, intitulado Espíritos Felizes, tem o educando dezessete relatos de Espíritos que se viram em condições favoráveis quando libertos em estado de erraticidade - Sr. Sanson, antigo membro da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, que tivera uma morte após longo transcurso de sofrimentos assevera que sua situação é bem-ditosa, achando-se regenerado, renovado, nada mais sentindo das antigas dores. Ao que completou em posteriores evocações: “Não vos atemorize a morte, meus amigos: ela é um estágio da vida, se bem souberdes viver, é uma felicidade, se bem a merecerdes e melhor cumprirdes as vossas provações. Repito: coragem e boa vontade! Não deis mais que medíocre valor aos bens terrenos, e sereis recompensados. Não se pode muito gozar, sem tirar de outrem o bem-estar e sem fazer moralmente um grande, um imenso mal. A terra me seja leve. (...) Sabei que a felicidade, como vós outros a compreendeis, não passa de uma ficção. Vivei sabiamente, santamente, pela caridade e pelo amor, e tereis feito jus a impressões e delícias que o maior dos poetas não saberia descrever.


Ao Sr. Jobard, presidente honorário da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, em espontânea manifestação, coube registrar as impressões vívidas de sua condição em erraticidade, comprazendo-se em afirmar - “Ah! Meus caros amigos, que prazer se experimenta sem o peso do corpo! Quanta alegria no abranger o Espaço!” - ou o bom e obscuro Samuel Philippe que afirmou: “indizível sensação de bem-estar penetrava todo o meu ser, a presença dos que amara alegrava-me sem surpreender, antes parecendo-me natural, como se os encontrasse depois de longa viagem.” Ainda há Van Durst, octogenário de partida para outra esfera, cuja alegria expressou nos seguintes termos: “Que vida nova, meu amigo, nova, brilhante e cheia de ventura! Salve, oh! Salve, eternidade que me conténs em teu seio! Adeus, Terra que por tanto tempo me retiveste afastado do elemento natural da minha alma! Não... eu nada mais de ti queria, porque és a terra do exílio, e a maior das felicidades que dispensas nada vale!” Tem-se a seguir o Espírito Sixdeniers reportado como homem de bem que afirma: “Nada existe aqui de material; tudo fere os sentidos ocultos sem auxílio da vista ou do tato: compreendeis? É uma admiração espiritual que ultrapassa o vosso entendimento, porque não há palavras que a expliquem. (...) Bem feliz foi o meu despertar. A vida é um desses sonhos que, apesar da ideia grosseira que se lhe atribui, só pode ser qualificada de medonho pesadelo.

Surge em seguida, o Dr. Demeure, médico homeopata de grande abnegação e caridade para com os pacientes que a ele acorriam, carentes de recursos e saúde; vivaz e engajado propagandeador da Doutrina dos Espíritos, deu a seguinte mensagem após o decesso: “Ágil como o pássaro que cruza célere os horizontes do vosso céu nebuloso, admiro, contemplo, bendigo, amo e curvo-me, átomo que sou, ante a grandeza e sabedoria do Criador, sintetizadas nas maravilhas que me cercam. Feliz! Feliz na glória! Oh! Quem poderá jamais traduzir a esplêndida beleza da mansão dos eleitos; os céus, os mundo, os sóis e seu concurso na harmonia do universo? (...) Sou feliz e mais feliz do que esperava, gozando de uma lucidez rara entre os Espíritos, relativamente ao tempo da minha desencarnação.” Após Allan Kardec dá espaço aos depoimentos da Sra. Foulon que atesta, após o desencarne haver despertado cercada de bons Espíritos: “Eles prodigalizavam-me cuidados e carícias, ao mesmo tempo que me mostravam no Espaço um ponto algo semelhante a uma estrela, dizendo: 'é para ali que vai conosco, pois já não pertence mais à Terra'. Então, recordei-me; e, apoiada sobre eles, formando um grupo gracioso que se lança para as esferas desconhecidas, mas na certeza de aí achar a felicidade, subimos, à proporção que a estrela se engrandecia...” - outro dos Espíritos que, em estado de felicidade, depara-se com a paga dos sofrimentos migrando para novo mundo, correspondente a seu estado íntimo de progresso.

O Espírito de um médico russo, ao lhe ser perguntado acerca de sua felicidade assim a expressa: “Essa ventura que gozo é uma espécie de contentamento extremo de mim mesmo, não pelos meus merecimentos - o que seria orgulho - e este é predicado de Espíritos atrasados - mas contentamento como que saturado, imerso no amor de Deus, no reconhecimento da sua infinita bondade. Em suma, é a alegria que nos infunde o bem, podendo supor-te ter a seu arbítrio contribuído para o progresso de outros, que se elevaram até o Criador. Ficamos como que identificados com esse bem-estar, que é uma espécie de fusão do Espírito com a bondade divina.” Emma Livry, a última das bailarinas românticas, teve sua roupa de tule incendida em pleno palco, num tempo em que as casas de espetáculos, os salões e os teatros eram iluminados por candeeiros em chamas; suas queimaduras fizeram-na padecer longos oito meses até sua morte por septicemia em 26 de julho de 1863, com apenas 20 anos de idade. Espontaneamente manifestou-se em mensagens as quais algumas palavras se destacam: “Seja resignado se for ferido e diante de Deus que é o criador absoluto, inclinai-vos pela vossa bondade quando Ele vos der um fardo pesado para suportar. Se Ele vos chamar depois de grandes sofrimentos, se nenhum lamento ou murmúrio entrar em vosso coração, vereis como eram poucas essas dores e as penas da Terra, quando percebeis a recompensa que Deus vos reserva.

E a tal maneira seguem os depoimentos colhidos à mesa mediúnica, dispondo de firme propósito o estudioso para, no recolhimento exigido a própria instrução, encontrar um conteúdo riquíssimo na obra de cujos enxertos demos pálidos fragmentos. O que os Espíritos da Codificação vem a Allan Kardec responder encontra eco desde as mais antigas expressões religiosas e escolas filosóficas, até os mais bem intencionados gurus da auto-ajuda contemporâneos - a felicidade é um estado de alma, particular, ao que o Espiritismo complementa afirmando-a como consequência do progresso do ser, progresso esse que se constitui no avolumar do conhecimento, haurido de existência em existência, uma encarnação após outra, ao longo de um dado período mais ou menos longo. Nenhuma experiência sequer deixa de ser para o Espírito, uma causa que permita aspirar novos saberes, novos conhecimentos, que traga por efeito mais discernimento, compreensão e lucidez. Tais mensagens, muitas outras e seus autores, presentes ao longo das mais de oito mil páginas que Allan Kardec dedicou ao Espiritismo deveriam ser, a este movimento de pessoas que se alegam espíritas, tão familiares quanto o são as figuras bíblicas para os crentes da cristandade - nem de longe com a mesma nula e obtusa idolatria, mas com respeito e afeição semelhantes as devotadas as personagens que pela história particular dos indivíduos passa disseminando zelo e fraternal amor. Sim, pois tais mesmos, por seus depoimentos vêm lembrar o espírita diuturnamente que será preciso planificar a vida, e a vida para além da vida. Pois, por que se o homem comum a quem as cousas do Espírito ignora e a morte lhe é fonte de temor, para o espírita deve ser manancial inesgotável de estudos contínuos e, senão de preocupação, de anseios naturais, esperanças e perspectivas que anteveem possibilidades. O Espiritismo necessita ter um fim prático para a vida do Espírito encarnado, muito além do que apenas pode realizar a fluidoterapia, e do que tenha a ofertar a fala mansa de certos palestrantes ou as narrativas chocantes de vis escrevinhadores de além-túmulo - não, o Espiritismo dá o lenitivo fundamental, indicando ao homem sua origem, sua razão de ser, e seu futuro. Eis aí um manual de instruções que vai muito além do alcance do materialismo, destituindo aos pensadores da matéria a condição de meditabundos patéticos que fogem a antevisão da cova a lhes prescrever um grande e vazio nada. Enquanto a alguns homens parece impossível viver um só dia antecipando seu fim inexorável, ao espírita é impossível viver um só dia sem a necessidade de antevê-lo - pois que a morte pode ser a fonte de grandes sofrimentos, mas apenas ela pressagia a verdadeira felicidade.

Sendo a felicidade dos Espíritos inerente às suas qualidades, haurem-na eles em toda parte em que se encontram, seja à superfície da Terra, no meio dos encarnados, ou no Espaço. (...) O mundo espiritual tem esplendores por toda parte, harmonias e sensações que os Espíritos inferiores, submetidos à influência da matéria, não entreveem sequer, e que somente são acessíveis aos Espíritos purificados.


quinta-feira, 26 de março de 2020

Um Mentor Espiritual Incomoda Muita Gente...


1.
Vivem-se dias em que verdades tácitas precisam ser ditas clara e pausadamente, ainda sob risco de faltar a compreensão de muitos - nossas observações firmadas acerca de Chico Xavier e de questões a ele relacionadas, tais como os autores espirituais que por sua prodigiosa mediunidade vieram legar obras que fomentaram e fomentam confusão, em artigos neste espaço publicados, exortaram certas ordens de observações. Ordinariamente foi possível testemunhar quem desejasse, a exemplo do ocorrido ao médium mineiro, ter admoestações cotidianas de parte de seus mentores espirituais. Tais diretas intervenções parecem, aliás, ser da vontade plena de diversos indivíduos, e suspeitamos que o sejam de uma imensa maioria, mesmo dentre os que não se identificam como espíritas. Destes não há o que censurar em abrir mão do livre-arbítrio, mas dos espíritas é de espantar, senão condenar - no entanto, esta prática necromântica, ou seja, a consulta dos mortos para aconselhamento acerca do futuro é antiquíssima, muitos milhares de anos anterior ao surgimento do Espiritismo. É contra esta, aliás, que o legislador hebreu Moisés vem manifestar-se no livro do Deuteronômio, no capítulo 18, versículos de 9 a 12, e o termo usado ali para a condenação da prática é espírito adivinhador (v. 11), deixando claro a presença de tal prática adivinhatória, aquela que pressagia, pressente, desvenda ou descobre antecipadamente fatos ou acontecimentos vindouros. O que prescreve o Espiritismo é bem diverso disto, embora esta necromancia seja imprudente e correntemente levada a efeito em locais e por grupos que se afirmam espíritas. Mais comum ainda é a bibliomancia, em que O Evangelho Segundo o Espiritismo, preferencialmente, é aberto ao acaso, como que movidas suas páginas por uma vontade e inteligência ocultas, a fim de fazer cair num dado capítulo, item ou passagem que caiba ao consultante ou a alguém para quem se pratica tal arte. Estas e demais práticas divinatórias, não seja demasiado redundante registrar, não faz parte das atividades recomendadas pela Doutrina dos Espíritos, sendo seus executores inteira e pessoalmente responsáveis por estas e seus efeitos.

Há um apelo candente na ideia de se conhecer o futuro, embora aqueles que a historiografia notou como capazes de fazê-lo hajam previsto mortes, tragédias e calamidades. A figura nebulosa do médico francês Michel de Nostredame, o Nostradamus, é sempre evocada em tempos incertos e na culminância de hecatombes e fatalidades; o americano Edgar Cayce é outro visionário que tem suas previsões evocadas de quando em vez, para espanto geral, prevendo epidemias e desastres; da Internet, recentemente surgiu a obscura clarividente russa chamada Baba Vanga  que teria previsto a morte de Stalin, o acidente nuclear de Chernobil, os atentados do 11 de setembro e a eleição de Barack Obama a presidência dos EUA - claro, em se tratando da rede mundial de computadores, é difícil comprovar o que de fato ela teria antecipado. Esses e outros tantos alimentam a crença e as superstições, além dos temores mais intestinos das mentes sensíveis, que ora se abstém de ir comprovar se o que lhes alcança é o que fora adivinhado, haja visto que muitos dentre estes profetas usam de linguagem cifrada ou hermética, carecendo de interpretes ou tradutores nem sempre hábeis, ou bem intencionados. Uma questão frequentemente cara aos céticos mais renhidos diz respeito ao fato segundo o qual tais previsões, se reais, seriam a derrogação do livre-arbítrio - contudo, Allan Kardec trata desta questão, outrossim, em A Gênese com sua Teoria da Presciência, ou seja, o conhecimento do futuro. Neste ensaio ele cria a figura de um viajante que, posicionado ao cume de uma alta montanha é capaz de ver ao longe o caminho pelo qual vai um peregrino, antevendo na distância o que aguarda a este adiante - pudesse o que está acima comunicar do que há no porvir, parecerá prever o futuro do que está embaixo. Desta forma, o professor conclui:

Bem se compreende, pois, que, de conformidade com o grau de sua perfeição, possa um Espírito abarcar um período de alguns anos, de alguns séculos, mesmo de muitos milhares de anos, porquanto, que é um século em face do infinito? Diante dele, os acontecimentos não se desenrolam sucessivamente, como os incidentes da estrada diante do viajor: ele vê simultaneamente o começo e o fim do período; todos os eventos que, nesse período, constituem o futuro para o homem da Terra são o presente para ele, que poderia então vir dizer-nos com certeza: tal coisa acontecerá em tal época, porque essa coisa ele a vê como o homem da montanha vê o que espera o viajante no curso da viajem. Se assim não procede, é porque poderia ser prejudicial ao homem o conhecimento do futuro, conhecimento que lhe pearia o livre-arbítrio, paralisá-lo-ia no trabalho que lhe cumpre executar a bem do seu progresso.

O caminho traçado ao viajante é como que a linha indelével ascendente do progresso do Espírito, e a um outro Espírito que está muito acima deste hipotético que se lhe está abaixo, vê-lo em sua trajetória será como que antever, precisamente, suas ações, seus próximos passos, assim como um pai é capaz de antever as ações de um filho porque o conhece em profundidade. Não obstante, aos pais compete fatalmente confiar haver dado o melhor sustentáculo moral e espiritual aos filhos, a fim que estes fruam pela vida por seus próprios esforços, cometendo de per si os atos que resultarão desdobramentos ora positivos, ora negativos, cujos quais lhes caberá inteira responsabilidade. Saber o que resultará amanhã os passos dados hoje parece um alento, cuja tentação abarrota em todos os lugares, as mais disparatadas sessões mediúnicas, numa irresponsável prática da necromancia. Em complemento a questão 871 de O Livro dos Espíritos, Allan Kardec vem lucidamente esclarecer acerca dos efeitos do conhecimento do futuro:

Quanto mais se reflete nas consequências que teria para o homem o conhecimento do futuro, melhor se vê quanto foi sábia a Providência em lho ocultar. A certeza de um acontecimento venturoso o lançaria na inação. A de um acontecimento infeliz o encheria de desânimo. Em ambos os casos, suas forças ficariam paralisadas. Daí o não lhe ser mostrado o futuro, senão como meta que lhe cumpre atingir por seus esforços, mas ignorando os trâmites por que terá de passar para alcançá-la. O conhecimento de todos os incidentes da jornada lhe tolheria a iniciativa e o uso do livre-arbítrio. Ele se deixaria resvalar pelo declive fatal dos acontecimentos, sem exercer suas faculdades. Quando o feliz êxito de uma coisa está assegurado, ninguém mais com ela se preocupa.

2.
A presciência guarda este caráter extraordinário para as massas ignorantes, tanto quanto para certos espiritualistas que, equivocadamente creem ser espíritas - e embora estes últimos venham apelar as vozes de além-túmulo para conhecer o porvir, a generalidade dos homens sobre a Terra busca, com pontuais e anonimas exceções, guiar-se por intermédio de práticas divinatórias, sendo o horóscopo diário a mais ordinária de suas expressões. Não há nenhum equívoco em desejar um conselho, uma orientação, a voz de uma experiência superior quando diante de uma decisão difícil a ser tomada - é tal tarefa, aliás, que cabe aos Espíritos guia, os benfeitores espirituais. Imaginar ou almejar, porém, que estes Espíritos decretem como exatos um futuro venturoso, é por-se na condição de um ingênuo pronto a ser ludibriado. As seguintes questões de O Livro dos Espíritos tratam dos guias:

491. Qual a missão do Espírito protetor?
A de um pai com relação aos filhos; a de guiar o seu protegido pela senda do bem, auxiliá-lo com seus conselhos, consolá-lo nas suas aflições, levantar-lhe o ânimo nas provas da vida.

501. Por que é oculta a ação dos Espíritos sobre a nossa existência e por que, quando nos protegem, não o fazem de modo ostensivo?
Se vos fosse dado contar sempre com a ação deles, não obraríeis por vós mesmos e o vosso Espírito não progrediria. Para que este possa adiantar-se, precisa de experiência, adquirindo-a frequentemente à sua custa. É necessário que exercite suas forças, sem o que seria como a criança a quem não consentem que ande sozinha. A ação dos Espíritos que vos querem bem é sempre regulada de maneira que não tolha o livre-arbítrio, porquanto se não tivésseis responsabilidade, não avançaríeis na senda que vos há de conduzir a Deus. Não vendo quem o ampara, o homem se confia às suas próprias forças. Sobre ele, entretanto, vela o seu guia e, de tempos em tempos, lhe brada, advertindo-o do perigo.

Esta última questão, a propósito, resulta num comprovante mais da atuação anômala de Emmanuel, a que já foi detidamente tratada em artigos anteriores aqui publicados. Não nos furtamos, uma vez mais, vir transcrever as lições de Allan Kardec e dos Espíritos da Codificação acerca deste tema - em O Céu e o Inferno, em seu capítulo X, Intervenção dos Demônios nas Modernas Manifestações, pode-se apreciar o seguinte:

Que mérito teríamos nós se, para tudo saber, apenas bastasse interrogar os Espíritos? Por esse preço, todo imbecil poderia tornar-se sábio.

Do mesmo tomo, no capítulo VII, As Penas Futuras Segundo o Espiritismo, encontra-se:

Quaisquer que sejam a inferioridade e perversidade dos Espíritos, Deus jamais os abandona. Todos têm seu anjo da guarda (guia) que por eles vela, espreita-lhes os movimentos da alma, e se esforçam por suscitar-lhes bons pensamentos, desejosos de progredir, de reparar em uma nova existência o mal que praticaram. Contudo, essa interferência do guia faz-se quase sempre ocultamente e de modo a não haver pressão, pois que o Espírito deve progredir por impulso da própria vontade, nunca por qualquer sujeição.

Ou ainda, em O Livro dos Médiuns, item 303, há a passagem:

Se os homens não tivessem mais do que se dirigirem aos Espíritos para tudo saberem, estariam privados do livre-arbítrio e fora do caminho traçado por Deus à Humanidade. O homem deve agir por si mesmo. Deus não manda os Espíritos para que lhe achanem a estrada material da vida, mas para que lhe preparem a do futuro.

Ainda que o sentido à tez da pele por Chico Xavier não lidou diretamente com quaisquer previsões mirabolantes acerca de seu futuro, as intervenções empreendidas por Emmanuel no curso de tolher o livre-arbítrio deste foram além de consentidas, foram desejadas, exortadas e esperadas. Nem a doença, nem o cansaço, nem o comum das expressões da vida humana na Terra podiam desviar Chico Xavier de prosseguir trabalhando, psicografando, atendendo aos necessitados que para si acorriam com toda sorte de adversidade a afligir-lhes. O médium mineiro pôs-se aos caprichos de um Espírito que por ele, coagiu a seguir caminhos, constrangeu a tomar ações e atitudes, mesmo que lhe fosse contrário ao arbítrio. Tal relação em que a sujeição de um frente a dominação do outro urdiram um harmônico encadeamento com um fim que, em retrospecto, é conhecido e reconhecido, encontra muitos apoiadores e aderentes, que sob os mais diversos e absurdos argumentos defendem tudo quanto a biografia de Chico Xavier registrou. Subsiste firmemente a ideia segundo a qual o médium era um Espírito missionário, o que aponta a necessidade de coagir por parte de Emmanuel. Mas eis que a lógica se estabelece contra tal pressuposto, indicando para efeito didático, contrapor o momento em que Allan Kardec, de fato um Espírito missionário, fora convidado a assumir sua imensa tarefa, e o modo por que Chico Xavier fora impelido por Emmanuel ao trabalho de servir a registrar um mundo de obras equivocadas, cujos erros foram já alvo de artigos passados. De mais a mais, quem assim crê, demonstra desconhecer as funções de um benfeitor espiritual, bem como carece de maior estudo em relação ao livre-arbítrio, tanto quanto aos aspectos da vida do médium mineiro - o fato de alguns, ou muitos indivíduos terem sido tocados pessoalmente pela obra deste, ou terem sido levados ao Espiritismo por estas, não é o indicativo senão da confusão e deturpação aí contidas. O que ganha o Espiritismo em ter aderentes que se encontram presos por uma divida de gratidão que cega, afeitos ao desmedido das emoções e não a retidão da lógica racional?

3.
As duas questões que abrem o seguimento anterior pintam a figura dos benfeitores espirituais como pais; em complemento a questão 495 de O Livro dos Espíritos, São Luís e Santo Agostinho tecem outra imagem igualmente calorosa e receptiva:

Oh! Interrogai os vossos anjos guardiães; estabelecei entre eles e vós essa terna intimidade que reina entre os melhores amigos. Não penseis em lhes ocultar nada, pois que eles têm o olhar de Deus e não podeis enganá-los. Pensai no futuro; procurai adiantar-vos na vida presente. Assim fazendo, encurtarei vossas provas e mais felizes tornareis as vossas existências. Vamos, homens, coragem! De uma vez por todas, lançai para longe todos os preconceitos e ideias preconcebidas. Entrai na nova senda que diante dos passos se vos abre. Caminhai! Tendes guias, segui-os, que a meta não vos pode faltar, porquanto essa meta é o próprio Deus. (...) Não vos parece grandemente consoladora a ideia de terdes sempre junto de vós seres que vos são superiores, prontos sempre a vos aconselhar e amparar, a vos ajudar na ascensão da abrupta montanha do bem; mais sinceros e dedicados amigos do que todos os que mais intimamente se vos liguem na Terra?

Num mundo em que o materialismo é a tônica, tais palavras acerca dos benfeitores espirituais soam anacrônicas - que homens de fato podem analisar os próprios pensamentos e ações e afirmar que avançaram irreprochavelmente na senda do bem, que não faltaram uma só vez e dedicaram todo seu ser ao progresso e satisfação de seus pares? O superlativo chamamento da vida, transfigurado na oculta presença dos benfeitores espirituais pede um rumo diverso do entendido pelas massas agônicas que hora se debatem sobre a Terra. A felicidade do homem é o mesmo gozo do animal, da satisfação das necessidades do corpo, do descanso necessário, de suprir a fome que atordoa e a sede que esgota, de fruir do sexo e de prazeres fugazes - a felicidade espiritual é uma quimera que não atrai, a fé no futuro é letra morta nos Evangelhos, a promessa do Reino de Deus é um distante e caduco voto. O que importa é contentar agora, imediatamente. Diante disto a sentença que versa que Deus não manda os Espíritos para que lhe achanem a estrada material da vida, mas para que lhe preparem a do futuro parecem escritas em indecifrável idioma - nem mesmo aqueles que se propõem espíritas parecem prontos a compreender tal fato. Menos ainda dispostos estão a mudança de postura consciente exigida para avançar por este caminho.

Somente aí, em insuflar a bonomia, é que se irmana a postura de Emmanuel a dos guias espirituais; todavia, em que se prestem a toda assistência que podem remotamente dar, instando bom ânimo, orientando e guiando aos esforços sinceros na senda do progresso, nenhum guia espiritual há que pressionar seu protegido, constranger ou mesmo ameaçar, indo contra o livre-arbítrio deste. E aí é que pesam os fatos contra o mentor de Chico Xavier - o modo como operou atenta contra o bom senso e contra os postulados espíritas. Caberá ao leitor se questionar, ao fazer uma análise pessoal e íntima, se tem as disposições particulares do médium mineiro para suportar um mentor espiritual, presente, atuante e ostensivamente autoritário, que o impedirá de descansar, de recuperar-se de uma moléstia, de faltar aos compromissos assumidos por razões judiciosas, de fruir conversas vãs ou sequer aprender a tocar um instrumento musical. O capiau interiorano suportou isto e muito mais ao longo de mais de setenta anos, como bem se pode ler em qualquer de suas biografias disponíveis. Quererão insistir em afirmar a missão de Chico Xavier como forma de indultar Emmanuel, ou a solicitar averiguar o resultado prático de tal aberrante relação, qual seja os mais de quatro centenas de livros psicografados, quando de fato o conteúdo destes não transforma o médium mineiro em um Espírito missionário, menos ainda Emmanuel em um benfeitor espiritual. E disto já tratamos com riqueza de minucias em artigos aqui publicados no ano de 2019, e que estão prontos a apreciação de qualquer interessado.

O que se pode concluir diante disto? Que Emmanuel não fora um guia espiritual, tampouco que haja Chico Xavier sido tão bom quanto lhe supre o mito - a este pormenor, a propósito, dão as ações de bonomia do médium muito mais um caráter publicitário do que sincero. Chico Xavier não poderia ter desejado marqueteiro melhor.

Destarte, para este mar sem fim de cabeças humanas que deambulam em busca da felicidade, desta mesma felicidade de contornos materialistas, resta aos que aí, acompanhando a marcha aspiram e pressentem a vida como uma fenômeno muito mais amplo, debruçar esforços ao estudo de doutrinas espiritualistas, das quais o Espiritismo é senão, para nós outros, o expoente máximo - e de seu Codificador, o professor Allan Kardec, surge uma voz de ânimo desde mais de cento e cinquenta anos passados, instando a um fim que o futuro reserva a todos:

Todos os Espíritos, mais ou menos bons, quando encarnados, constituem a espécie humana e, como o nosso mundo é um dos menos adiantados, nele se conta maior número de Espíritos maus do que de bons. Tal a razão por que aí vemos tanta perversidade. Façamos, pois, todos os esforços para a este planeta não voltarmos, após a presente estada, e para merecermos ir repousar em mundo melhor, em um desses mundos privilegiados, onde não nos lembraremos da nossa passagem por aqui, senão como de um exílio temporário.

terça-feira, 10 de março de 2020

Transfiguração



Em artigo aqui publicado em 4 de outubro último, sob o título Qual o Tamanho do Espírito?, vimos expor considerações acerca de aspectos poucos conhecidos e debatidos do perispírito, no tocante as suas propriedades, relativo a estatura do ser. Ao final, não repercute senão a verdade havermos concluído que muitos dos seres míticos, mitológicos e folclóricos, dentre as minúsculas fadas pouco maiores que alguns insetos, até os gigantes que se elevam acima das copas das árvores, resultam da visão de Espíritos que por tais formas se apresentam. Podem mesmo ser a reminiscência de médiuns que os viram quando em estados excitatórios da consciência, quais os sonâmbulos e os extáticos - sabe-se que em erraticidade, uma multidão infindável de indivíduos toma formas as mais diversas. Para se conceber o que há por aí, será preciso imaginar as figuras mais ostensivamente chamativas dentre o enorme espectro dos tipos humanos encarnados, dos enormemente altos acometidos de gigantismo aos mais diminutos representantes dos portadores de nanismo primordial, daqueles vitimados pela morbidez da obesidade aos mais esquálidos sujeitos, dos casos mais graves e jamais registrados pela medicina teratológica de gemelaridades parasitárias até os indivíduos mais bizarros que a modificação corporal da matéria dá um pálido esboço - sem que sejam esquecidos os mais insólitos quadros do hibridismos, em que a figura humana mescla-se a dos animais, e mesmo o surgimento dos seres mitológicos dignos dos bestiários mais ricos do medievo. Obviamente, autores  sem nenhum conhecimento da Doutrina dos Espíritos, em nome desta atestaram a existência de tais criaturas como expressões reais dos mesmos, e não pelo que de fato são, ou seja, Espíritos humanos que tomaram tais aparências sob os mais íntimos e singulares pretextos.

Contudo, a questão que se apresenta pode, para certas sensibilidades, ser igualmente perturbadora. Um dos raros fenômenos decorridos do perispírito é a transfiguração. Como operada no Evangelho de Marcos, pareceu um dos muitos milagres catalogados em tais textos sem um fim útil - claro que, por se tratar de Jesus e, considerando-se como havendo de fato ocorrido, sua transfiguração teve senão o patente objetivo de, uma vez mais, comprovar a doutrina da existência e sobrevivência do Espirito aos seus discípulos. Não tendo tal fenômeno ocorrido apenas com Jesus, mas observado ao longo de toda a história humana, o Espiritismo dele tratou como manifestação mediúnica incomum, porém absolutamente natural. Seu registro mais significativo se encontra em O Livro dos Médiuns, no capítulo VII da Segundo Parte, sob o título Da Bicorporeidade e da Transfiguração, onde Allan Kardec o define como a mudança do aspecto de um corpo vivo. A partir de então narra o ocorrido a uma mocinha natural de Saint-Étienne, cidade situada há 60km. de Lyon e capital do distrito do Loire - esta jovem de cerca de 15 anos possuía uma invulgar capacidade para operar o fenômeno da transfiguração, e com tal habilidade que reproduzia magistralmente a aparência quanto os trejeitos e expressões dos Espíritos, além de seu peso corporal. O Codificador explica:

Está, em princípio, admitido que o Espírito pode dar ao seu perispírito todas as aparências; que, mediante uma modificação na disposição molecular, pode dar-lhe a visibilidade, a tangibilidade e, conseguintemente, a opacidade; que o perispírito de uma pessoa viva, isolado do corpo, é passível das mesmas transformações; que essa mudança de estado se opera pela combinação dos fluidos. Figuremos agora o perispírito de uma pessoa viva, não isolado, mas irradiando-se em volta do corpo, de maneira a envolvê-lo numa espécie de vapor. Nesse estado, passível se torna das mesmas modificações de que o seria, se do corpo estivesse separado. Perdendo ele a sua transparência, o corpo pode desaparecer, tornar-se invisível, ficar velado, como se mergulhado numa bruma. Poderá então o perispírito mudar de aspecto, fazer-se brilhante, se tal for a vontade do Espírito e se este dispuser de poder para tanto. Um outro Espírito, combinando seus fluidos com os do primeiro, poderá, a essa combinação de fluidos, imprimir a aparência que lhe é própria, de tal sorte, que o corpo real desapareça sob o envoltório fluídico exterior, cuja aparência pode variar à vontade do Espírito. Esta parece ser a verdadeira causa do estranho fenômeno e raro, cumpra se diga, da transfiguração.

Em edição de março de 1859 da Revista Espírita, Allan Kardec volta a questão, obtendo uma série de respostas de São Luís, as quais se destacam os dados seguimentos:

3.Como se produz esse efeito?
Resp. - A transfiguração, como o entendeis, nada mais é que uma modificação da aparência, uma mudança ou uma alteração das feições que pode ser produzida pela ação do próprio Espírito sobre o seu envoltório ou por uma influência exterior. O corpo não muda jamais; todavia, em consequência de uma contração nervosa, adquire aparências diversas.

7. Parece resultar do que acabais de dizer que no fenômeno da transfiguração podem ocorrer dois efeitos: 1º_Alteração dos traços do corpo real em consequência de uma contração nervosa; 2º_Aparência variável do perispírito, tornado visível. É assim que devemos entender?
Resp. - Certamente.

Com efeito, desde que o perispírito pode isolar-se do corpo e tornar-se visível; que, por sua extrema sutileza, pode adquirir diversas aparências, conforme a vontade do Espírito, concebe-se sem dificuldade que assim ocorra com uma pessoa transfigurada: o corpo continua o mesmo; somente o perispírito mudou de aspecto. Mas, perguntarão, em que se transforma o corpo? Por que razão o observador não vê uma imagem dupla, a saber, de um lado o corpo real e do outro o perispírito transfigurado?

Eximindo-se de estender o assunto aqui, apesar de tais questionamentos, na edição de maio de 1861 da Revista Espírita, retoma ele a abordagem, de tal feita referindo-se ao seguimento acima anotado de O Livro dos Médiuns; observemos:

4. Se, no aumento de volume e peso da mocinha das cercanias de Saint-Étienne, o fenômeno se produzia pelo adensamento de seu perispírito, combinado com o de seu irmão, como é que os olhos dela, que deviam ter ficado no mesmo lugar, podiam ver através da espessa camada de um novo corpo que se formava diante deles?
Resp. - Como veem os sonâmbulos com as pálpebras fechadas: pelos olhos da alma.

5. No fenômeno citado o corpo aumentou. No fim do capítulo VII está dito ser provável que se a transfiguração tivesse ocorrido sob o aspecto de uma criancinha, o peso teria diminuído proporcionalmente. Não posso me dar conta, conforme a teoria da irradiação e da transfiguração do perispírito, de que este possa tornar-se menor que um corpo sólido. Parece-me que o último deveria ultrapassar os dois perispíritos combinados.
Resp. - Como o corpo pode tornar-se invisível pela vontade de um Espírito superior, o da mocinha também se torna invisível, pela força de um poder independente de sua vontade. Ao mesmo tempo, combinando-se com o do menino, seu perispírito pode formar e realmente forma a imagem dessa criança. A teoria da mudança do peso específico te é conhecida.

Infere-se, portanto que algumas questões mantiveram o pensamento de Allan Kardec ocupado no tocante a transfiguração, e no particular deste caso facultado pela jovem médium stéphanoise. Tais mesmas questões de apelo inegável para qualquer estudante do Espiritismo - afinal se concebe que a garota tinha seu perispírito combinado ao perispírito do Espirito comunicante, ao qual se tornava visível, podendo mesmo tornar-se tangível ao ponto de seu peso ser mensurado. Enxergaria a médium, envolta pela opacidade de tal 'casca' perispiritual? Claro, pelos olhos da alma, foi a resposta que o Codificador obteve. Manifestando um Espírito superior a sua estatura, nenhuma dificuldade em se compreender que a médium ficara contida em seu imo, mas e se o caso fosse oposto? Acaso um médium de boa altura, um adulto, viesse manifestar o Espírito de uma criança? - do mesmo modo compreende-se que parte do corpo do médium, a excedente na diferença de sua altura frente a do Espírito, tornar-se-ia invisível. Não é, portanto, absurdo concluir que o médium e o Espírito neste fenômeno vem ocupar um mesmo espaço, imprescindível para operar-se a transfiguração - diversamente das aparições tangíveis, onde o médium, frequentemente em repouso em uma cadeira, cede parte de seu fluido para combiná-lo ao do Espírito, que ganha os ambientes de modo independente e com certa autonomia.

Na mesma edição de maio de 1861 da Revista Espírita, em Conversas Familiares de Além Túmulo. Dr. Glass, acha-se transcrito diálogo de Allan Kardec com o Espírito deste médico desencarnado precocemente aos 35 anos, em fevereiro de 1861, registrado como fervoroso espírita. Algumas das questões aí notadas são bastante interessantes e vão aprofundar os estudos aqui apresentados:

Fazeis distinção entre o vosso Espírito e o vosso perispírito? Qual a diferença que estabeleceis entre as duas coisas?
Resp. - Penso, logo sinto e tenho uma alma, como disse um filósofo. Não sei mais que ele a respeito. Quanto ao perispírito, é uma forma, como sabeis fluídica e natural; mas buscar a alma é querer buscar o absoluto espiritual.

Credes que a faculdade de pensar resida no perispírito? Numa palavra, que a alma e o perispírito sejam uma só e a mesma coisa?
Resp. - É absolutamente como se perguntásseis se o pensamento reside no vosso corpo. Um se vê; o outro se sente e se conhece.

Assim, não sois um ser vago e indefinido, mas um ser limitado e circunscrito?
Resp. - Limitado, sim; mas rápido como o pensamento.

Quereis indicar o lugar que estais aqui?
Resp. - À vossa esquerda e à direita do médium.

Fostes obrigado a deixar o vosso lugar para mo ceder?
Resp. - Absolutamente: nós passamos através de tudo, como tudo passa através de nós; é o corpo espiritual.

Assim, estou mergulhado em vós?
Resp. - Sim.

Por que não vos sinto?
Resp. - Porque os fluidos que compõem o perispírito são muito etéreos, não suficientemente materiais para vós; mas pela prece, pela vontade, numa palavra, pela fé, os fluidos podem tornar-se mais ponderáveis, mais materiais, e mesmo afetar o tato, o que acontece nas manifestações físicas e é a conclusão deste mistério.

Resposta a que Allan Kardec observa: “Suponhamos um raio luminoso penetrando num local escuro; pode-se atravessá-lo, nele mergulhar, sem lhe alterar a forma nem a natureza. Embora esse raio seja uma espécie de matéria, é tão sutil que não oferece nenhum obstáculo à passagem da matéria mais compacta. Dá-se o mesmo com a coluna de fumaça ou de vapor que, igualmente, pode ser atravessada sem dificuldade. Somente o vapor, por ter mais densidade, produzirá no corpo uma impressão que não produz a luz.” - prossegue ele com as indagações ao falecido doutor.

Suponhamos que neste momento pudésseis tornar-vos visíveis aos olhos da assembleia. Que efeitos produziriam nossos dois corpos, um dentro do outro?
Resp. - O efeito que vós mesmo imaginais, naturalmente; todo o vosso lado esquerdo seria menos visível que o direito; estaria num nevoeiro, no vapor do perispírito; o mesmo ocorreria do lado direito do médium.

Suponhamos agora que vos pudésseis tornar não apenas visível, mas tangível, como já aconteceu algumas vezes. Isto poderia acontecer, conservando a situação em que estamos?
Resp. - Forçosamente eu me mudaria pouco a pouco de lugar; eu me construiria ao vosso lado.

Há pouco, quando falei somente da visibilidade, disseste que estaríeis entre mim e o médium, o que indica que teríeis mudado de lugar. Agora, para a tangibilidade, parece que vos afastais ainda mais. Não seria possível tomardes as duas aparências conservando nossa posição inicial, eu ficando mergulhado em vós?
Resp. - Não, absolutamente, já que respondo a pergunta. Eu me reconstruiria ao lado. Não me posso solidificar naquela posição; só posso aí ficar se permanecer fluídico.

O perispírito é maleável aos caprichos do Espírito; pode expandir ou retrair, ou penetrar matéria sólida, permitindo ainda que dois seres ocupem um mesmo espaço - se no primeiro caso o Espírito se manifesta visível e tangivelmente a ponto de encobrir a médium, é porque a junção do fluido de ambos faculta tal possibilidade; diversamente do aventado por Allan Kardec ao Espírito do Dr. Glass, em que a tangibilidade nada tem que ver com a transfiguração, e certamente os fluidos aí usados o seriam de modos diversos. Mas, preciso é atentar para o fato de que o Codificador não fora médium ostensivo, a tal que nenhuma impressão lhe causou estar mergulhado no Espírito do Dr. Glass. Contrariando o consagrado pela cultura popular, em que a penetrabilidade dos fluidos sempre permitiu a fantasmas a habilidade de atravessar matéria sólida, aqui se verifica que podem muito bem permanecer imersos nela, como que integrando momentaneamente um obstáculo ao qual lhes é insensível e que, imagina-se, para muitos chega a ser invisível. O diálogo com o Dr. Glass é um seguimento transcrito de bom tamanho, levando o leitor a concluir que haja se tratado de uma interação algo longa, o que não causou nenhuma perturbação ao Codificador. Não nos surpreende, portanto, as visões de médiuns que hajam reportado Espíritos ocupando o mesmo assento que um encarnado durante palestras e cursos - parece impactante? não menos é imaginar uma multidão invisível de Espíritos desempenhando os afazeres dos encarnados, mesclando-se a estes, operando máquinas, conduzindo veículos, ministrando aulas, usando sanitários, participando de atividades desportivas, orando em templos e igrejas, permitindo-se o hedonismo de festas e espetáculos, enfim, tudo quanto constitui ocupação humana.

Pode-se pensar equivocadamente, principalmente os defensores da ideia segundo a qual existem locais circunscritos destinados a conter Espíritos, que estes 'desgarrados' são necessariamente maus ou como preferem reputá-los, trevosos - que as trevas residem nos corações e mentes dos homens, filha esta da ignorância das Leis Naturais, é o saber esperado de todo espírita. Como propugna a Doutrina dos Espíritos, os Espíritos compõem toda uma população invisível, a mover-se em torno de nós; estão por toda parte no espaço e ao nosso lado, vendo-nos e acotovelando-nos de contínuo.
Há toda sorte de indivíduos aí, mas por certo nenhum que escape ao esperado para o gênero humano encarnado na Terra.

Algumas pessoas a quem foi exposto o conteúdo do presente artigo questionaram se não haveria, pela contínua atividade dos Espíritos em meio e através dos encarnados a chamada incorporação - faltou-lhes, claro, apresentar a questão 141 de O Livro dos Espíritos. O termo é, infelizmente, ainda de uso corrente nos círculos que se acreditam espíritas, e acaba por traduzir erroneamente as mais variadas medianimidades, como a psicofonia e a psicografia. O Espírito não fica encerrado no corpo físico, visto que sua natureza, como explanado no artigo a que reportamos no início deste, difere do que se compreende por matéria - aliás, está penetrabilidade, sua particularidade reproduzida pelo perispírito, leva o estudioso a especulações sem fim acerca da íntima natureza do ser espiritual, sem um termo satisfatório, contudo. Outras indagações mais facultadas por este tema tão interessante guardam na mediunidade suas dúvidas mais nevrálgicas - informes contaminantes da literatura mediúnica vem exortar a confusão. Para aclarar a questão em definitivo, ou antes para compreender corretamente o mecanismo da mediunidade, um pequeno trecho de Estudos sobre os Possessos de Morzine, ensaio publicado na Revista Espírita em seu número de dezembro de 1862, encerra este presente opúsculo com as sapienciais palavras de Allan Kardec:

Quando um Espírito quer agir sobre uma pessoa, dela se aproxima e a envolve, por assim dizer, com o seu perispírito, como num manto; os fluidos se interpenetram, os dois pensamentos e as duas vontades se confundem e, então, o Espírito pode servir-se daquele corpo como se fora o seu próprio, fazê-lo agir à sua vontade, falar, escrever, desenhar, etc. Tais são os médiuns.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

A Importância dos Romances Mediúnicos



Deve-se publicar tudo quanto dizem os Espíritos? perguntaram a Allan Kardec certa feita, ao que ele respondeu em artigo da Revista Espírita em seu número de novembro de 1859 com uma bem argumentada negativa. O panorama da literatura mediúnica dos últimos cem anos é o testemunho límpido da absoluta ignorância ou desobediência as instruções do Codificador – fosse diferente, não haveriam tantos Espíritos pseudo-sábios sendo adorados como luminares do oculto e da sabedoria universal de todos os tempos. Claramente não se pode imputar ao desconhecimento de tal passagem este montante de obras existentes, mas ao arbítrio puro e simples de instituições interessadas em fazer da literatura mediúnica um negócio, um meio de vida e acumulo de fortunas; não fosse tão rentável não haveriam tantas editoras alimentando o seguimento. Não se pode, outrossim, deixar de afirmar que a oferta atende a demanda, ou seja, leitores ignorantes ou descompromissados com a própria instrução, são os consumidores de tal literatura, absorvendo tais narrativas como expressão cabal da verdade espírita.

Vimos pessoalmente alguns esboços de histórias narradas por Espíritos que, por vontade dos médiuns envolvidos, não foram desenvolvidas, não tiveram seguimento, e, até onde pudemos saber, não foram continuadas por outros. Todavia, uma amostra que, ao que tudo indica está completa, nos foi ofertada por um conhecido de nome Joaquim, um desses indivíduos de grande potencial que, infelizmente, insiste em não dar a devida atenção as obras kardecianas. Segundo ele, o manuscrito fora obtido por um senhor à beira de um rio, onde este habitualmente pescava – não se sabe se por meio da psicografia ou fruto de inspiração; menos ainda se fora trabalho de um só folego ou haurida ao longo de um dado tempo. Fato é que o sujeito imputa a autoria a inteligência oculta de um Espírito. A obra intitulada Pergaminhos do Arcanjo se compõem de sete seguimentos ou capítulos distintos em que o escritor, tomando para si a identidade de Lúcifer, o anjo caído da tradição judaico-cristã, verseja em rimas acerca da sua influência sobre a existência humana. O texto deixa claro se tratar de uma produção sincrética, que cala mais profundamente a mentalidade do que é chamado pejorativamente de catopírita, ou aqueles que se consideram espíritas, sem que hajam aberto mão da doutrina católica, ainda que de modo inconsciente.

A suposição da existência de um Espírito superior que, por qualquer razão, haja involuido é contrário aos postulados da Doutrina dos Espíritos – mas a mítica figura de Lúcifer é poderosa, e sob quaisquer argumentos ela será explicada, justificada, tomada como real, ainda que para tanto seja preciso adequar-se este ao Espiritismo. Assim também é feito com a virgindade de Maria, mãe de Jesus, entre outras passagens. Busca-se sempre adaptar as passagens mais obscuras, hipotéticas ou fantásticas a fim de encontrar-lhes argumentos justificáveis – por meio de brincadeiras sexuais que não envolviam a penetração propriamente dita, argumentaram certos palestrantes supostamente espíritas que Maria teria tido contato com o sêmen de José, gerando assim a concepção miraculosa. Qualquer exegeta sabe que a imaculada concepção parte da interpolação de histórias e tradições de avatares e luminares muito comuns e populares no oriente àquele tempo – para citar um exemplo, Krishna fora parido de uma virgem. Faz-se necessário preservar o hímen sagrado de Maria a qualquer custo, e o Docetismo herético do medievo ressurgido no advento de Roustaing é apenas uma tentativa mais neste sentido. A teima em tal tema se deve a mitificação da virgindade, como sinônimo de pureza de alma – o espírita deve saber que o Espírito é tudo e o corpo é nada, certo?

A figura de Lúcifer traz a memória a obra O Abismo de Rafael Ranieri, amicíssimo de Francisco Cândido Xavier, livro este inspirado, e sob orientação do Espírito André Luiz é verdadeiro desafio a qualquer dos sectários deste, dado o nível dantesco de suas ‘revelações’. No capítulo 14 da referida, sob o conveniente e sugestivo título A Legião, o próprio arcanjo caído dá as caras, e é descrito da seguinte maneira:

Sob pesadas correntes, um ser como jamais foi dado ver a criaturas da superfície da Terra ali se encontrava prisioneiro. Conquanto a fisionomia lembrasse a fisionomia de um homem ou de um espírito de forma humana, estava tão distanciado de nossa espécie quanto um dinossauro de um homem. Descomunal, pernas que lembravam colunas de um edifício, pés que mediam muitos metros de altura, braços cabeludos, embora de pele amarelada e ao mesmo tempo esfogueada, rosto enorme e mais de quinze metros onde dois olhos maus avançavam chamas.

No cadinho de bom senso restante nos aderentes de André Luiz, alguns critérios se interpõem para recusar tais passagens, e as obras de onde foram extraídas. Não obstante, se Lúcifer parece carcomido ante o caminhar natural do progresso das ideias, mesmo nos círculos mais crédulos da suposta prática do Espiritismo, Maria e sua hipotética figura excelsa mantém salutares raízes nas mais vulneráveis mentalidades. No capítulo XIV de O Evangelho Segundo o Espiritismo, Allan Kardec apenas constata o que está expresso nos Evangelhos canônicos ao tratar da família de Jesus, e a inescapável persona de sua mãe.

Pelo que concerne a seus irmãos, sabe-se que não o estimavam. Espíritos pouco adiantados, não lhe compreendiam a missão: tinham por excêntrico o seu proceder e seus ensinamentos não os tocavam, tanto que nenhum deles o seguiu como discípulo. Dir-se-ia mesmo que partilhavam, até certo ponto, das prevenções de seus inimigos. O que é fato, em suma, é que o acolhiam mais como um estranho do que como um irmão, quando aparecia à família. João diz positivamente (7:5), ‘que eles não lhe davam crédito.’ Quanto a sua mãe, ninguém ousaria contestar a ternura que lhe dedicava. Deve-se, entretanto, convir igualmente em que também ela não fazia ideia muito exata da missão do filho, pois não se vê que lhe tenha seguido os ensinos, nem dado testemunho dele, como fez João Batista. O que nela predominava era a solicitude maternal.

Uma solicitude maternal reconhecida como traço do povo hebreu de todos os tempos.

Desditosamente a figura de Maria é adotada, reverenciada e evocada como Espírito superior, suposta madrinha ou espécie de comandante de legiões de Espíritos benfazejos que partem ao socorro dos necessitados, ou cousa que o valha. Francisco Cândido Xavier, numa demonstração clara de culto e do caráter católico pelo qual se pautou a vida toda, em certa ocasião, como fizemos notar em postagem do presente blog datada de 6 de setembro do ano passado, apelou a Emmanuel, supondo-lhe igualmente superior, a que pedisse orientação a mãe de Jesus acerca das denúncias que lhe fazia o sobrinho Amauri Pena Xavier. Claro, o obsessor daria uma resposta qualquer para manter dócil o médium mineiro, seu proceder comum.

O culto mariano tem suas raízes na pré-história, na adoração a entidades femininas, deusas da fertilidade que garantiriam a boa colheita do ano vindouro. Mas, sua antecessora direta, a que o cristianismo nascente adotou por oportuna interpolação é Ísis, que legou-lhe alguns epítetos honoríficos tais como rainha do céu, mãe de deus ou nossa senhora. A influência pagã nas práticas cristãs é, por si só, uma questão que daria mote a muitos artigos – diversos autores no passado, estudiosos do primitivo cristianismo dedicaram obras inteiras a questão, cabendo ao leitor buscar tais tomos, que são de interesse candente ao estudioso espírita, por certo.

Tal manuscrito cuja cópia temos em posse, os Pergaminhos do Arcanjo, são o exemplo flagrante do que se pode obter ao sustentar a crendice e a fé cega, um ilustrativo paradigma que, trabalhado pela maquinaria mercadológica pode resultar em somas consideráveis, sem nenhum acréscimo que não seja exclusivamente material. Não se deve nem se pode publicar tudo quanto digam ou escrevam os Espíritos; não apenas para se evitar explorar a ignorância alheia, mas para se pautar, para variar um cadinho, nas instruções do Codificador. Quantos médiuns e quantos editores preferem o confortável desconhecimento das bases doutrinárias, golpeando de morte a fé raciocinada? A verdade espreita os incautos e os levianos na mesma medida, e ela cobrará seu preço em suas consciências.


quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Velhos livros, novas leituras - "Transição Planetária - Um Grito de Alerta"


Ariston Teles é hoje reconhecido como o 'incorporador' de Francisco Cândido Xavier - e o termo, usado equivocadamente, é este mesmo. Produto do meio, e não da Doutrina dos Espíritos, Ariston Teles fora amigo do médium mineiro, um dos inumeráveis que, após a morte deste em 2002, deu-se a tarefa de enfeixar em livro as reminiscências de tal relação. Chico Xavier é, e permanecerá sendo por muitos anos ainda, um ídolo cultuado, independentemente do que prescreve o Espiritismo acerca da questão. Aos que aderiram a esta crença carente de provas segundo a qual o médium residente em Brasília seria capaz de permitir manifestar-se ostensivamente a Chico Xavier, a que se reconhecer a emulação competente dos maneirismos e tom de voz do falecido - é real? Descrer do fenômeno em particular é recomendável, ainda que a psicofônia seja medianimidade factual; porém, provar que se trata do matuto de Pedro Leopoldo, eis aí o desafio, e o é para os aderentes de sempre, antigos e novos, em devoção.

Nos idos de 1996, Ariston Teles arriscou-se literariamente com esta obra em nossa posse, de título chamativo e apelativo. Nos anos que antecederam a mudança do calendário gregoriano adotado no ocidente, o milenarismo era o furor, conjurando toda sorte de conjecturas acerca do final dos tempos - filmes-catástrofe não deixavam as salas de cinema, enquanto séries de TV prescreviam invasões alienígenas e o colapso civilizatório antevisto pelo bug do milênio. O dito bug não veio, e os alienígenas também não, e a folhinha de 1999 foi trocada pela de 2000; lá se vão vinte anos em que novas formas de pensar e prever o fim do mundo pululam pelas mídias. A geopolítica global incute no homem comum o medo ante a mudança climática, prometendo extinção enquanto terraplanistas ressurgem num movimento pretensamente sério, maculando o conhecimento científico das eras. Naqueles idos o ensejo pedia uma obra milenarista, e terrorista, que insuflasse temor nos corações dos hipotéticos espíritas brasileiros - Ariston Teles não deixou passar, e ainda que reconheça no prefácio deste que o livro não pode ser reconhecido como tal por falta de conteúdo, ei-lo em sua existência como objeto que evoca o intelecto, embora este, singularmente não possa se afirmar que o faça.

Ramatis, um Espírito flagrantemente pseudo-sábio previra, a seu turno, agônicas convulsões de fin de sieclè que, como esperado, não ocorreram. Nesta obra, Ariston Teles alinha-se aos visionários do apocalipse, tendo nos caracteres próprios de uma sociedade em transição os sinais precedentes do Armagedom - ele assim os identifica. Todavia, antes que os fundamentar com argumentos de bom volume, nota-se, e ele o aponta, que cada página registra os tópicos de uma palestra - onde estaria o texto desta palestra? Não atinou ele para tomar nota disto, transcrevendo seus dizeres em seguida? A gramatura do papel que compõe as páginas, bastante denso, contribui para a sensação de um livro confeccionado com o fito oportunista de prover o milenarismo, somando às sensibilidades mais fragilizadas o terrorismo próprio que acompanha os fins de ciclo dos calendários. Fatores naturais pouco ou nenhuma influência sofrem pelo modo como o homem conta o tempo, como o divide e subdivide, como classifica e cria datas com significados próprios e especiais. O autor, o brasiliense que alega falar por Chico Xavier, aqui se deixa levar pelo zeitgeist, sonegando-se a uma abordagem mais crítica para a questão, ainda de interesse tão nevrálgico para certos indivíduos.

O fim do mundo não deveria preocupar, mas que tantas pessoas o temam é assunto oportuno para um estudo - não para o momento, contudo. Importa notar, para tal o presente, que a obra de Ariston Teles foi aqui escolhida para dar inicio a esta sessão justamente por sua condição sui generis: como livro não se sustenta; como obra alvitrada espírita, é um atentado a própria Doutrina. E o é por seu extremo oportunismo, na ambição de amealhar algumas somas em vista da iminência do novo século, e do novo milênio. Não é um livro amparado pelas bases da Doutrina dos Espíritos que Allan Kardec codificou; não aborda a questão a que se propõe de um ângulo seguramente crítico, historiográfico e espírita, o que garantiria, por certo, uma obra imensamente mais interessante, mesmo que seu autor insistisse na defesa de uma visão catastrofista da realidade. Aqui, contudo, não passa de um caça-níqueis em formato de livro; observa-se a capa e seus dizeres sensacionalistas, bem como o título falacioso, visto que a transição planetária prescrita pelo Espiritismo não é neste abordada; pior, fica-se com a certeza que o termo, para Ariston Teles é como que um sinônimo para o fim do mundo. Recomenda-se cuidado com obras de tal qualidade, pois são comuns; aninham-se sobre a corruptela de obra espírita, sem que sequer Allan Kardec haja sido evocado, numa prática ordinária que visa lesar o leitor pelo embuste barato, que pode sair caro.